03/11/10

O PASSADO COMPASSADO DE VIÇOSA

O PASSADO COMPASSADO DE VIÇOSA
EPÍTOME HISTÓRICA DA VELHA SANTA RITA DO TURVO


(DIREITOS RESERVADOS)


TEMAS


Desbravamento, destribalização, aldeamento e catequese
Usurpação territorial e genocídio indígena
Do Pomba ao Xopotó
Provisão e Termo de Posse do 1º Pároco
Formação patrimonial na Passagem do Turvo
Oratório com formalidade de Capela
Descortinando a Viçosa antiga
De Curato a Paróquia
Ciclo de emancipações
Elite política: notícias de governantes
A edilidade viçosense
De distrito à autonomia administrativa
O Distrito da Sede e a Comarca
Trajetória eclesiástica no Século XX
A construção do Santuário: marco de um novo tempo
Câmara, Prefeitura, Fórum e Cadeia
Cemitérios
Música, teatro, cinema, literatura e recreação
Artes Plásticas
Forças, luzes e comunicações
Educando a mocidade
A serviço da comunidade viçosense
Gênese Toponímica
O Dia da Municipalidade
ESAV-UREMG-UFV: A "Escola de Viçosa"
Ode ao meu viçoso vale




Encontra-se legalmente protegido o que aqui se posta, registrado em domínio próprio, conforme a Lei Federal nº 9.610, de 19 de fevereiro de 1998, e artigo 5º (inciso XXVII) da Constituição da República Federativa do Brasil.


José Mário da Silva Rangel
rangelvicosa@gmail.com


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BIBLIOGRAFIA E OUTRAS FONTES CONSULTADAS




Principais referências bibliográficas


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ALMEIDA MAGALHÃES, Bruno de. Arthur Bernardes - Estadista da República
ALVES, Cirene Ferreira. Páginas para Serem Lembradas/Saudade em Dois Tempos – Crônicas de Norah
AMORA, Paulo. Bernardes - Um Estadista de Minas na República
ANDRADE, Rômulo. Escravidão e Cafeicultura em Minas Gerais: o caso da Zona da Mata
ARAÚJO, Paulo José de./ARAÚJO, Fernando. Antônio José Araújo - Esther Rodrigues Araújo
BARBOSA, Waldemar de Almeida. Dicionário Histórico e Geográfico de Minas Gerais
BARRETO, Fausto./LAET, Carlos de. Antologia Nacional (Escritores da Língua Portuguesa. do 20º ao 13º século)
BARROS, Edgard Vasconcelos. O Problema da Liderança
BLASENHEIM, Peter. Uma História Regional: A Zona da Mata Mineira (1870-1906)
BOLIVAR DE ARAÚJO MOREIRA, Cyro. O Centenário de Viçosa e o Presidente Arthur Bernardes
BRANT RIBEIRO FILHO, Antônio. Desbravamento, Caminhos Antigos e Povoamento nos Sertões do Leste – Uma Aventura de Pioneiros/Arthur Bernardes e a Revolução Constitucionalista - Um Resgate Histórico
CABANAS, João. A Columna da Morte
CAMPOS, Humberto de. O Brasil Anedótico
CAPRI, Roberto. Minas Geraes e seus Municípios (Zona da Matta) – (1916)
CARNEIRO, Glauco. História das Revoluções Brasileiras
CARVALHO, José Geraldo Vidigal de. Temas Oratórios/Temas Finais/Temas Pedagógicos/Temas Históricos/Viçosa Honra Dom Viçoso
CASTRO DE CARVALHO, Daniela Corrêa e. Além das palavras: o discurso conservador das elites agrárias mineiras a partir do Jornal de Viçosa na década de 1920
CASTRO FILHO, Sebastião da Cunha. Travessa Santa Rita, nº 60
CHIAVENATO, Júlio José. Bandeirismo – Dominação e Violência
COHEN, Ilka Stern. Bombas sobre São Paulo, A Revolução de 1924
COSTA, Joaquim Ribeiro da. Toponímia de Minas Gerais, com Estudo Histórico da Divisão Administrativa
COSTA VAL FILHO, João Braz da. Dr. João Braz da Costa Val: Uma vida, uma época
FIGUEIREDO, Celso Falabela de. Os Sertões do Leste: Achegas para a História da Zona da Mata
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GOMIDE, Tarcísio. Universidade Federal de Viçosa: Esboço de uma Síntese Histórica
GONÇALVES, Ary. O Segredo Revelado de Guido Marlière
GOULART, José Alípio. Tropas e Tropeiros na Formação do Brasil
GUEDES Pinto. João Bosco. São José do Triunfo - "Um povoado mineiro entre outros"
HILAIRE, August Saint. Viagem ao Interior do Brasil
HOLANDA, Sérgio Buarque de. História Geral da Civilização Brasileira: A Época Colonial
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LADEIRA, José Dionísio. Sempre Viçosa/Gente Viçosa/Viçosa, Uma Saudade/Viçosa é Terna
LAM-SÁNCHES, Alfredo. A UFV nos Tempos da Escola Superior de Agricultura
LEITE, Sebastião Lourival. Crônicas de um 'Barnabé'
LIMA, Alberto de Souza. Arthur Bernardes Perante a História
MAFFIA FILHO, João. Crônicas e Discursos
MAFRA, Johnny J../VON RONDON, Simone. Arduíno Bolivar: Resgate da Identidade Histórico-Cultural de Minas Gerais
MAGALHÃES, Gilson Faria Potsch./SABIONI, Gustavo Soares./BORGES, José Marcondes. A Universidade Federal de Viçosa no Século XX
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MATOSO, Caetano Costa. Diário da Jornada que Faz a Minas Gerais em 1749
MATOS, Raimundo José da Silva. Corografia Histórica da Província de Minas Gerais
MEIRELLES, Domingos. A noite das Grandes Fogueiras
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MERCADANTE, Paulo. Os Sertões do Leste: Estudo de uma região – A Mata Mineira
MOURA, Antônio de Pádua. Zona da Mata Mineira – Breve História
PAIVA, Adriano Toledo. A Dinâmica Populacional da Fronteira Leste do Termo de Mariana (1767-1800)
PEDROSA, M. X. de Vasconcelos. Zona Silenciosa da Historiografia Mineira: A Zona da Mata
PIMENTA, Silvério Gomes. A Vida de D. Antônio Ferreira Viçoso
PIRES, Maria do Carmo. A Expansão das Fronteiras da Comarca de Vila Rica e os Novos Oficiais dos Sertões
PIRES DA COSTA, Raimundo. Chão - Meu Chão/Pe. Antônio Guilherme - Um Cura Corpo e Alma
POSTCH MAGALHÃES, Edson. Até Quando? (Críticas)
PRADO JÚNIOR, Caio. Formação do Brasil Contemporâneo
RAMALHO. G. C.. Mapeamento Geotécnico de Viçosa com o Uso de Sistemas de Informações Geográficas
REZENDE, Irene Nogueira de. Negócios e participação política: fazendeiros da Zona da Mata de Minas Gerais (1821-1841)
RODRIGUES, André Figueiredo. Sertões Proibidos da Mantiqueira: Desbravamento, Ocupação da Terra e as Observações do Governador de Dom Rodrigo José de Meneses
SANTIAGO, Sinval Batista. Município de Rio Pomba – Síntese Histórica
SENNA, Nelson de. Annuario de Minas Geraes (1909)
SILVA, Cora de Araújo Moreira Ferreira da. Nostalgia
SILVEIRA, Victor. Minas Geraes em 1925
SIMÕES, Aparecida. Emílio Jardim - Amigo de Arthur Bernardes
SIQUEIRA, Edmundo. Resumo Histórico da The Leopoldina Railway
TAFURI Paniago, Maria do Carmo. Viçosa: Mudanças Socioculturais,Evolução Histórica e Tendências/Viçosa: Tradições e Folclore/Hervé Cordovil: Um Gênio da Música Popular Brasileira/Viçosa: Retratos de Uma Cidade
TÁVORA, Juarez. À Guisa de Depoimento Sobre a Revolução Brasileira de 1924
TRINDADE, Raimundo Octavio da. Instituição de Igrejas no Bispado de Mariana
VASCONCELLOS, Diogo de. História Média de Minas Gerais/História Antiga de Minas Gerais
VEIGA, José Pedro Xavier da. Efemérides Mineiras
VIDIGAL, Pedro Maciel. Minha Terra & Minha Gente/Ação Política


JORNAIS


A Cidade (Viçosa), A Razão (Viçosa), Barganha/Gazeta do Turvo(Viçosa), Cidade de Viçosa, Correio de Viçosa, Diário de Notícias, Escreva - Academia de Letras de Viçosa, Estado de Minas, Folha de Viçosa/Integração/Folha da Mata, O Alfinête (Viçosa), Gazeta Regional (Viçosa), Gazeta da Viçosa, Gazeta do Turvo (Viçosa), Mensagem Cristã (Viçosa), Jornal das Municipalidades, Jornal de Viçosa, Jornal do Brasil, Jornal do Povo (Ponte Nova), Luz do Carmelo (Viçosa), Comunidade (Viçosa), Paratodos - Informativo do Bar Sarau (Viçosa), Muzungu (Viçosa), O Arquidiocesano(Mariana), O Imparcial (Viçosa), Informativo São João Batista (Viçosa), O Popular de Viçosa, Semeando (Viçosa), Fermento (Viçosa), A Semana (Viçosa), UFV Informa/Jornal da UFV, O Progresso do Brasil.


REVISTAS


Revista Brasileira de Geografia (RJ) – Estudo Regional da Zona da Mata de Minas Gerais (RJ) – 1958, Revista do Arquivo Público Mineiro(edições diversas), Revista História Viva (edições diversas), Revista Nossa História (edições diversas) – Biblioteca Nacional, Revista Brasileira de História (SP) (edições diversas), Veja, Manchete, Centenário do Presidente Arthur da Silva Bernardes.


ACERVOS



Câmara Municipal de Viçosa, Instituto de Planejamento Municipal de Viçosa (Iplam), Museu Histórico de Rio Pomba, Paróquia de São Caetano (Cipotânea), Paróquia de São José (Paula Cândido), Paróquia de São Manoel (Rio Pomba), Paróquia de Santa Rita de Cássia (Viçosa), Paróquia de São João Batista (Visconde do Rio Branco), Prefeitura Municipal de Viçosa - Gabinete do Prefeito e Departamento de Cadastro e Tributos, livros diversos de leis, decretos e resoluções municipais e distritais, Cartório do Registro Civil da Comarca de Viçosa, Arquivo Central e Histórico da UFV (Viçosa), Diário Oficial, Minas Gerais (Belo Horizonte), Jornal do Povo (Ponte Nova), Cartório do 2º Ofício de Notas da Comarca de Viçosa, Cartório de Títulos e Documentos da Comarca de Viçosa, arquivo particular deste blogger e arquivos de famílias viçosenses residentes em Viçosa e Belo Horizonte.


ESPECIAIS AGRADECIMENTOS AOS COLABORADORES


Na elaboração de "O PASSADO COMPASSADO DE VIÇOSA - Epítome histórica da velha Santa Rita do Turvo" são muitos os amigos colaboradores deste blogger, com incentivo e críticas, depoimentos, fornecendo documentos, orientando, enfim, sendo como que co-autores deste trabalho:


Anna de Freitas
Antônio Pastor Machado de Castro
Antônio Teixeira Chequer
Arnaldo Dias de Andrade
Carlos Raymundo Torres
Cícero Garcia da Silveira
Cirene Ferreira Alves
Cláudia Beatriz de Castro Gomes
Cora de Araújo Moreira Ferreira da Silva
Cora Ferreira da Silva Castro
Cristina Fontes Araújo Viana
Daniel Lopes
Edgard de Vasconcellos Barros
Edson Potsch Magalhães
Élcida da Silva Valente
Eliane José Ferrão
Elias Ibrahim
Erotides Silva de Carvalho
Euter Paniago
Francisco Carlos Ferreira da Silva
Francisco Corrêa do Carmo
Francisco Machado Filho
Francisco Simonini da Silva
Frank Paiva da Cunha
Geni Maria da Silva
Geraldo Euzébio de Carvalho
Geraldo Lopes de Faria
Helena Carneiro Loureiro
Heloísa Gomes de Araújo Moreira
Hildécio Lopes dos Santos
Isaura Maria de Alvarenga Coelho e Loures
João Ferreira dos Santos
João Maffia Filho
Joelma Oliveira
José Antônio Rodrigues Dias
José Bernardes Raposo
José Dionísio Ladeira
José Geraldo Vidigal de Carvalho
José Levy de Oliveira
José Marcondes Borges
José Muanis Bhering Nasser
José Palhano Júnior
José Roberto Reis
José Romualdo Quintão
José Simião da Cunha
Laurindo Torres Carneiro
Lacyr Dias de Andrade
Leda de Bittencourt Bandeira
Lúcia Maria Sant'Ana Costa
Lúcio Queiroz Gonçalves
Manoel Duarte Pontes
Marden Ibrahim
Maria da Conceição Alencar Fontes
Maria do Carmo Rezende Borges
Maria do Carmo Tafuri Paniago
Maria do Rosário Bhering Nasser
Maria Emília Soares Garcia
Maria Teresa de Alvarenga Coelho e Silva
Mário Rocha Gomes
Marly de Souza
Maurício Valle Salles
Myrthes Maura Pacheco Batista
Nair Fonseca Torres
Nilton Alves Gonzaga
Oswaldo de Paula Lanna
Osvaldo Salles Tibúrcio
Paulo Dionê Quintão
Paulo José de Araújo
Pélmio Simões de Carvalho
Regina Maria Salgado Alves Pinto
Regina da Cruz Alvarenga
Renato Valle Salles
Rosângela Cardoso de Carvalho
Ruy Barbosa Assis Castro
Sebastião Paranhos Filho
Sylvio Caiaffa Mendonça
Simão Cirineu Ladeira
Vera Sônia Saraiva
Womer Wellareo de Oliveira

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Gratidão a todos pelo incentivo, pela colaboração.





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DESBRAVAMENTO, DESTRIBALIZAÇÃO, ALDEAMENTO E CATEQUESE



Desbravando a mata anecúmena



No lugar que seria um dia a Viçosa de Santa Rita, nos extertores do século XVIII, foi que a população embrionária se estabeleceu. O fluxo povoador veio com a liberação, pela Coroa Portuguesa, da abertura de atalhos numa mata que vinha sendo clandestinamente desvirginada e transformada num cenário de contrabando aurífero. Disso nos dão conta as informações mais remotas de que dispõem os maiores memorialistas mineiros. Neste proscênio ainda pré-histórico, o suave som do murmúrio das corredeiras de cachoeiras que brotavam das cumeadas da Cordilheira da Mantiqueira acalentava o sono dos puris, coporós, coroados, cataguás e aimorés, autóctones da nação Tupi, viventes que vagueavam pelos píncaros e planícies de uma extensa área anecúmena. Parte desses silvícolas havia sido rechaçada da baixada de Campos dos Goytacases, provavelmente por brancos povoadores que passavam a ocupar a faixa litorânea da Terra de Santa Cruz, ou talvez por tribos rivais.
Dentre morros e colinas, algumas escarpadas como espigões, outras seccionadas e de pendor suave, ramificados caprichosamente e abruptamente destacados no cenário das altaneiras serras da Piedade e do Caparaó, diante de um amplo horizonte, essas criaturas humanas presenciaram a chegada, ainda ao final do século XVII, de geralistas oriundos de Taubaté (SP). Serpenteando por rotas fluviais, em companhia de expatriados africanos, desbravaram densas matas, abrindo largas picadas numa espessa vegetação, atravessando as paragens de onde se assentaria um dia o município de Viçosa. Procuravam afoitos, em sinuosos caminhos de uma selva bruta, por novos vales auríferos e diamantinos. Percorrendo os sertões que margeiam o caudaloso rio de Nossa Senhora da Conceição da Guarapiranga (município de Piranga), partindo de Santo Antônio da Itaverava, num de seus afluentes, o rio da lendária “Casa de Casca”, vieram a encontrar, “em boa conta”, o reluzente e ambicionado ouro.
Era época de Bandeirismo. E não tão longe, em Caeté, Serro Frio, Pitangui, Vila Rica, Sabará, São João del Rei, do dadivoso Tripuí, extraía-se, às arrobas, ambicionados metais. Diamantes, esmeraldas, águas marinhas e safiras faziam a riqueza de uma população aventureira. Mata adentro, o bandeirante Antônio Rodrigues Arzão, em 1693, e depois seu cunhado Bartolomeu Bueno de Siqueira, percorreram essa misteriosa região até então indevassável da Zona da Mata mineira. Não há notícias de incursões anteriores nesta região, por parte de brancos povoadores. Muito tempo após, em 1781, o Conde de Calveiros, D. Rodrigo José de Menezes, governador da Capitania de Minas, organizou a sua bandeira, chefiada pelo padre Manoel Luiz Branco, que contornou a serra onde se estabeleceu o povoado de São Miguel e Almas de Arrepiados, atual município de Araponga, que outrora compôs o vasto território municipal viçosense, rico em manganês, mica, pedras preciosas e estanho, dentre outros minerais. D. Rodrigo viajou pela Mantiqueira no intuito de melhor fiscalizar “o quinto” e o extravio do ouro, que já ocorria numa selva ocupada por tribos de índios canibais, uma área proibida, até que houve as suas investidas.
Após a Guerra dos Emboabas, no começo do século XVIII, durante o período da mineração aurífera, o direito de ir e vir era totalmente controlado pelas autoridades reais. A abertura de caminhos novos nos sentidos Leste e Oeste era legalmente impedida, existindo, além de uma severa vigilância por parte do governo na circulação de todos pelos caminhos oficiais, muito índio bravo numa colossal mata virgem. Ao percorrer o denominado Caminho Novo, desbravado inicialmente em 1703, por Garcia Rodrigues Paes e concluído por Domingos Rodrigues da Fonseca, o ouvidor Caetano da Costa Matoso, vindo do Rio de Janeiro em direção a Ouro Preto, entre janeiro e fevereiro de 1749, assombrou-se com a magnitude da floresta fechada. Antes dele, somente os bandeirantes João Siqueira Afonso, Antônio Fernandes Furtado e Feliciano Cardoso de Mendonça haviam penetrado pelos chamados “Sertões do Leste”. E não havendo ainda atividade pastoril e agrícola em Minas, deu-se grande incentivo, entre 1750 e 1777, à busca de novas jazidas auríferas e pedras preciosas. Os puris da Zona da Mata mineira ocupavam, entre outras, as vastas áreas dos atuais municípios de Viçosa, Coimbra, Ervália, São Geraldo, Visconde do Rio Branco, Ubá, Tocantins, Rio Pomba, Guarani, Guidoval, Astolfo Dutra, Dona Eusébia, Cataguases, Miraí, Muriaé, Patrocínio do Muriaé e Leopoldina. De acordo com estudiosos, esses nômades eram de origem goitacá, como também o foram algumas tribos do Nordeste Mineiro, estas incorporadas aos botocudos, que no final do século XVIII eram considerados bravíssimos e donos das terras do ouro. Leopoldina era considerada o último refúgio dos puris escorraçados pelos mineradores.



FORMAÇÃO PATRIMONIAL NA PASSAGEM DO TURVO



Se em 1822 eram 20.000 habitantes da Zona da Mata, em 1890 esses chegavam a 430.000. Em 1920, eram já 840.000 os seus moradores. Na Passagem do Turvo, ou Aldeia da Aplicação do Ribeirão do Turvo (este é o primeiro nome conhecido da corrutela), povoado que se tornou uma cidade pólo prestador de serviços, os primeiros habitantes originaram-se das regiões mineradoras, porque com a escassez de gêneros de primeira necessidade, nas últimas décadas dos setecentos, muitos tiveram que formar suas primitivas fazendas cafeeiras em Santa Rita e adjacências, provavelmente a partir de 1770, baseadas em mão-de-obra escrava, onde trabalhavam os elementos servis que às vésperas da abolição somavam em três milhares, e que aqui aportaram, jongueiros, com seus atabaques, os bantos, congos, moçambiques, benguelas, rebolos, cassanges e cabindas, ligados, muitos deles, a irmandades religiosas como a da Terra Santa, conforme registros de óbito de inúmeros cativos, conservados no Santuário de Santa Rita de Cássia. Os imigrantes assumiram um patrimônio em torno do qual havia sesmaria concedida pela Coroa Portuguesa, provavelmente desde o meado século XVIII, e onde ouvia-se o cristalino bimbalhar do sino de uma ermida.
No livro nº 1, de óbitos, à fl. 2, consta o assentamento do óbito de Antônio Ang,ª (abreviatura com que se designava Angola), escravo do alferes Antônio Barbosa de Souza Lima, ocorrido em 6-XII-1814. Ibd., id. de Ignácio B.ª (abreviatura de Benguela), casado com Tereza Ang.ª (Angola), escravo de José Rois Branco, ocorrido em 18-III-1815. Ibd., id., de Antônio Cabunda, escravo de herdeiros órfãos do falecido Manoel José Gomes, ocorrido em 24-VII-1815. Ibd., id. de Joaquina Mina, casada com Manoel Soares B.ª (Benguela), ocorrido em 10-XII-1815. À fl. 5, óbito de Tereza Cassange, escrava dos herds. de Manoel José Gomes, em 8-II-1816. Ibd., de Ursula Ca. (Cambinda), escrava de Antônia Maria Angélica da Silva, em 6-3-1819. Ainda no lívro de óbitos nº 1 há o assento de 17/11/1822, do falecimento, aos 65 anos, de Joanna Rebolla, "pretta liberta, viúva de Francisco Benguela, pretto liberto". Chancelado pelo Pe. Maximiliano José da Silva Castro, o documento diz que ela recebeu os sacramentos da Penitência, Eucaristia e Extrema-Unção, sendo amortalhada no Hábito da Terra Santa, de que era irmã, dentro da Capela de Santa Rita, em sepultura gratuita e da Senhora do Rosário. Agostinho Angola (escravo) foi sepultado a 14/12/1818 "no Cemitério da Fazenda do Macuco", do Capitão Antônio Gomes. Manoel Angola, também escravo, no Cemitério da Fazenda do Alferes Manoel da Silva (Viana? - ilegível). Já Tereza Conga, enterrada a 16/3/1819, no adro da Capela de Santa Rita, como diversos outros escravos.
No século XIX, entre francesas e portuguesas figuraram como pioneiras, dentre outras, as famílias Airão, Almeida, Andrade, Araújo, Barbosa, Barros, Botelho, Cardoso, Carvalho, Castro, Costa, Coura, Dias, Diniz, Encarnação, Faria, Fernandes, Ferreira, Fonseca, Fontes, Fraga, Franco, Freitas, Gomes, Gomide, Gonçalves, Guimarães, Jacob, Lanna, Lima, Lopes, Machado, Magalhães, Marota, Martins, Mendes, Modesto, Monteiro, Moreira, Noronha, Oliveira, Paula, Procópio, Reis, Ribeiro, Rodrigues, Romão, Sabino, Salgado, Sant’Anna, Santos, Silva, Simplício, Soares, Socanga, Tristão, Ubaldo, Valente e Vieira. Descendentes de outras famílias viriam depois, naquele século e no seguinte, entre descendentes de alemães, portugueses, italianos, espanhóis, judeus e libaneses. Entre os italianos houve aqueles que vieram de cidades como Rivello (Apenino Lucano), na Basilicata, de Gallicano, na província de Massa-Carrara (região de Toscana) e de Caltanissetta, na Sicilia. Já os libaneses, ocupando já no final do século XIX o distrito da sede e os de São Miguel do Anta, Coimbra, Teixeiras e Cajuri, oriundos de cidades como Tripoli, Bzebdine, El Metten, Chebaniyeh, Broumana, Zgurta e Falougha, que aqui trabalharam inicialmente como mascates, alfaiates, em olaria, mecânica e na agricultura, integrando famílias como Aad, Assef, Azis, Khoury, Melim, Barquete, Charcha, Ramos, Balut, Muanis, Bhering, Zaidan, Wakin, Rameh, Brumano, Habib, Abrahão, Melim, Chequer, Assad, El Hadj, Faraht, Said, Abu, Daguer, Yasef, Gassin, Daibes, Nansir, Zahour, Daker, Gibaille, Abou-Id, Ibrahim, Kalil, Nascif, Jabrine, Slaimen, Naim, Yamim, Barquete, Abdalla, Marum, Mucci, Nasser, Nazar, Obeid, Said, Zacour, Ferez, Yared e Zaharãm. No século XX, as de origem alemã, espanhola e nipônica tiveram destacado papel nas práticas agrícolas, algumas na Colônia Vaz de Mello, mas sobretudo na vida científica e tecnológica da antiga Escola Superior de Agricultura. Cumpre citar famílias como Abe, Abiko, Esaki, Fujio, Fujivara, Fukumothy, Hamawaky, Hirama, Igarashi, Irino, Ito, Kasuya, Komuro, Kuana, Kudo, Kurokawa, Maruyama, Matsuoka, Matsucuma, Miasaki, Moritsugu, Mizubuti, Naguno, Nakasa, Noda, Ogata, Okada, Okino, Ootani, Sakane, Sassaki, Sato, Shimabukuru, Shimoya, Sediyama, Shimohira, Shirota, Suguinoshita, Suzuki, Takaki, Takayama, Takayanagui, Taniwaki, Toma, Uchiya, Watanabe, Yasunaga e Yukawa. No magistério, comerciantes e comerciários, operários, funcionários públicos, médicos, agricultores, profissionais liberais ou exercendo inúmeras outras profissões, tornaram-se viçosenses os Alencar, Alves, Bernardes, Blasi, Bittencourt, Brune, Brustolini, Coelho, Comastri, Brito, Ramos, Del Giudice, Bonicontro, D'Antonino, Domenici, Fortes, Gouveia, Iglésias, Dias, Ferreira, Nicácio, Nogueira, Coelho, Maciel, Antunes, Oliveira, Brandão, Barreto, Pacheco, Vaz, Paoli, Paiva, Paniago, Parreiras, Maffia, Campos, Bezerra, Passarinho, Paula, Pereira, Pires, Vidigal, Teixeira, Pinheiro, Bittencourt, Castro, Pinto, Pontes, Freitas, Borges, Bolivar, Queiroga, Lanes, Araújo, Nogueira, Braga, Lopes, Martinho, Ramos, Rebello, Xavier, Azevedo, Penna, Reis, Maestri, Floresta, Mattoso, Almeida, Lélis, Andersen, Alves, Resende, Rocha, Castro, Mota, Simões, Andersen, Bandeira, Medina, Silva, Maffia, Moura, Taranto, Nogueira, Brandão, Leal, Cruz, Rezende, Medina, Fialho, Rodrigues, Rosado, Garcia, Ladeira, Starling, Couto, Fernandes, Chaves, Alves, Rosa, Azevedo, Barbosa, Oliveira, Guedes, Sá, Fontes, Santiago, Sabino, Salles, Souza, Silva, Vianna, Santiago, Rodrigues, Cruz, Starling, Santos, Mantovani, Saraiva, Silveira, Silvino, Brandi, Soares, Dutra, Spínola, Teixeira, Tinoco, Vilhena, Ferreira, Torres, Val, Freitas, Valente, Vieira, Jardim, Rolla, Herman, Niewert, Kümmel, Lehner, Lentini, Lombardi, Wellareo, Maestri, Martino, Picorelli, Megale, Mello, Pecci, Rigotto, Menicucci, Miranda, Rigotto, Brandi, Mollica, Pacheco, Pacífico, Paixão, Paranhos, Pierri, Pinto, Pompeano, Pônzio, Rosado, Parzanini, Fontenelle, Rubim, Coaglio, Vanetti, Santos, Schitini, Silvino, Simonini, Tafuri, Torres, Vaz e Vitarelli. No final do século XIX registra-se a presença, ainda, dentre muitas outras famílias, as dos Bernardes, Cardoso, Condé, Dias, Faria, Franco, Laje, Lima, Valadares, Lopes, Colares, Mendes, Villa Maria, Ramos, Reis, Santos, Galvão, Silva, Silvino, Souza e Teixeira. No século XX, entre algumas aqui já citadas, presentes estavam em Viçosa famílias como Cardoso, Carneiro, Carvalho, Castro, Chaves, Cintra, Coelho, Correia, Costa, Dantas, Domenici, Duarte, Dutra, Euclydes, Faria, Faustino, Felga, Fernandes, Ferraz, Baião, Pavageau, Ferreira, Fialho, Fonseca, Franco, Freire, Freitas, Galvão, Garcia, Gomes, Marcondes, Gomide, Val, Gonçalves, Gonzaga, Gouveia, Guimarães, Horta, Jacob, Janotti, Jardim, Kunze, Leão, Moretzohn, Lima, Lisboa, Valente, Lopes, Vianna, Rigotto, Lourenço, Machado, Maciel, Magalhães, Braga, Dini, Marques, Abranches, Martinho, Martins, Dorofeeff, Medeiros, Figueiredo, Bini, Palhano, Megale, Mello, Pushmann, Mendes, Miranda, Moreira, Moura, Nascimento, Nazar, Neves, Nicácio, Balut, Oliveira, Orrico, Rolfs, Pacheco, Raposo, Paula, Peixoto, Vasconcellos, Pereira, Peres, Chagas, Rozado, Pessoa, Teixeira, Catoud, Pinheiro, Braatheen, Pinto, Pires, Pompeiano, Porfírio, Primo, Ramos, Rebello, Rezende, Ribeiro, Pecci, Xavier, Rodrigues, Rolla, Roque, Rosado, Sá, Salles, Sant'Anna, Santos, Senna, Serra, Silva, Simplício, Soares, Souza, Tavares, Teixeira, Thomaz, Torres, Tristão, Valentim, Valle, Vaz, Vianna, Victorino, Vieira e Xavier.
Ao citarmos os sobrenomes de famílias tão ilustres, tomamos como imperativo a transcrição de um pensamento de Bertold Brecht (1898-1956), coetâneo de alguns desses imigrantes. Sob a epígrafe “Perguntas de um operário que lê”, Brecht inquiriu: “Quem construiu a Tebas das sete portas? Nos livros constam os nomes dos reis. Os reis arrastaram os blocos de pedra? E a Babilônia tantas vezes destruída. Quem ergueu outras tantas? Em que casa da Lima radiante de ouro moravam os construtores? Para onde foram os pedreiros na noite em que ficou pronta a Muralha da China? A grande Roma está cheia de arcos do triunfo. Quem os levantou? Sobre que triunfaram os césares? A decantada Bizâncio só tinha palácios para seus habitantes? Mesmo na legendária Atlântida, na noite em que o mar a engoliu, os que se afogaram gritavam pelos seus escravos. O jovem Alexandre conquistou a Índia. Ele sozinho? César bateu os gauleses. Não tinha pelo menos um cozinheiro consigo? Felipe da Espanha chorou quando sua Armada naufragou. Ninguém mais chorou? Frederido II venceu a Guerra dos Sete Anos. Quem venceu além dele? Uma vitória em cada página. Quem cozinhava os banquetes da vitória? Um grande homem a cada dez anos. Quem pagava suas despesas? Tantos relatos. Tantas perguntas.”



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O Pe. Manoel Inácio de Castro era o proprietário de uma das primitivas fazendas, a São Bartolomeu, onde estão as Quatro Pilastras, na entrada principal do campus da antiga Universidade Rural do Estado de Minas Gerais (Uremg). Sua propriedade, de três léguas de extensão com matas de palmito, foi partilhada entre sobrinhos com o seu falecimento a 27/5/1819, conforme documento reproduzido na sessão iconográfica deste trabalho, cujo inteiro teor vai aqui transcrito:


"Aos vinte e sete dias de Maio de mil oitocentos e dezenove faleceu da vida presente de Idropesia, com Solenne Testamento o Pe. Manuel Ignacio de Castro, natural da Cathedral da De. de Marianna, recebeo os Sacramentos da Penitencia, Eucharistia e Extremunção, foi amortalhado em Vestes Sacerdotais, precedendo as Insígnias da Irmde. de N. Snra. do Carmo de Villa Rica, da qual era irmão 3º, conduzido em Caixão, acompanhado e encomendado pelo R. Vigº do Presidio e mais quatro Rs. Sacerdotes, por não concorrerem mais, feitas as diligências necessárias. Dicerão-se oito Missas de Corpo Presente por sua Alma de Esmola de mil e duzentos reis outro tanto a cada Pe. que acompanharão, estribuindose nove mil e seiscentos reis à porta da Capella pelos pobres q. acompanharão o Corpo. Gastou-se nesse Enterro dezesseis libras de Sera, e tres quartos no Deposito. Pes. Cruz, com homens de Opas, e Habito, o q. tudo pagarão nos Testamentos os herdeiros e foi sepultado no dia vinte, e nove do dito mês Dentro desta Capella de Sta. Rita, Frega. da Pomba, e pª constar fiz este assento, que assino. O Pe. Manoel Gls. Fontes".


Outras das mais antigas fazendas de que se têm notícias são as da Grama, São Domingos, Tico-Tico, do Turvo, do Coura, da Vargem, São João, São Tiago, do Benedito, Donana e do Paraíso. Alguns de seus proprietários ocupavam residências próximas da capela em dias santos de guarda e aos domingos, quando participavam dos ofícios religiosos.
Dr. Felício Brandi, emérito educador viçosense, ressaltou que a História de Viçosa “é um monumento simples de acontecimentos que empolgam, uma sucessão de atos rurais em prol do progresso e pela manutenção da independência conquistada com o trabalho progressivo de seus filhos”. E dentre esses atos de sucesso, ocorridos numa terra exportadora de marmelo, fumo, café, açúcar, algodão beneficiado, cereais, aves, ovos, gado, manteiga, macarrão e couro, avulta-se o de um casal, Manoel Cardoso Machado e Ana Joaquina de Fraga, que doou terrenos e casas para a constituição do primeiro patrimônio canônico da ermida santa-ritense.


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A seguir a transcrição do documento de doação, efetivada em São João Batista do Presídio (Visconde do Rio Branco), a que Viçosa pertencera eclesiasticamente após se desligar de Rio Pomba, por força da Lei N. 134, de 16 de março de 1839. Tal se deu quando Bernardo Jacinto da Veiga, presidente da província de Minas Gerais sancionou o decreto da Assembléia Legislativa Provincial elevando a Vila São João Batista do Presidio, compreendendo no seu Município a Freguesia do mesmo nome e as de Santa Rita do Turvo e de Arripiados (atual Araponga). Presídio de São João Batista passava então a compreender no Termo da Comarca do Rio Paraibuna.

Eis a transcrição:

“Monsenhor Cônego Júlio de Paula Dias Bicalho, Secretário do Bispado de Mariana e escrivão da Câmara Eclesiástica pelo Exmo. e Rvmo. Sr. Bispo Diocesano, etc...
Certifico, ex-vi do despacho retro, que na Câmara Eclesiástica estão arquivados os seguintes documentos relativos ao patrimônio da Capela de Santa Rita do Turvo, outrora filial da Matriz de S. Manoel do Rio da Pomba e Peixe, depois Matriz de Sta. Rita do Turvo e hoje cidade de Viçosa.

ESCRITURA

Dizemos nós abaixo-assinados Capitão Manoel Cardoso Machado e D. Ana Joaquina de Fraga, que entre os mais bens que possuimos e assim bem umas casas cobertas de telhas sitas nas terras do Patrimônio de Sta. Rita do Turvo, consta dos créditos que por elas paguei em preço de cincoenta oitavas de ouro a Manoel da Silva Soares e ao Alferes Joaquim Botelho da Costa as quais nós damos eu e minha mulher acima referidos damos de esmola a Sta. Rita e cedemos de todo direito jus e ação que nela temos e o transpassamos aos procuradores da dita Santa que atualmente servem: o Alferes Vicente Rodrigues Valente e Rafael Gonçalves Bastos para que na qualidade de procuradores as possam conservar e defender a benefício da mesma Santa e para nela se estabelecer o patrimônio da sua Capela: a qual doação de esmola fizemos muito de nossas livres vontades nem nossos testamenteiros e herdeiros poderão em tempo algum anular, desfazer ou reivindicar êste nosso papel de doação e pedimos a Sua Alteza Real haja por bem esta nossa doação e se nela faltar alguma cláusula ou cláusulas em direito necessárias as damos por declaradas e implícitas em nossa vontade a fim de que fique êste papel valioso. Para constar entregamos aos ditos procuradores o referido crédito como título do domínio doado e rogamos ao Rvmo. Cura Marcelino Rodrigues Ferreira êste por nós fizesse o qual assinamos em presença das testemunhas o Rvmo. Capelão de Sta. Rita o Padre Jerônimo Fernandes Lana e José Joaquim da Silva e Francisco Cardoso de Assis – abaixo assinados. Presídio de S. João Batista, 20 de Agosto de 1805.

Manoel Cardoso Machado
Ana Joaquina de Fraga

Como testemunha, Jerônimo Fernandes Lâna, José Joaquim da Silva, Francisco Cardoso de Assis. Como testemunha que êste escrevi a rôgo dos sobreditos e fiz assinar. O Padre Marcelino Rodrigues Ferreira. Reconheço por verdadeira a letra e sinal do Rvmo. Marcelino Rodrigues Ferreira, pelo pleno conhecimento que dela tenho.
Estava assinado com a rubrica do escrivão ajudante da Câmara Episcopal."



DESTRIBALIZAÇÃO, ALDEAMENTO E CATEQUESE



“A vida de uma cidade nem sempre tem começo numa data determinada, rigorosamente falando, exceção, é claro, quanto ao lado formal: os dispositivos legais que regem sua criação e os registros públicos que marcam o início de sua existência oficial. Isto constitui alguma coisa mas não é tudo. O essencial é o fundo que pré-existe, um sentimento do espaço partilhado, a convivência, a experiência e a consciência de estar vivendo com o outro ou com os outros num mesmo lugar, mesmo ignorando o resto: a fixação institucional de seus limites e os motivos que ditaram a criação da entidade”, segundo COSTA (nº?). Precedendo o início da epopéia viçosense seguiu-se uma trajetória épica de acontecimentos. Alguns desses fatos históricos remontam à Era do Brasil Colonial. Significativas, dignas de notícias, tais efemérides julgo merecerem, muito embora aqui neste nosso indigente exercício anamnésico, serem trazidas à recordação dos pósteros.
Em 1829, sendo imperador D. Pedro I e estando como titular do bispado de Mariana o eminente antístite D. Frei José da Santíssima Trindade, a Freguesia do Mártir São Manoel dos Sertões do Rio da Pomba e dos Peixes dos Índios Coropós e Coroados, com 39 casas, compreendia diversas capelas filiais, entre essas a de Santa Rita do Turvo. Naquela ocasião, constituíam-se em núcleos populacionais circunvizinhos: Guarapiranga (hoje Piranga), Barra do Bacalhau (Guaraciaba) e Tapera (Porto Firme), às margens do rio Piranga, todos servindo como pontos de pouso de tropeiros.
Por um decreto de 13/10/1831, Rio Pomba (Vila desde 13/10/1831, Cidade a partir de 6/6/1858, cujo atual território dista cem quilômetros de Viçosa, após sucessivos desmembramentos distritais) foi elevada à categoria de Vila, compreendendo a Freguesia de São João Batista do Presídio (atual cidade de Visconde do Rio Branco), conforme resolução da Assembléia Geral Legislativa. Expediram-se, a 3/3/1832, as instruções para a instalação do município. E de 25 a 27 de agosto daquele mesmo ano o, ocorreram os festejos, que se seguiram ao auto do levantamento do pelourinho, cerimônia comandada pelo ouvidor de Ouro Preto, Dr. Antônio José Monteiro de Barros, onde está a praça Dr. Último de Carvalho, a principal rio-pombense, outrora Largo da Alegria. Presidia a província de Minas, por aqueles dias, o Barão de Pontal, Dr. Manoel Ignácio de Mello e Souza.
Dentre os 14 distritos que inicialmente ficaram compreendendo no Termo (subdivisão de Comarca) do Pomba, figurou, então, a Freguesia de Santa Rita do Turvo. Contavam-se em seis, então, as Comarcas de Minas. Em 1837 chegavam a 20 os distritos rio-pombenses. A extensão territorial do município do Pomba era enorme, pois abrangia as divisas de Araponga até Além Paraíba, no sentido Norte-Sul; e de Mercês a Santo Antônio de Pádua (este último é município fluminense e já foi mineiro), no sentido Leste-Oeste. Por decreto de Dom João V, de 16 de fevereiro de 1718, foram constituídas as cinco primeiras paróquias das Minas Gerais, entre as quais a de Nossa Senhora da Conceição do Guarapiranga, embora esta já funcionasse como tal desde 1704, ligada à Diocese de São Sebastião do Rio de Janeiro. O incipiente povoado de Guarapiranga, arraial surgido dez anos após a descoberta do ouro no Ribeirão do Carmo (região de Mariana), tinha desde 1695 a sua igrejinha, onde Frei José de Jesus celebrava as missas.
A região do Rio Pomba foi desmembrada de Guarapiranga, tornando-se Freguesia Colativa apenas em 1771, sob o orago de um santo persa, patrono dos diplomatas, martirizado no ano 363: São Manoel. Na data do Natal de 1767, num território totalmente vazio de gente civilizada, o vigário encomendado, Padre Manoel de Jesus Maria, em sua paróquia instituída com o propósito de consolidação do aldeamento central das matas do Termo de Mariana, deu início à sua Missão. Consagrado hodiernamente com o justo epíteto de Anchieta dos Sertões da Mata Mineira, este ínclito mineiro de Santo Antônio da Casa Branca (Termo de Vila Rica), foi o terçador que obteve da Capitania de Minas a abertura de um dos caminhos que atravessando serranias, do Pomba ao Xopotó dos Coroados, alcançou primitivos núcleos habitacionais da nossa região. A este padre coube a fundação de povoados da Mata, como registra a História de Minas Gerais. Pe. Jesus Maria criou, com o apoio constante do capitão Francisco Pires Farinho, uma escola de primeiras letras, além de se dedicar à catequização propriamente dita e ao ensino do cultivo agrícola e pastoril. No intrincado processo da conquista colonial, foram destribalizados os gentios cropós, bocaiús, guarulhos, croatos e puris, e aldeados ao redor da Igreja de São Manoel e de suas filiais, como Santa Rita do Turvo. Filho natural do português João Antunes e da negra Maria de Barros, após muito se empenhar na salvação de almas e no aproveitamento econômico dos sertões, Pe. Jesus Maria faleceu a 6/12/1811, sendo sepultado em Rio Pomba, na Igreja do mártir São Manoel, localizada na atual praça Ministro Odilon Braga.
A delimitação da nova Freguesia do Pomba fora feita em 1771, por Dom Luís Diogo Lobo da Silva, governador da Capitania de Minas, a pedido de Pe. Jesus Maria, reconhecido como “o Pároco dos Índios”. Dona Maria I confirmou a delimitação anterior, em 1779. Dez anos após, portanto em 1789, era lavrado o assento daquele que pode ser, de fato, o primeiro Batismo, ministrado pelo cura Jerônimo Fernandes Lanna, sacerdote descendente de franceses, na Aplicação (oratório com formalidade de capela) de Santa Rita do Turvo. A 2/7/1791, durante o bispado de D. Domingos da Encarnação Pontevel, se atestava a provisão de Pe. Francisco da Silva Campos, para a catequização do aldeamento indígena de Visconde do Rio Branco, onde a primeira capelinha, dedicada a São João Batista, foi erguida em 1787, ocasião em que, conforme JOSÉ, o território do primitivo povoado ia sendo, na segunda metade do século XVIII, “rapidamente conquistado por antigos mineradores, então transformados em poaeiros, agricultores e comerciantes”. Surgiram então, ao redor do Xopotó dos Coroados, as culturas e os sítios de subsistência, que produziam, ainda de acordo com JOSÉ, arroz, feijão, raízes e tubérculos, frutas, pequenos animais e cana de açúcar, cujo introdutor foi o referido Pe. Francisco, procedente de Campos dos Goytacazes, aonde retornou após sair de Minas, a fim de trabalhar na orla marítima fluminense. Na futura Viçosa, então com vinte e duas famílias, a Capela de Santa Rita (filial e distrito do Pomba, a exemplo da de Visconde do Rio Branco), onde Pe. Francisco da Silva Campos também se fazia presente, ministrando sacramentos, sob a autorização eclesiástica do vigário Pe. Jesus Maria, foi elevada a Freguesia pelo Decreto Imperial de 14/7/1832, passando a ter como filiais os curatos de São José do Barroso (Paula Cândido) e Nossa Senhora da Conceição do Turvo (Senador Firmino), sendo Dom Frei José da Santíssima Trindade o bispo da Diocese de Mariana.
Por aqueles tempos, em 1818, MARTIUS (nº?) percorreu a incipiente Freguesia de Santa Rita. Naturalista europeu, ele atravessara, de Norte a Sul, o Brasil. E de sua jornada por essas paragens fez breve descritivo do trajeto entre Barra do Bacalhau, Santa Rita do Turvo e a Serra de São Geraldo. Eis pequeno trecho de seu relato:


“...Perto da venda das Duas Irmãs, passamos por um fundo de cascalho, na junção dos rios Turvo e Piranga, e cavalgamos por uma região montanhosa. Nuvens úmidas e neblina envolviam-nos freqüentemente, assim como aos topos do Mato dos Puris, e nos faziam recordar o outono de nossa pátria. Ao cair da noite alcançamos um vale alto, bonito e achamos agasalho numa fazenda perto da Capela de Santa Rita. Muito mais penosa viagem foi a do dia subseqüente; mal havíamos cortado o vale alagadiço, achamo-nos diante da espessura de certa mata, na qual parecia nunca haver penetrado o sol.[...] A picada era tão estreita, que a custo passava uma mula atrás da outra, tétrica como o inferno de Dante fechava-se a mata, e cada vez se estreitava e mais íngreme se tornava, pelos labirínticos meandros, até ao profundo abismo, por onde correm águas tumultuosas de riachos, e ora aqui, ora ali, jazem blocos de rocha, que se soltaram. Ao horror, que esta solidão infundia na alma, acrescentava-se ainda a aflitiva perspectiva de um ataque de animais ferozes ou de índios malévolos, que a nossa imaginação figurava em pavorosos quadros, com os mais lúgubres pressentimentos. Indizível foi, portanto, o nosso alívio, quando chegamos, finalmente, ao outro lado da Serra de São Geraldo, e vimos luzirem cada vez mais claros os vislumbres do dia. Depois de havermos vencido parte do caminho abrupto, que vai descendo por um rego, avistamos extensíssima mataria, limitada a sudoeste pela Serra da Onça, igualmente coberta de mato. Apenas havíamos descido à vasta planície do vale entre ambas estas serras, composta em grande parte de gneiss, e tendo dois mil e quinhentos pés de altitude, fomos tomados de surpresa, na estreita picada, por dois vultos humanos. Estavam nus e sobre as costas caía-lhes o cabelo ao solo, negro como o carvão. Eles esgueiravam-se vagarosos a passos curtos, o pescoço encolhido virando os olhos, ora para a direita, ora para a esquerda; o homem ia à frente, levava arco e flecha na mão esquerda, e sobre o ombro pendia-lhe, ainda um feixe de flechas. A mulher, com a criança mais velha, seguia atrás e, trazia às costas uma cesta de folha de palmeira trançada, que era segura por uma tira amarrada à testa, contendo os utensílios domésticos e os gêneros: milho, mandioca, batatas, uma vasilha de barro, etc. Em cima de tudo estava sentada uma criancinha, de alguns meses de idade mais ou menos, que se agarrava com os bracinhos ao pescoço da mãe. Logo que nos avistaram escapuliram rápidos pelo mato”...



ORATÓRIO COM FORMALIDADE DE CAPELA



No Brasil Colonial e Imperial, as Freguesias (sinônimo de Paróquia) não eram meras divisões diocesanas da Igreja Católica, mas significavam subdivisões administrativas, civis e políticas. A atual cidade de Viçosa se tornou Freguesia em 1832, com o topônimo Santa Rita do Turvo. Antes disso, no princípio do século XIX, nossa região fisiográfica pertencera, como distrito, à Freguesia do Mártir São Manoel dos Sertões do Rio da Pomba e dos Peixes dos Índios Coropós e Coroados, hoje limitado, após sucessivos desmembramentos distritais, ao município de Rio Pomba, que foi a primeira sede paroquial da Zona da Mata (instituída em 1767), inicialmente sob a direção do “Anchieta dos Sertões de Minas”, Pe. Manoel de Jesus Maria.
Para Viçosa, o dia 10 de maio de 1807 foi significativo no aspecto religioso e civil, porque marcou, de certa forma, o início da organização social do futuro município, então Curato. Naquela data, um edital chancelado pelo Pe. Jerônimo Fernandes Lanna, referiu-se a importante acontecimento no povoado-embrião da cidade de Viçosa. Naquele ano já existia, de acordo com registros históricos, uma ermida (oratório com formalidade de capela) na qual permanecera afixado documento relativo a trâmites de doação de um patrimônio ao Curato de Santa Rita, da devoção dos primitivos moradores do arraial.
Pesquisadores têm polemizado em torno do período exato entre o início e o término da edificação da versão primitiva, em pau-a-pique, da capela de Santa Rita, bem como de sua exata localização. Mas é certo que foi Pe. Jerônimo, de uma família de sertanistas, filho de Domingos Fernandes Barroso e Antônia de Jesus e Lanna, natural do Pilar de Vila Rica, formado pelo Seminário de Mariana, ordenado a 8/3/1788, o primeiro capelão de Santa Rita do Turvo. No dia 10/5/1807 esse sacerdote certificou ter permanecido pregado na porta da igrejinha um edital do patrimônio da capela, por um mês, participando diretamente da obra de constituição patrimonial eclesiástica.
A data da posse dos bens, pelo alferes Vicente Rodrigues Valente, é 20 de maio de 1807, mas dez dias antes fora a data decisiva, porque foi naquele dia que se atestou, pelo primeiro capelão, o não impedimento, em definitivo, do prosseguimento dos trâmites da doação feita por um casal de fazendeiros, Manoel Cardoso Machado e Ana Joaquina de Fraga, que cedeu terrenos e casas para a constituição daquele que seria parte do rico patrimônio canônico da provavelmente futura Diocese de Viçosa. Eram procuradores de Santa Rita, Rafael Gonçalves Bastos e o citado Vicente Rodrigues Valente, quando foi redigida a escritura referente a tal doação, a 20/8/1805, durante o bispado de Dom Frei Cipriano de São José. Pe. Marcelino Rodrigues Ferreira, do município de Visconde do Rio Branco (antigo aldeamento indígena de São João Batista do Presídio, então também pertencente à Freguesia de São Manoel do Rio Pomba) foi quem chancelou a escritura.
Firmado em 1807, na “Passagem do Turvo, Ribeirão de São Bartolomeu”, outro documento bem conservado nos arquivos da Câmara Eclesiástica de Mariana (MG) relata o ritual do ato de posse, pelo referido alferes Vicente, de terras e casas pelo “procurador de Santa Rita”. Padre Jerônimo, falecido em 1811 – ele viveu 49 anos –, foi também quem assinou o termo de posse, a 20/5/1807. De Mariana extrai-se, dentre outros, o seguinte texto, referente à escritura de doação:

“... no ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil oitocentos e sete, aos vinte dias do mez de Maio, sendo na Passagem do Turvo, Ribeirão de S. Bartolomeu, Distrito de Santa Rita, Freguesia do Pomba, Termo de Mariana, e sendo aí, compareceu presente o Alferes Vicente Rodrigues Valente como procurador da Senhora Santa Rita, para efeito de tomar posse das terras e casas contidas na doação e requerimento e de que se lhe désse na minha presença e das testemunhas abaixo assinadas e nomeadas, lhe a dei real e atual tanto quanto eu deva e posto por visto os depoimentos de pé e tocamento de mãos, fazendo o empossado todos os atos por onde se adquire posse, pegando em terras e pedras e cortando ramos e lançando para o ar e de dia claro dizendo que tomava posse de todos os seus pertences e tudo na forma da doação...”.

A 3/8/1806, os avaliadores Joaquim Botelho de Castro e José Marques Ferreira haviam assinado um terceiro documento, referente a doação do patrimônio da capelinha de Santa Rita.


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PROVISÃO DO PRIMEIRO PÁROCO, PE. MANOEL DE JESUS MARIA


Provizão

“Nós Arcediago, Dignidade, e mais Conegos desta Cathedral de Marianna, Sede Episcopal Vacante &.

A todos os fiéis Christão, nossos Subditos, Saúde, e paz para Sempre Em Jesus Christo Nosso Senhor, que de todos há verdadeiro remedio, Luz e Salvação. Fazemos saber, que attendendo nós ao que, por sua Petição nos enviou a dizer o Padre Manoel de Jesus Maria, e ao seu bom procedimento, Capacidade, havemos por bem de O prover pella prezente nossa Provizão, por tempo de hum anno, se antes não mandarmos o Contrário, em a Ocupação de Vigário Encomendado da nova Matris, que se nade Erigir do Martir São Manoel, para nova Creação dos Índios hindo para os Certões do Ryo da Pomba, e do Peixe declarado na petição retro, a qual ocupação Servirá bem, e fielmente, como Convém ao Serviço de Deus e bem dos Parochianos, da nova freguezia, administrando-lhes os Sacramentos e absolvendo-os de todos os pecádos, excepto os reservados, atuaes, Voluntarios Concubinatos, e ocaziões proximas, e lhe Encarregamos munto a bôa direção das Suas almas fazendo Estações e ensinando a doutrina Christã aos Índios das Aldeias, modificando-os e reduzindo-os a Santa fé Catholica, e aos mais, que della necessitarem, fazendo em tudo as obrigações de bom Parrocho, e Cumprindo a rezidencia na mesma freguezia, na forma do Sagrado Concílio Tridentino, e Constituhiçções deste Bispado; e na dita ocupação haverá todos os próis, e precalsos que verdadeiramente lhe pertencem; e mandamod, com penna de Excomunhão mayor, IPSO FACTO INCURRENDO, e de Sincoenta Cruzados para a Bulla, e fabrica da nossa Sé, a todos os freguezes, da Sobredita freguezia nova reconheção ao dito Manoel de Jezus Maria, por seu Legítimo Parrocho, e Como a tal o Estimem, e obedeção emtudo a quanto são obrigados; e para que inteiramente se observe Esta, a fará publicar em hum Domingo, ou dia Santo, à Estação da Missa Conventual, e será registrada onde pertencer, e findo o ditto tempo assima, ficará de nenhum vigor, e querendo Continuar nela aprezentará. Dada e passada nesta Cidade de Marianna Sob nosso cignal, e Sello da Meza Capitular aos dous de Setembro de mil Sette Centos sessenta e Sette; e eu o Padre Ignacio Loppes da Silva Escrivão da Camara Eccleziastica, que a Subscrevy. – E no lugaro do Sello – Silva – Chancellaria mil, e sincoenta reis. – Sello Setenta e sinco réis – Feitio quatrocentos e sincoenta réis – Registro – quinhentos, e vinte, e sinco réis. Provizão, que Vossa Senhoria há por bem mandar passar, a favor do Padre Manoel de Jezus Maria, para Vigario Encomendado da nova freguezia que se háde Erigir do Martir São Miguel (?) em os Certoens, e Aldêas do Ryo da Pomba, e do Peixe por hum anno, com as Clazulas acima. Para Vossa Senhoria ver. – Ignacio Correa de Saá – Francisco Gomes de Souza – José Botelho Borges – Registrada no Livro terceiro do registro geral a folhas noventa e quatro. – Vieyra. – E não se Continha mais couza alguma, em a dita petição, e despacho, e Provizão que aquy bem, e fielmente da propria fis copiar, e passar a prezente Certidão em observancia do dezpacho posto na petição do Reverendo Doutor Ignacio Correa de Saá, Provizor, e Vigario Cappitular deste Bispado de Mariana, que vai bem na verdade, cem Couza que duvida faça, e me reporto à própria, e Vay por mim subscrito, e conferida, e assynada, nesta Leal Cidade de Marianna, aos vinte e quatro dias do mês de Fevereiro, de mil settecentos sessenta, e outo annos. E Eu o Padre Ignácio Loppes da Silva, Escrivão da Camara Eccleziastica, que Subscrevi, Confery, E asgney. – Ignacio Loppes da Silva – E por mim Escrivão da Camara Conferido – Ignacio Loppes da Silva


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TERMO DE POSSE DO 1º PÁROCO DOS SERTÕES E 1ª MISSA NO VALE DO POMBA


SANTIAGO ( nº? ), à página 47, traz o teor do Termo de Posse da Freguesia, lavrado pelo primeiro Pároco dos sertões da Zona da Mata Mineira, assim exarado:

“Aos vinte e cinco de Dezembro de 1767 anos, nos Certões desta nova freguesia do Martir São Manoel do Rio Pomba e Peixe, estando junto todo o povo que nesse Districto se achou e fiz convocar ao toque da Campainha, ahi, em voz alta e publica li a Provisão do Illustríssimo e Reverendíssimo Cabido, SEDE VACANTE, pello qual me constitui vigário da dita nova Paróchia do Martir São Manoel, no Districto onde me acho no exercício de catechizar e civilizar os Indios e, em virtude della tomei posse da nova Freguesia, benzendo água, levantando Cruz e dizendo Missa em Altar Portátil, e publicando-me prompto a administrar os mais Sacramentos, como também logo benzi cemitério para os mortos, e a todos publiquei que tomava posse para mim e meus sucessores, em nome do Illustríssimo e Reverendíssimo Ordenario, e em meu nome, sem haver contradição de pessoa alguma, estando prezentes por testemunhas: Ignacio Andrade Ribeiro, Manoel Durão Bastos, João Moreira de Jesus, Joaquim Cordeiro, Jacob Cordeiro, José Gonçalves Vieira e Valentim Dias dos Santos, que todos aqui assignaram, commigo, do que para constar, fiz este termo UT-SUPRA.”

É o comentário de SANTIAGO:

“Instalada a caravana em pequenas choças de ‘pau-a-pique’, cobertas de sapé ou de folhas de palmito, deu o Padre Jesus Maria início às suas atividades paroquiais, escolhendo para instalação da freguesia a data máxima do Cristianismo ou seja, o dia de Natal do ano da graça de 1767.
Naquele dia, a exemplo de Frei Henrique de Coimbra, no ILHÉU DA COROA VERMELHA, diante de um altar portátil e da Cruz de Cristo, assistido apenas por meia dúzia de pessoas civilizadas e por dezenas de índios COROATOS e COROPÓS, que mais por curiosidade do que mesmo pelo poder da crença, compareceram àquele ato religioso, celebrou o Padre Jesus Maria a sua primeira missa, lançando em terreno fértil e dadivoso a semente da Fé e da civilização no seio da nossa região.”


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DO POMBA AO XOPOTÓ: ORIGEM DO PRIMITIVO CAMINHO


A luta pela construção da primitiva estrada, partindo do Pomba em demanda do Xopotó, não foi nada fácil. Passando por Mercês, Dores do Turvo, Piranga, Bacalhau e Pinheiro, rumo a Mariana e Ouro Preto, o primeiro caminho que alcançou a nossa região foi aberto ainda nos primórdios da criação do aldeamento central da Zona da Mata, graças a uma providência tomada pelo primeiro pároco, Padre Manoel de Jesus Maria.
Conforme salienta SANTIAGO ( ? ), à página 449, as circunstâncias exigiam "a abertura de novas estradas ou picadas ou picadas que o conduzissem aos locais onde desejava aldear as diversas tribos de índios e, ao mesmo tempo, que se prestassem para a passagem de tropas que, procedentes de Ouro Preto, lhe trouxessem os víveres, especiarias e mais utilidades necessárias à sua subsistência nos Sertões do Rio da Pomba e do Peixe do Índios Croatos e Cropós."
O Despacho do Governo da Capitania de Minas, autorizativo da abertura da estrada foi assinado em Vila Rica a 2 de março de 1768, atendendo à seguinte petição:

"Ilmo. e Exmo. Sr. Diz o Padre Manuel de Jesus Maria, vigário da freguezia do Martir São Manoel dos Sertões do Rio da Pomba, que para o Supte, haver de christianizar, civilizar e reduzir à fé de Christo os Índios, delles se lhe faz priciso vir mandar repetidas veses ao Xopotó a prover-se de mantimentos que se conduzem em cavallos até onde há caminhos abertos, e os demais caminhos com grande trabalho, em canôa, e as costas de gente, como mayor parte deste caminho por onde seguem cavallos está arruinada e quase tapada pela desunião dos moradores, pois os que têm terras onde elle passa, moram em outra parte, e se necessita muito acabar de fazer um novo caminho de cavallo em grande distância até a paragem onde o suplicante pretende aldeiar os gentios; e como estes não estão em disposição para o trabalho e são pessoas inimigas delle, por criadas, sem preceito, e o suplicante não tem possibilidade para tanto os homens que podem concorrer e trabalhar na factura do dito caminho são: Sylvestre Roiz, José Vieira Ferrete, Manoel de Mello, José da Silva, Manoel da Silva, Bartolomeu Lopes de Garcia, Manoel Durães, José Pereira Mosso, Francisco de Barros, Valentim Dias, oferecendo-se de novo Sylvestre de Lima, os quais todos supostos estejam promptos, não se animam sem remuneração, pois são pobres, sendo tão somente o último o de possibilidade e maior recurso: 'E nesses termos recorre o Supte. a V. Excia., para que se digne mandar que concluindo-se o dito caminho elles sem demora não sejam inquietados nas situações que fizeram para cultura, e tenham nas terras do mesmo Sertão preferência a todo outro qualquer que pello tempo adiante nellas quizer entrar, ficando os sobreditos trabalhadores em suficiente distância da Aldeia ou Aldeias dos ditos índios e terras de sua cultura; e juntamente, são conveniêntes para ajudarem ao Supte. em virtude dos mesmos índios evadirem-se com os mantimentos. Também em benefício dos referidos índios recorre o Supte.
a V. Excia para que se digne mandar não se lancem payses pelo Sumidouro abaixo, sôb pena de prisão, e que debaixo da mesma pena não impeçam nem embarguem os senhores proprietários de terras que pelas mesmas se lancem os caminhos e atalhos que forem convenientes. Pede a V. Excia. seja servido assim determinar em atenção ao seu pedido e que não se lancem tributo algum. E. R. M.."

E o Despacho do Governo assim se exara:

"Na forma do que pede a respeito dos Suplicados que se estabeleceram nas povoações que se erigirem dos índios de que o Reverendíssimo Suplicante está encarregado delles administrar a instrução necessária para sahirem do gentilismo e servirem ao gremio da Igreja Catholica, serem atendidos nas porções de terras que S. Magde. permite pello Diretório e Ordens Régias, se concedam a todos os brancos civilizados que forem úteis e quizerem residir nos referidos estabelecimentos, aos quais, dentro do Termo delles, constituindo-se moradores nas vilas e lugares que se erigirem dos referidos índios, as faculta gratuitamente no espaço competente, requere se entenderá concorrendo estes com o exemplo, diligência, zêlo, caridade para a redução e cristianização no trabalho da estrada que o Revdo. Supte. diz se carece, quando se faça indispensável para servir em serem formadas novas povoações que a Real Grandeza manda erigir, e della não possa rezultar prejuizo de extravio, no que terá não só o Revdo. Supte. mas o Diretores e mais moradores todo cuidado de embaraçar e fazer prender todo o intentar ou fizer, e remeter a esta villa acompanhado de documento porque se verifique a referida transgressão. Villa Rica, 2 de março de 1.768 (Com a rubríca de S. Excia)." – Códice nº 103 do A.P.M.,S.G. – Pág. 54 e V.
Eis a gênese do primeiro grande caminho que atravessou a nossa região nos primórdios do povoamento da Zona da Mata mineira.



DE CURATO A PARÓQUIA



"A Regência, em nome do Imperador, o Senhor Pedro Segundo, tem sancionado e manda que se execute a Resolução seguinte da Assembléia Geral, sôbre Proposta do Conselho Geral da Província de Minas Gerais.
Art. 1º - Ficam elevadas a Paróquia na Província de Minas Gerais, e na Comarca de Ouro Preto, os seguintes Curatos:

(...)

§ 3. O Curato de Santa Rita do Turvo, tendo por filiais os Curatos de São José do Barroso e Conceição do Turvo.
(...)
Art. 13 – Ficam revogadas as leis e ordens em contrário.
Diogo Antônio Feijó, Ministro e Secretário de Estado dos Negócios de Justiça, o tenha assim entendido e faça executar com os despachos necessários. Palácio do Rio de Janeiro em 14 de julho de 1832, undécimo da Independência e do Império.

José da Costa Carvalho. João Bráulio Muniz.
Diogo Antonio Feijó."


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Pelas mãos de sacerdotes cujas memórias, com a de Manoel de Jesus Maria, viveram, vivem e viverão junto a diversas gerações, os viçosenses vêm sendo abençoados diante dos altares de suas igrejas matrizes e capelas filiais. De alguns, aqui declinamos os nomes: Adalberto Sabino da Cruz, Agostinho Barroso, Agostinho Isidoro do Rosário, Álvaro Corrêa Borges, Alvimar Sant’Ana Bhering, Alypio Odier de Oliveira, Antônio Correia Lima, Antônio de Souza Lima Moutinho, Antônio Ferreira Viçoso, Antônio Firmino Lana, Antônio Grisoli Rubim, Antônio Guilherme Pires da Costa, Antônio Joaquim da Cunha e Castro, Antônio Maria Corrêa de Sá e Benevides, Antônio Mendes, Antônio Prado, Aristides Clemente, Assis Memória, Bartolomeu Mendes dos Reis, Belchior Máximo Homem da Costa, Benedito de Luca, Camilo Martins Pereira de Andrade, Carlos dos Reis Baêta Braga, César Eduardo Moreira, Cícero Machado Sales, Cipriano de São José, Claret, Cláudio José da Silva, Daniel Tavares Baêta Neves, Dário Campos, Deolindo Coelho, Domingos da Encarnação Pontevel, Eduardo Bastos de Souza, Efraim Solano Rocha, Elias Bartolomeu Leoni, Elpídio Cotias, Feliz Sheper, Francisco Barroso Filho, Francisco Corrêa Alves, Francisco da Silva Campos, Francisco das Chagas Pacheco, Francisco Lopes da Silva Reis, Geraldo da Costa Val, Geraldo Francisco Leocádio, Geraldo Maia, Geraldo Martins Paiva, Geraldo Orione de Assis Silva, Geraldo Pio, Hélder Câmara, Helvécio Gomes de Oliveira, Hildebrando Martins, Homero Leite Meira, Ibraim Victor de Oliveira, Jaime Antunes de Souza, João Batista Barbosa, João de Freitas Ferreira, João Francisco Xavier, João Gualberto do Amaral, João Paulo Guedes, Joaquim Borges de Figueiroa, Joaquim da Silva Guimarães, Joaquim dos Reis, Joaquim Quintão de Oliveira, Joaquim Silvério de Souza Telles, Jorge Luís Miranda, Jorge Scarso, José Bonifácio de Souza Barradas, José Cassimiro Sobrinho, José Celestino Teixeira, José da Santíssima Trindade, José de Oliveira Valente, José Ermelindo de Souza, José Eudes de Carvalho Araújo, José Geraldo Coura, José Geraldo Vidigal de Carvalho, José Justino Paes Maciel, José Lopes dos Santos, José Maria Rodrigues de Morais, José Sazami Kumagava, José Silvério Araújo, José Torquato da Rocha, José Xavier Coelho, Lauro Sérgio Versiani Veloso, Licínio Fernandes de Oliveira, Luciano Pedro Mendes de Almeida, Luiz Carlos Ferreira, Luiz Carlos Lopes, Manoel Fellipe Nery, Manoel Gonçalves Fonres, Manoel Inácio de Castro, Manuel Bittencourt Godinho, Manuel da Cruz, Marcelo Moreira Santiago, Marcelino Rosado, Marcial Muzzi, Márcio Vieira Viana, Mateus Vigorito, Maximiliano José da Silva e Castro, Modesto Paiva, Napoleão Lacerda de Avelar, Nilo Dias de Andrade, Oscar de Oliveira, Osvaldo Renato Cunha, Paulo Diláscio, Paulo Dionê Quintão, Paulo Vicente Ribeiro Nobre, Pedro Lopes da Silva, Pedro Maciel Vidigal, Pedro Rosa de Toledo, Raimundo Gonçalo Ferreira, Raimundo Machado, Raul de Faria Cunha, Renato Alves Rodrigues, Rodolfo Lima, Sebastião Inácio de Moura, Sebastião Luiz Nogueira, Sebastião Sant’Ana, Seraphim Pecci, Silvério Gomes Pimenta, Sinphronino José de Almeida, Tarcísio Fortunato Matheus, Tarcísio Sebastião Moreira, Theóphilo Antônio do Souza, Vicente Diláscio, Walter Coimbra Rezende, Walter Jorge Pinto, Wander Torres Costa, Vanderley dos Santos Souza, Vandick Elias Gomes e Wellerson Magno Avelino.


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Pe. Agostinho Isidoro do Rosário, titular de uma sorte de terras nas proximidades da atual Rua dos Passos, fora capelão em São José do Barroso (Paula Cândido) entre 1853 e 1854. Revelou-se grande administrador dos bens paroquiais, conforme documentos conservados no arquivo paroquial de São José, de Paula Cândido. Empossado interinamente em Santa Rita a 1º/4/1833, teve a sua colação como pároco, por carta imperial de 23/2/1837. Durante seu paroquiato edificou-se a primeira Igreja Matriz de Santa Rita, iniciada em 1851, no patrimônio da velha capelinha (depois Largo da Matriz). De frontispício barroco, demolido em maio de 1955, o extinto templo foi erigido defronte a segunda capela do distrito, onde repousara, desde 29/05/1819, o corpo do Pe. Manoel Inácio de Castro, natural do Sumidouro de Mariana e grande líder do povo viçosense de antanho. Aquela que fora provavelmente a segunda capela, fora edificada em 1813, na referida praça central. Pe. Agostinho revelou-se um grande administrador dos bens eclesiásticos. Sua atuação, naturalmente se estendia aos curatos. A respeito da situação de um desses curatos sob sua jurisdição, a atual cidade de Paula Cândido, surgida como povoado no findar dos setecentos (1792?), conserva-se uma correspondência desse nosso pároco, na qual ele manifestou preocupações junto à Vicararia Capitular da Cúria Marianense, solicitando a criação de um conselho administrativo naquele curato, então denominado “fábrica”, para um possível aumento dos rendimentos do Curato de São José do Barroso.
Instituída canonicamente a 14 de julho de 1832, a Paróquia de Santa Rita seu primeiro pároco foi o Pe. José Bonifácio de Souza Barradas, até 1837. Sucedeu-lhe (?) inicialmente o Pe. Agostinho (1837-1853) e depois Pe. Camilo Martins Pereira de Andrade (1853-1860), Pe. Manoel Felipe Nery (1860-1879, Pe. Teophilo Antônio de Souza (1879-1883), Pe. Antônio Correia Lima (1883-1901), Pe. Sinfronino José de Almeida (1901-1903), Pe. Joaquim Silvério de Souza Telles (1903-1906), Pe. Belchior Máximo Homem da Costa (1906-1909), Pe. Frei Serafim Pecci (1909-1925), Pe. Álvaro Corrêa Borges (1925-1947), Cônego Modesto de Paiva (1947-1957), Pe. Geraldo Maia (?)e Pe. Carlos dos Reis Baêta Braga (1957-1999), este com o mais longo paroquiato até hoje registrado.
Pe. Manoel Filipe Nery faleceu a 21/4/1879. Vigário apresentado por Carta Imperial de 16 de agosto, foi empossado na paróquia a 11 de setembro de 1861. Foi ele quem abençoou os Voluntários da Pátria que combateram na Guerra da Tríplice Aliança e quem batizou o duodécimo presidente da República brasileira: Dr. Arhur da Silva Bernardes. Era Pe. Nery ainda o grande líder espiritual de Santa Rita do Turvo quando esta teve modificado o topônimo para Viçosa de Santa Rita. Teve como seu sucessor, primeiramente, o Cônego José Maria Rodrigues de Morais (interino), e, logo em seguida, Pe. Teófilo Antônio de Souza, que permaneceu na Paróquia de Santa Rita até 1883, desde 1879.



TRAJETÓRIA ECLESIÁSTICA NO SÉCULO XX



No limiar do século XX, de 1883 a 1901, a Igreja de Viçosa tinha à frente o Pe. Antônio Correia Lima, que legou especial contribuição à vida civil, partícipe que foi da elaboração do Estatuto da Câmara da Cidade Viçosa. Entre os que por ele foram batizados, a 17/7/1892, um menino muito especial, seu xará: Antônio Guilherme Pires da Costa, que nascera em Viçosa de Santa Rita a 25 de junho de 1892. Era um vocacionado como quem o introduzira no Grêmio da Igreja Católica pelas águas do Batismo. Falecido a 10/9/1981, ele levou muita luz, esperança, evangelização, verdade, consolo, compreensão e alegria às cidades mineiras de Mateus Leme, Guiricema e Bonfim. Pe. Antônio Guilherme estudou no Colégio do Caraça e foi ordenado a 29/6/1918. Foram 63 anos de sacerdócio. Desses, 60 dedicados à Paróquia do Senhor do Bonfim, de Bonfim (MG), onde a sua memória é cultivada "com grande afeição", como destaca seu biógrafo e sobrinho Raimundo Pires da Costa, era o filho primogênito do casal Pacífico Pires da Costa e Rita Virgilina Gomide. Aprendeu as primeiras letras do mestre Manoel de Deus Mello e foi criança freqüente à catequese nos tempos do Pe. Belchior Homem da Costa. Em 1909, ele se matriculava na Escola Apostólica do Colégio Caraça. Tirocinista em Guiricema, iniciou sua carreira sacerdotal como substituto do vigário de Mateus Leme, Pe. Hermenegildo Vilaça. Do livro "Pe. Antônio Guilherme – Um Cura Corpo e Alma", pinçamos os seguintes depoimentos, que constituem o seu retrato de corpo inteiro: "O padre Antônio viveu intensamente o evangelho, procurava na oração e na leitura cotidiana das Sagradas Escrituras e do breviário vigor e energia para o trabalho e ação, encontrando forças e motivação para uma autêntica ação apostólica: Ficava horas a fio no confessionário, atendendo a todos, na zelosa tarefa de preparação dos fiéis para a eucaristia, centro da plena comunhão com Deus uno e trino. Servir sempre e sempre ao Senhor com alegria." Padre Pedro de Sousa Pinto deu, na referida obra, o seu testemunho: "Um santo em conseqüência do seguimento de Cristo e da prática fiel de seus ensinamentos. Santo, porque viveu toda a sua vida para Deus no desempenho do ministério sacerdotal que lhe foi confiado. Santo, porque foi humilde e pobre. Santo, porque deu tudo de si mesmo pelo rebanho que lhe foi confiado por tantos anos, como resposta de amor por tudo o que Deus fez dele e por ele. Santo, porque não foi uma pessoa perfeita em tudo, mas porque acreditou e tudo fez para viver na maior integridade possível. Santo, porque procurou e lutou para ser, de verdade, um homem de Deus. Pe. Antônio foi, sem dúvida, um homem de Deus. Santo, porque sua vida, seu jeito de ser, sua simplicidade, sua humildade, sua amizade, sua fé, seus momentos de nervosismo, nos apontou que a santidade está ao alcance de todos nós. Ela não é simplesmente fruto de grandes feitos e sim de como saber associar a vida toda e toda a vida ao mistério da fé que nos lança continuamente nas mãos do Senhor. Assim foi Pe. Antônio Guilherme."
E no efêmero espaço de tempo compreendido entre os anos de 1902 e 1903, Pe. Sinphronino José de Almeida, que fora também capelão de São José do Barroso (1830 a 1832) e de São Sebastião da Pedra do Anta (1919), foi o pároco de Santa Rita do Turvo. Na Sacristia do Santuário de Santa Rita de Cássia foi acrescentada, em 2008, na galeria dos ex-párocos de Viçosa, a foto dele, que faleceu a 16/02/1951, em Belo Horizonte. Em Guidoval também cultivou profundas raízes, existindo naquela cidade mineira uma avenida central com o seu nome.
Sucedendo ao Pe. Joaquim Silvério de Souza Teles (1903-1906), o Pe. Belchior Máximo Homem da Costa (1906-1909), filho de tradicional família mineira (Guarda-Mor Matheus Homem da Costa e Maria Dias de Carvalho), foi o antecessor imediato do Pe. Frei Serafim Pecci (1909-1925) na direção da Paróquia de Santa Rita, ao mesmo tempo em que era capelão de Teixeiras. Primeiro provedor do Hospital São Sebastião, Pe. Belchior está sepultado em Rio Pomba, onde foi ordenado sacerdote em 1902.. Conforme sua sobrinha-meta, a musicista Maria Tereza de Alvarenga Coelho, em depoimento a este blogger, "quando ficou doente foi morar em Rio Pomba, na casa de meu avô José Alvarenga. Padre Belchior foi vigário na Catedral da Boa Viagem em Belo Horizonte e na cidade de Ubá". Em Rio Pomba, são vários os túmulos da família Alvarenga. Há informação de que o dele seria o mesmo de sua mãe, Maria Adelina da Rocha e da irmã Alice, primeira esposa do pai dele, Belchior Homem da Costa. As paredes laterais da antiga Igreja Matriz de Santa Rita foram reformadas durante o paroquiato do Pe. Belchior. De estatura física elevada, pregador austero, cunhado do Dr. José Tostes de Alvarenga, médico em Rio Pomba, descendente de Antônio Dias Tostes, pioneiro da cidade de Juiz de Fora. Dr. José Tostes foi casado com suas irmãs Alice Augusta da Costa, falecida em 1915, e Maria Engrácia da Costa, falecida em 1947, pais do Dr. José Tostes de Alvarenga Filho, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Juiz de Fora, ex-presidente do Banco do Crédito Real de Minas Gerais, criador do museu desta instituição bancária, provedor da Santa Casa de Misericórdia de Juiz de Fora e reorganizador do Museu Mariano Procópio, também de Juiz de Fora. O pai do sacerdote, seu homônimo, Belchior Homem na Costa, nasceu em Mercês (MG) em 1841 e era Comendador da Ordem da Rosa, no grau de Cavaleiro, por decreto imperial de 25 de setembro de 1889. Filho de Antônio Homem da Costa e de Luzia Lopes de Faria.



PAROQUIATO DO PE. FREI SERAPHIM PECCI



Entre 1909 e 1925, um italiano da província de Salerno, nascido a 19/8/1867, foi também pároco. Vindo de Pirapitinga, nomeado pelo bispo (depois arcebispo) Dom Silvério Gomes Pimenta, Pe. Frei Seraphim era aquele que fazia com que do interior da extinta Igreja Matriz espargissem maviosas sonoridades. Era comum a cena de um clérigo vestido com sua loba negra a criar divinal musicalidade. O Vigário Pe. Frei Seraphim Pecci a dedilhar, entre os sobrinhos Fiori e Felício Brandi, as teclas de um imponente harmônio.
Das realizações de seu paroquiato ressalte-se uma especial. Em 1912 surgiu no município, a Sociedade São Vicente de Paulo (SSVP), que obteria a sua Carta de Agregação, isto é, sua filiação ao Conselho Geral de Paris em 1926, com 32 fundadores, já no paroquiato de seu sucessor imediato, Pe. Álvaro Corrêa Borges. O Conselho Particular de Viçosa, que no princípio do século XXI congregava sete conferências, com mais de uma centena de confrades, obteve a 13/6/1938, a Lettre D’Institution du Conseil Particulier du Viçosa. Em 2005 eram 29 as conferências vicentinas na cidade, divididas nos conselhos particulares de N. Sra. de Fátima e de Santo Antônio e no Conselho Central. As sociedades vicentinas constituem um dos maiores e mais antigos movimentos leigos católicos de âmbito internacional, sendo formadas por membros ativos, confrades e consócias, e por membros auxiliares, benfeitores e contribuintes. O Conselho Central, sediado na Rua dos Passos, 54, congrega toda a área municipal, além de Araponga, São Miguel do Anta, Cajuri, Ervália, Monte Celeste, Paula Cândido, Divinésia, Senador Firmino, Dores do Turvo, Brás Pires, Presidente Bernardes, Porto Firme, Canaã e Coimbra. A SSVP de Viçosa e região é regida por um estatuto aprovado em sessão da assembléia extraordinária de 18/5/1969, baseado na Regra da SSVP, no Brasil, feita pelo Conselho Nacional Brasileiro da SSVP. O Conselho Particular foi registrado no Cartório Civil de Pessoas Jurídicas a 31/10/1969, sendo reconhecido de Utilidade Pública pelo Decreto Lei Municipal nº 543, de 10/12 do mesmo ano. O objetivo maior das conferências vicentinas, desde sua fundação, é a visita domiciliar aos assistidos. É comum a SSVP se dedicar à manutenção de várias obras como hospitais, abrigos, asilos e creches. São as chamadas Obras Unidas, que cooperam com o verdadeiro e principal trabalho da SSVP, que é a visita ao assistido em seu domicílio. Constata-se assim que o importante para os seguidores do santo confessor e fundador da Congregação da Missão, cujo dia é comemorado a 27 de setembro, nascido em Landes (França), falecido em 1660, é a melhoria de vida de seus assistidos, ajudando-os nas suas necessidades materiais e espirituais em Viçosa, desde os tempos de Pe. Frei Seraphim Pecci, falecido a 29/3/1931 e sepultado em belíssimo mausoléu, em Viçosa.
Foi também durante seu profícuo paroquiato que as seguidoras de Madre Maria das Neves (Rita de Cássia Aguiar), falecida a 8/3/1906, fundadora da Congregação das Irmãs Carmelitas da Divina Providência (presente no Brasil, Equador e Argentina), as freiras que formam a Fraternidade Carmo, na rua Virgílio Val, 161, centro, chegaram a Viçosa, para dirigir a Escola Normal, a partir de 3/5/1917. Tendo aportado em solo viçosense pela primeira vez, provenientes de Cataguases, exatos 3 meses antes, no dia 3 de fevereiro, a Família Carmelita cresceu em número de irmãs e em obras. A superiora da Congregação era então a Irmã Bernardete, tendo sido primeira diretora a Irmã Maria Verônica de Santa Face. Elas trabalharam inicialmente no hoje centenário Hospital São Sebastião, desde 1918. Um nostálgico poeta, Pinto Coelho, ao lembrar-se de sua mocidade, trouxe-nos, em magistral descrição, Frei Seraphim, para ele uma figura realmente “esbelta e impressionante”. Assim o descreve: “O melhor sorriso e vago sotaque de italiano... longa e bem tratada, a barba, preta como a sua batina, sereno olhar de investigador dos mistérios da vida... ar nobre e, ao mesmo tempo, simples, a passar uma das mãos sobre a outra, os olhos vivos a fixar-me, a dizer-me boas e imerecidas palavras de acolhimento. Com os seus sessenta e três anos, demonstrava o entusiasmo e o ardor de um jovem, contava episódios de sua vida, relembrava os amigos que deixou em Viçosa e acabava por dizer: - ‘Mas a vida é curta, meu amigo...’ Sobre música dizia que ela era, para o seu espírito, um documento. Admirava os que compunham idéias musicais. Distinguia o vocalista do instrumentista. A voz humana – acrescentava – define e interpreta, melhor que todos os acordes, a carícia e o grito, a dor e o amor, a cólera e a ternura... cantor e músico de Deus. Figura imperecível... Quem o conheceu e com ele teve a ventura de privar, há de convir em que o amável franciscano materializava em ação aquelas doces palavras do Mestre, recolhidas por São Mateus: ‘O meu jugo é suave e o meu fardo, leve’. Assim o sentíamos os que aqui labutávamos sob a direção espiritual daquele sacerdote, respeitado como Pastor e querido como pai... Tinha, com a sua proverbial cortesia, o dom de subjugar as inteligências e aprisionar os corações, confirmando o pensamento de Lacordaire de que ‘a verdade magnetiza a mente e a beleza da vida mergulha até a alma’. Como os grandes discípulos do ‘poverello’ de Assis, fez da cruz um fardo leve e motivo da mais justa e avassaladora alegria... Apaixonado pela música, que cultivava como um mestre, ele soube comunicar, dentro dos limites da arte digna do templo sagrado, o ardor da própria alma dos que o cercavam”. Esta a imagem do pároco que é nome de rua central em Viçosa, deixada pelo poeta Pinto Coelho. À época do Pe. Seraphim, Viçosa tinha suas entradas e saídas principais no Pau-de-Paina (bairro Nova Era) e na estrada da Conceição (estrada de Nova Viçosa a Airões). O centro era pouco mais do que a Rua Municipal ou das Vassouras, ou do Pastinho (rua Virgílio Val), a Rua do Comércio (rua Benjamim Araújo), a Rua de Cima (Calçadão da rua Arthur Bernardes), a Rua Direita ou de Baixo (Rua Senador Vaz de Mello), a Rua do Cruzeiro (rua Pe. Serafim), o Largo da Matriz (praça Silviano Brandão), o Largo de São Francisco (praça Dr. Christóvam) e a Rua Nova, além do Pasto dos Barros (avenida Santa Rita).
Notabilizou-se, portanto, o Pe. Frei Seraphim em ser um clérigo compositor, solista, que ensinando e incentivava o povo a cantar e a se organizar em conjuntos orquestrais e bandas musicais. Um som considerado celestial provinha sempre de sua residência, na antiga Rua do Cruzeiro (via que tem agora o seu nome)quando ele ali estava em seu piano. Prestou serviços religiosos, em seus derradeiros dias, também à cidade mineira de Mar de Espanha, a partir de 1928. Seu falecimento se deu a 29/3/1931, tendo sido sepultado na atual quadra 2 do Cemitério Dom Viçoso, em Viçosa, no mausoléu de número 129. À época do Pe. Seraphim, o distrito da sede de Viçosa, seu atual centro urbano tinha apenas três templos: a Matriz de Santa Rita, a Igreja do Rosário e a Capela dos Passos. E antes da chegada da SSVP, eram associações religiosas o Apostolado da Oração e as Damas do Sagrado Coração. Em 1916 - informam-nos historiadores - era de 40 a média anual de casamentos, 80 de catequizandos e 270 de batizados.
Admiradores convencidos de suas virtudes e méritos, os viçosenses reconheciam-no "um sábio", um "pároco modelar", por suas "maneiras altamente distintas" e pelo seu "inexcedível zelo no tratar das cousas religiosas", revela-nos documento de 9 de janeiro de 1925, quando este padre de vida e nome angélicos se mudou para a Itália.



TEMPOS DO PADRE ÁLVARO CORRÊA BORGES



Com uma sempre relevante participação na vida política, cultural, econômica e social de Viçosa, Padre Álvaro Corrêa Borges, vigário encomendado de Paula Cândido entre 1927 e 1928 e também durante o ano de 1940, provedor do Hospital São Sebastião, um dos diretores do Colégio de Viçosa em 1926 e prefeito interino em 1931, foi o pároco de Viçosa de 1925 a 1947. Mineiro de Formiga, este venerando sacerdote nascido a 25/11/1896, faleceu em Viçosa a 12/7/1967, estando sepultado no jazigo de número 168 do Cemitério Dom Viçoso.
Nas Semanas Santas transcorridas à época de seu paroquiato, como está a informar Parrique numa de suas antológicas crônicas publicadas no jornal A Cidade, “ao lado da Matriz, debaixo de árvores frondosas, em frente à mansão do Coronel Torres, onde existia um chafariz, eram armados os afamados botequins, cercados de esteira de taquara e cobertos de indaiá, onde o povo da roça, e mesmo da cidade, bebia o café com leite acompanhado de broas de fubá, comendo até frangos fritos, com os licores fabricados por Januário de ‘Sá’ Norberta, que lhe dava o nome de ‘idéia nova’. Dentro de um baú, era infalível a combuca de Almiro Torres, que era enfeitada de vidros de cheiro e outras quinquilharias, mas nos papeizinhos de sorteio só saíam um grampo, um alfinete, um cigarro, um espelhinho e dificilmente um canivete”. É o cronista provinciano quem nos relata: “No Domingo de Ramos, a velha e saudosa Matriz, com seu imponente lustre de pedrinhas, amanhecia atapetada de junco que vinha, em carro-de-boi, da fazenda do velho Xaxá”, pai do saudoso médico e presidente da Câmara, Dr. Sebastião Ferreira da Silva. “Era toda ornada de palmeiras, o que lhe dava aspecto bonito e imponente, um convite a orações, na hora de nossas meditações, num balanço espiritual de nossa vida de católico... Os apóstolos, que eram as crianças, usavam uma túnica vermelha, com um cordão na cintura e uma capa de tonalidade azulada... Como eram poéticos os lampiões de querosene, nas esquinas das ruas, acendidos por Dudu e Dico da Boa, com as casas iluminadas por lanternas de vidro quando as procissões passavam, os homens de terno preto e as mulheres de fichus cobrindo a fronte, em sinal de respeito e de luto! As imagens passavam e todos se punham de joelhos, ouvindo as marchas fúnebres... parando nos ‘Passos’, que representavam as estações do sofrimento de Cristo... D. Hélder Câmara, D. Távora, Monsenhor Pedrinho, Padres Ponciano, Cotias, Galo, Assis Memória e outros oradores sacros de projeção pregavam sermões magníficos que prendiam a atenção de todos. Como não existiam ainda a televisão e o rádio, as famílias disputavam um lugar na Igreja, levando cadeiras de suas casas para ouvir os sermões da Eucaristia e das Sete Palavras... E as chácaras de Judas? Após a procissão do enterro a rapaziada varava os quintais em busca de latas velhas, cancelas, portões, vasilhames de cozinha, taboletas comerciais, carroças, carros-de-bois e tudo era levado para frente da Igreja, onde já estavam os cavalos do pessoal da roça que vinha assistir à festa...” O fogueteiro e sacristão, segundo nosso cronista, “sabia preparar uma bomba que espoucava no ar como uma cabeça de negro, sem nunca falhar, correndo a meninada para apanhá-lo, em busca de barbante que envolvia o canudo do foguete, visando fazer um bodoque para perseguir os inocentes passarinhos. A célebre ‘estacaria’, à porta da igreja, no sábado de aleluia, retumbava dentro da igreja... E quando a Semana Santa terminava, a cidade era envolvida em saudade e todos ficavam ansiosos para chegar o mês de Maria, que era festejado com pompa”.
O escritor Elias Ibrahim, da Academia de Letras de Viçosa, também nos relata que “lá pelos idos da década de 1930, na antiga Igreja de Viçosa, Pe. Elpídio Cotias era sempre escolhido como pregador. Isso nas Semanas Santas e ficavam para ele os sermões mais difíceis. No sermão das 7 palavras, durante 3 horas, ele discorria maravilhosamente a respeito dos últimos momentos de Jesus Cristo. Pe. Cotias tinha muito conhecimento do latim. Suas primeiras frases eram ditas em latim e daí em diante era aquela beleza. Para mim ele foi o maior orador ou pregador que passou por Viçosa. Dominava perfeitamente a arte da oratória. Impressionava o auditório de tal maneira que conseguia encher a Igreja e os lugares perto do púlpito eram disputados. Eu tinha nessa ocasião uns 15 ou 16 anos e bem antes eu já estava lá para ouvi-lo. Oratória não é para qualquer um. Já se nasce com esse dom como um cantor. É arte oral ou fonética como a música e a poesia”.
"Foi nesta época que aqui esteve também o Pe. João Gualberto do Amaral cujo sermão sobre a Eucaristia foi um dos mais celebrados durante décadas. Mais tarde, já idoso, convidado a voltar a pregar em Viçosa no final da década de 40 ele afirmou: 'Outrora fui, talvez, um trovador da Eucaristia, hoje sou apenas um gritador dos louvores eucarísticos'. In fide sacerdotis et magistri eu lhe posso afirmar que Suas palavras tão espontâneas fluíam de seus lábios com exuberância, revestiam-se de engalanadas pompas os conceitos profundos que, nos momentos de mais grandíloqua eloqüência, arrebatava. Imergia seus ouvintes no belo, na verdade, no bem, como que possuído de luzes especiais do Espírito Santo. A largueza de vistas com que encarava o assunto, submetido à agudeza de seu engenho, prendia a inteligência de quem o escutava. Ele lançava sua tese, deixava-a no espírito do ouvinte, ia construindo, com uma série luminosa de reflexões, uma cadeia de argumentações ilustradas com todos os recursos da retórica e, sem nunca deixar o assunto, retomava a tese em tela, finalizando numa síntese que eram suas famosas perorações, luminosas, patéticas, enternecedoras. Possuía o dom da unidade oratória”, completou em depoimento a este blogger o Cônego José Geraldo Vidigal de Carvalho, ao citar o discurso (in Temas Finais) de sua posse na Academia Marianense de Letras, cadeira 5, cujo patrono é este extraordinário orador sacro.
O historiador Dr. Fernando Araújo, co-autor da biografia de seus ancestrais, coronel-médico da Polícia Militar de Minas Gerais, ex-presidente da Academia Mineira de Medicina, membro efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, 18º presidente da Associação Médica de Minas Gerais, confirma tais fatos às páginas 111 e 112. ARAÚJO (nº ?) relata que “geralmente os sermões eram proferidos por padres de alto nível intelectual, provenientes de Mariana e outras cidades, que proferiam verdadeiras peças oratórias não só pela eloqüência como pelo conteúdo filosófico.
Viçosa mudava completamente sua vida durante a Semana Santa, ficando sua praça da matriz e ruas próximas totalmente tomadas por pessoas provenientes de toda a região. As pensões e casas de família ficavam lotadas de visitantes e muitos dormiam nos jardins da Praça Silviano Brandão. Barraquinhas de salgados, doces, café com leite, etc., enchiam as ruas próximas, principalmente a Rua do Comércio. Após o meio-dia de quarta-feira até o ‘romper’ das aleluias, no sábado, na era permitido o toque de sinos, ouvir ou tocar músicas que não fossem sacras, assistir a filmes cinematográficos que não os bíblicos, fazer barulhos excessivos etc. A Igreja permanecia o tempo todo ornamentada, com o chão coberto de junco, o que lhe dava um aspecto diferente e acolhedor. As imagens dos santos eram recobertas com um pano roxo, durante toda a quaresma.
Praticamente toda a população comparecia às procissões, as janelas das casas eram enfeitadas com as mais finas toalhas e as ruas, principalmente no domingo, recobertas de flores. A procissão de terça-feira terminava no calvário que era montado junto à porta da Igreja, onde três enormes cruzes representavam Jesus Cristo, o Bom e o Mau Ladrão. Antes, a procissão parava em altares, denominados de ‘passos’, localizados nas residências de Manoel Coelho, Altivo de Melo, Zefina e Zinho Simonini. Na sexta-feira, o ponto alto era a Procissão do Enterro, caracterizada pelo profundo respeito dos fiéis e pela figura da Verônica que, durante o cortejo, entoava cânticos tristes em louvor a Jesus Morto. Para essa representação era escolhida a moça possuidora de melhor voz na cidade. Por muitos anos as irmãs de mamãe, Nhanhá e Zizinha, fizeram com sucesso, esse papel de Verônica. O sábado da Aleluia trazia de volta o repicar dos sinos, a música festiva, os fogos de artifício e, principalmente, para alegria geral, a queima do Judas, na Praça Silviano Brandão. O último domingo da Semana Santa começava às 5 horas da manhã com a solene Procissão da Eucaristia, com o comparecimento maciço da população, entidades religiosas etc.”
E foram palavras de Pinto Coelho, o grande poeta de Viçosa, que bem definiram o perfil do Pe. Álvaro: “Não havia quem não se rendesse à doçura e à serenidade de sua presença, irradiante de simpatia e conquistadora de amizades. Tudo em torno dele e por onde passava se impregnava de bondade. A par de uma alma pura, generosa, profundamente liberal, que se dispunha para o bem e para o perdão, distinguia-se pela sua brilhante inteligência e primorosa cultura. Sem deixar de ser o ‘Homo Dei’, era bem homem. Para ele o sacerdócio era amor ao próximo, no mais alto grau. Poucos, tão homens e tão sacerdotes, como ele. Nas horas de amargura, jamais proferiu uma palavra com violência ou ânimo de injuriar: apenas um triste sorriso lhe aflorava aos lábios. Removido, em 1947, como capelão, para Conselheiro Lafaiete e, posteriormente, para Belo Horizonte, onde permaneceu durante 10 anos, como vigário da Paróquia ‘Cura d’Ars’, o Padre Álvaro suportou, por muitos anos, em silêncio, na sua evangélica humildade, a dureza do quase ostracismo. Entretanto, conservou-se sempre o mesmo, espirituoso e alegre [...] Tinha a visão límpida da imensa tarefa que ao sacerdote cabe num país como o nosso [...] Gravemente enfermo, veio para esta cidade onde, hospitalizado durante muitos dias, não lhe faltaram os recursos da medicina nem os cuidados de seus dignos irmãos e inúmeros amigos, todos incansáveis em servir com desvelo ao seu antigo vigário até a hora da extrema despedida da existência terrena. A mim impressionaram sempre, e mais do que nunca entristecem, os funerais sem lágrimas. No enterro do Padre Álvaro, ao contrário, eram muitos, homens feitos e velhos, mulheres e crianças os que choravam copiosamente [...] A vida do Padre Álvaro há de ser para nós uma inspiração, sua lembrança uma bênção e seu exemplo uma esperança. Em altar viverá ele, custodiado no coração de Viçosa e de quantos souberam venerá-lo em sua plena, fecunda e gloriosa existência. No Paraíso, certo de ter cumprido sua espinhosa missão na terra e pago o que a vida lhe deu em troca, poderá dizer: ‘Non omnis moriar’. Não morrerei de todo. Deixo a minha obra, que viverá por mim’”. Sob a epígrafe “Morreu o velho pastor”, Folha de Viçosa de 16 de julho de 1967 publicava seu panegírico, assinado pela articulista Simone: “Na manhã de 13 de julho o sino de Santa Rita dobrou dolorosamente pedindo uma prece pelo descanso eterno do Velho Pastor Pe. Álvaro Corrêa Borges. Por um quarto de século, apascentou as ovelhas do rebanho de Viçosa com dedicação e zelo espiritual dignificantes. Aqui empregou os melhores anos de sua mocidade na pregação do Evangelho de Cristo, batizando em Seu nome, confortando almas aflitas, reconduzindo transviados, levando a unção da hora extrema ao moribundo. Noites sem conta, cavalgou por esses morros escuros que cercam a cidade para absolver pecados e ungir com óleo santo os que estavam prestes a morrer. Sua casa, em qualquer paróquia, foi sempre oásis espiritual de quem sofria. Ali, uma bênção piedosa, uma palavra de fé era paz, conforto, consolação. Quarenta e oito anos passou no confessionário, sussurrando conselhos e palavras de perdão! Patriota e nacionalista, no bom sentido, sempre alertava os paroquianos quanto aos deveres cívicos, ao lado dos deveres da Religião. Findando sua missão na terra, o Senhor o chamou a Si. Exigiu, porém, do Velho Servo, uma última pregação: a pregação muda da paciência, da resignação, da esperança na vida futura. Foi a lição que aprendemos de sua última enfermidade, cadinho de purificação! A vida se lhe foi extinguindo pouco a pouco e Deus, na impenetrabilidade de seus desígnios, conservou-lhe a lucidez até bem poucos passos do fim, certamente porque o sacrifício consciente se reveste de maior valor. Em meio a tanta dor, sem um protesto sequer, o bom Velhinho tentava sorrir ao visitante no intervalo das lágrimas agradecidas que silenciosamente derramava. Morreu pobre. Nunca viveu para si. Confiou sempre no Deus que alimenta as aves do céu. E nenhum conforto lhe faltou. Nem mesmo o carinho de amigos, que, de longe, vinha prestar-lhe a homenagem derradeira. Sua agonia foi longa, mas a morte serena: tranqüila como a alma do justo. Soando a hora final, as últimas forças concentradas levaram-no a erguer-se a meio corpo e a olhar firme para o Céu, como se dissesse em sua prontidão característica: ‘Seu servo está pronto, Senhor’ e fechou os olhos para sempre. A Igreja se encheu de amigos de fiéis, ao correr a notícia de seu falecimento. Clero, autoridades civis, o povo. Homens rotos, de pés descalços, ao lado de outros das classes liberais, todos confraternizados junto ao ataúde do amigo comum. Enquanto os sacerdotes, na solene gravidade do ritual canônico, encomendavam sua alma a Deus, nós, na convicção de nossa fé, ouvíamos-lhe responder ao coro da terra, na Glória Eterna, onde descansa: ‘Por todos os séculos dos séculos. Amém’”.

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De acordo com o professor José Marcondes Borges, “no início da década de 1950, quando não havia a estrada asfaltada passando pelo Cantinho do Céu, quem chegava a Viçosa pela poeirenta estrada que vinha de Teixeiras, entrava no perímetro urbano pela única rua do Pau de Paina (Nova Era). Passava, em seguida, pela Rua dos Passos ou pela Dr. Brito, Muzungu e Virgílio Val, ou Benjamim Araújo, para chegar ao centro da cidade. Este se constituía de três ruas, apenas: Vaz de Mello, Arthur Bernardes e Balaustrada (Bueno Brandão) que, sem contar a P. H. Rolfs, confluíam para as ruas do Cemitério, Gomes Barbosa e Santa Rita. Estas últimas levavam à Conceição, onde a cidade terminava, no pé do morro, e o viajante voltava à poeira do caminho, para Paula Cândido e Ubá. Pelo exposto, quem andasse dois quarteirões, perpendicularmente ao eixo longitudinal da ‘lingüiça’, ‘estava no mato’. Para os ‘gozadores’, a cidade caminhava para o fim, pois, diziam, a cada casa que se construía, duas caíam”.




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USURPAÇÃO TERRITORIAL E GENOCÍDIO INDÍGENA



Numa mata de dificílimo acesso, o desmatamento vinha sendo feito com técnicas rudimentares, com o propósito de se plantar café. Sacrificavam-se, em até dezoito extenuantes horas diárias de um pesado trabalho, a mão-de-obra escrava. São inúmeras as notícias de latrocínios na região. CHIAVENATO ( nº? ) nos informa sobre o perfil dos elementos que compuseram, nas primeiras investidas, as bandeiras paulistas: “Eram marginalizados em Portugal e viveram como marginais no Brasil... E não há dúvida de que o bandeirante estava talhado para esse serviço. No geral, ele era um português analfabeto, de maneiras rudes, acostumado à dura vida de pobre. Já vinha treinado pela miséria desde o reino[...] Foi a necessidade econômica que impeliu os bandeirantes a ser o que foram. Primeiro foi a necessidade de escravos. Depois, foi a riqueza do ouro. E, por fim, oestabelecimento do latifúndio. Nessa última atividade, foi comum os bandeirantes atuarem como uma tropa de vanguarda, limpando o terreno para que os futuros latifundiários implantassem suas grandes propriedades. Mesmo aí, dedicaram-se à captura de índios, que eram vendidos como escravos, às vezes para os mesmos senhores que os pagavam para ‘limpar o terreno’ [...] Houve um ponto comum nessas três fases: o índio sempre era a vítima. Na primeira fase, os bandeirantes, enquanto escravizavam e matavam o índio, promoviam também o descobrimento das rotas fluviais, o conhecimento da terra, mas se desiludiam por não encontrar ouro facilmente. Isso ocorreu até mais ou menos 1696, quando finalmente apareceu o ouro. Os bandeirantes conquistaram a terra, e aos diplomatas restou o trabalho de aplicar o uti possidetis, legalizando a posse. Invadindo os sertões, preando índios, os bandeirantes garantiram a Portugal o alargamento das suas posses. O processo foi grandioso, mas marcado pelo banditismo”.
Quanto à fase seguinte, de ocupação propriamente dita do território indígena, JOSÉ ( nº? ) realça que “pelos mais diversos e indignos processos, o branco e seus associados usurpavam terras que se achavam na posse de croatos, cropós e puris. Se ocorria a conquista e apropriação do solo, deveriam existir conquistadores e conquistados. Foi o que não faltou. Conquistadores eram os brancos e associados seus e conquistados só poderiam ser os indígenas”. Ele descreveu os puris como “homens de estatura baixa, ora mediana, e de formas robustas, grossos e compactos, portanto, além de espadaúdos. Os homens mediam entre 1,35 a 1,65 metros de altura, e as mulheres tinham o seio de tamanho médio e não caíam muito. O ventre era volumoso, braços musculosos e redondos, pés estreitos e largos na frente, e pele de coloração acobreada. Cabelos negros, grossos, compridos e abundantes. Possuíam, ainda: cabeça de volume médio, testa baixa, pouca barba, rosto longo e anguloso, orelhas pequenas, olhos pretos e pequenos, afastados para fora, sombrancelhas finas, mas altas no meio, nariz curto e deprimido em cima e largo em baixo, beiços médios, boca pequena, dentes claros e queixo largo”.
Indianistas afirmam que, morrendo a maioria ainda jovem, e vivendo em estado de completa e absoluta nudez, nossos índios sequer conheciam rede e por isso faziam de leito a própria terra, e que estes rancheavam-se em habitações frágeis e extremamente rudimentares, formadas por duas forquilhas fincadas ao solo, sobre as quais atravessavam um pau, cobrindo-as com folhas de palmito, que faziam, concomitantemente, as vezes de telhado e de paredes. Não sabiam plantar nada. Isto aprenderiam com os brancos. Mas eram exímios nadadores, andarilhos, corredores, caçadores e pescadores, sendo que para pegar peixes de maior porte utilizavam-se de fios de embaúba para a confecção de suas redes. Sobreviviam de mel de abelhas, de frutos como sapucaia, genipapo, côco, jabuticaba e raízes de caratinga. Sua ferramenta era simplesmente uma pedra amarrada num pedaço de madeira.
O genocídio dos indígenas, praticado por aqueles que formariam os núcleos embrionários de uma aristocracia rural, controlando toda a vida econômica da Zona da Mata, suscitou fortes pressões internacionais. O rei de Portugal convenceu-se da necessidade de determinar a organização de uma expedição que possibilitasse uma amistosa aproximação com os indígenas. Em 1767, coube ao sertanista Francisco Pires Farinho, por designação do governador Luiz Diogo Lobo da Silva, a tarefa ingente de ser, nesse sentido, um especial guia, com função de comando. Especialmente por conhecer ele os costumes dos nativos, com os quais convivia harmoniosamente desde 1750. Entretanto, conforme alguns historiadores, sua ação não significou muito em termos reais de pacificação das tribos. Foram várias as tentativas no sentido de colonizar coroados, coropós, puris e aimorés, desde o Guarapiranga às margens das bacias fluviais do Xopotó, do Pomba e do Ubá. Terminavam em batalhas mortais. Enfrentando armas de fogo, os silvícolas usavam, em batalhas desiguais, seus machados e flechas. Havia uma terrível política de extermínio. Poupavam-se, entretanto, mulheres e crianças, aproveitadas em trabalhos domésticos.
No início do século XIX, na área compreendida entre os rios Angu, Meia Pataca e Pomba imperavam ainda as matas virgens. Antes da vinda da Corte portuguesa para o Brasil, Dom João VI havia mudado a concepção política com relação ao indígena, isto é, estudava a possibilidade de aldeá-lo, torná-lo civilizado, incorporando-o como súdito útil ao Império. Daí o aproveitamento do militar francês Guido Tomaz Marlière na tarefa de civilização dos indígenas da região, ainda de acordo com JOSÉ. Os mineiríndios não queriam, e não permitiram, tanto quanto lhes foi possível, a fixação de mineradores e agricultores em seu território. Por isso, de tempos em tempos, destruíam roças e as casas dos brancos invasores. Somente a partir da segunda metade do século XVIII foi que alguns arraiais se firmariam, em definitivo, com o aniquilamento dos índios.
Foi o Conde de Palma quem incumbiu Marlière da espinhosa missão de cumprir as seguintes normas:

“1º - que se conservem os Portuguezes, que estando arranchados nas terras demarcadas aos Índios as obtiverão, por posse, ou compra (ainda que nellas) e não prejudicão, antes favorecem aos mesmos Índios.
2º - que sejão obrigados a restituir immediatamente as terras aos Índios aquelles, que não lhes satisfiserão, apezar das bemfeitorias, que tenhão feito, salvo se preencherem as condições de compra.
3º - que apezar de possuirem terras pelos referidos titulos de compra, sejam expulsos para fora das aldêas, os que perseguem, e encomodam aos Índios, maltratando, ou destruindo suas plantaçoens e criaçoens.
4º - que os Portuguezes declarados facinorozos, e que comercião como as terras aos Índios, venham a minha Presença, de baixo de prizão, para lhes determinar o destino que me parecer conveniente”.

(Da Revista do Arquivo Público Mineiro, ano X, págs. 393 e 394).

A poaia, verdadeira quanto falsa, era abundante na Zona da Mata Mineira. Empregada contra a febre e como vomitório, era tida como eficaz pela medicina daquela época. Quanto a isto JOSÉ relatou: “Encontrava mercado certo junto aos aventureiros que vinham buscá-la. Esses a adquiriram geralmente pelo processo da troca, permutando-a pela aguardente, que uma vez conhecida do indígena, tornava-se sua perdição”. O fabrico de aguardente se transformou em eficiente “forma de que o aventureiro se valeu para vencer, conquistar e eliminar o indígena, numa trágica operação que duraria até o segundo quartel do século XIX, como está registrado nos escritos de Marlière, como esse que chega à violência verbal:

‘Em os Arraiaes frequentados pelos indios naturaes da paragem como Prezidio de São João Bapt.ª, e Pomba, duas Sodomas, q’ pa. satisfazer os preceitos da Religião, em os dias festivos veem bem vestidos, e sahem nús despidos pelos Taverneiros, q’ são hum em cada caza, e os lanção depois de bebados na rua aonde morrem apopleticos, ou esmagados pelos Carros, e Cavallos dos passageiros’.

Em verdade o avanço dos poaieiros trouxe consigo a conquista e o povoamento da terra e sua conseqüente colonização. Mas, a esse benefício, logo se opôs a ação deletéria resultante da troca da poaia pela aguardente. Realmente, os comerciantes inescrupulosos trouxeram para o indígena o ‘presente’ de sua destruição. Sempre arredio e temeroso, o mineiríndio se esquivava, a princípio, de entrar em negócios com o estranho. Para vencer essa dificuldade inicial, o aventureiro lançou mão da aguardente, cujo conhecimento por parte do indígena foi rude golpe, tanto na catequese como na colonização ordeira e frutuosa e na existência dos próprios grupos silvícolas. Daí por diante, o indígena era o primeiro a procurar encontros com os mercadores. Não foi, porém, apenas a aguardente a causa da decadência e do desaparecimento dos mineiríndios locais. À sífilis, à varíola, ao sarampo, à tuberculose, ao cruzamento com brancos e à prática do homicídio, coube também considerável parcela de culpa por esse desastre coletivo, em que pereceram tribos inteiras e, com elas, as mais antigas tradições locais. O organismo dos croatos, cropós e puris não estava habituado a produzir os anticorpos necessários à luta contra as invasões de tais moléstias. Era apanhado sem a indispensável capacidade de resistência. Na produção de mestiços, estava outra causa dessa eliminação do indígena como representante de uma etnia, embora os caracteres dela continuassem presentes nos novos seres. E a facilidade com que assassinavam indígenas completava o sombrio quadro...”
Em tempos realmente tumultuosos, em que existiam lutas entre as tribos indígenas dos aimorés contra os puris, no ano de 1808, estabeleceu-se, para a defesa dos colonos, na região de Santa Rita do Turvo e também do povoado de São Sebastião e Almas da Ponte Nova (que desde 1861 é o município de Ponte Nova), uma das divisões militares da Capitania de Minas, a mando de Sua Alteza Real, D. João VI. Existia, portanto, um quartel no povoado de Santa Rita, cujo contingente tinha funções exploratórias e não somente de defesa. Tratava-se, conforme registros históricos, de um serviço ordinário. As unidades da Guarda Nacional foram criadas depois, em 1831, como força auxiliar do Exército. Formadas por membros comissionados, eram organizações paramilitares dirigidas por comandantes gerais distritais, subordinados à presidência de juízes de paz.


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Transcrevemos adiante o que se pôde preservar do vocabulário de algumas das primitivas nações indígenas da Zona da Mata, formadas pelos índios puris, coropós e coroados. Tal dicionário foi organizado pelo capitão Manuel José Pires da Silva Pontes. Foi extraído do Tomo IX da Revista do Arquivo Público Mineiro:


A

Aba – homem, pessoa, cabelo; abaty-antom – milho; abaty-apê – arroz;
abi – agulha; acae – aí; acaiba – dorido, desassisado; acaju-caju –
amo; acanga – cabeça; acarã – garça (nome de certo peixe); ajura –
pescoço; akirai – abortar; aly – gaivota; amana-an – chuva, inverno;
amanajê –alcoviteiro; amanajêi – algodão; amana-ny – água de chuva;
amby –rancho; ambyra – defunto; amoma – parente; amu-irenandy – fêmea;
andiara – senhor; andyrã – morcego; anga – alma, sombra; anhangá –
demônio; anho – só; apeba – chato; apicaba – assento; apuam – globo,
redondo; apyabá – homem, macho de qualquer espécie de animal; apytiuma
– miolos; ar – queda, nascer; ara – dia, hora, mundo, tempo; ara-amana
– dia brusco; ara-ayba-etá – tempestade; ara-çacy – calma, calor;
aracoaracy – dia de sol; ara-çuipe – meio-dia; aracy – sol;
ara-etê-oçu – dia grande de festa; aravary – sardinha; archã – tia;
aroja – avô; aty – malho; aurano – pena; ayg – preguiça (animal).

B

Bera-berab – chamejar, fuzilar; boia – cobra; bubuí – aboiar.

C

Caã – herva, folha, mato; caã-etê – mato firme; caã-mando – caçar;
caãn-pyem – herva, relva; caã-para – rústico, habitante; caã-peru
–língua de mato; caã-puan – ilha; caã-pyir – capinar; caarary-ara –
verão, estio; caã-reru – beldroega; caã-roá – talo das árvores;
caã-roba – ramo das árvores; caã-ruca – tarde; caãtinga – mato
esbranquiçado; caaug – arremedar; caã-yby – anil; çaba – caía; caba –
vespa, banha, gordura; caba-oçu – peludo; çaboaçu – caraca; caburu –
cavalo; caça – rainha, menina dos olhos; caçapyra – gosto; çacecaceme
– algazarra; cacimbas – cachimbo; caçoão – ancião; caçoca – pilar,
moer, gorgulho; cacopca – romper; cacy – pena, dó; çaembé – áspero;
cagico – veia; çai – azedo; caí – queimado, queimar; çaibira –
gengivas; caibonçava – açougueiro; caiçara – trincheira, arraial;
çaimbançava – ajuntador; cainana – mulher velha; cainha – dente;
cainotim-manhagaba – olaria; cajiba – queixada, queixo; cajuca –
nervo; calloca – pelo; camapuan – peitos redondos; cambiçará – ama;
cambocy – panela; camby – leite; canca – peitos de mulher; cancute –
amar; cangaera – osso; cangoera-oçu – beberrão; canhana – ajuntar;
canhembora – o que costuma fugir; cantim – bico, ponta; çapeque –
tostar; capica – assentar-se; çapichava – roça; capi-retê – abrazar;
çapocai – chamar, apregoar; çapocaia – galinha; carai – feiticeiro;
caraibebê – anjo; carapi – curto; carapina – carpinteiro; carará –
mergulhão; cariboca – mestiço; carimã – farinha feita com mandioca
posta de molho; caroã – pita; caruaba – pasto; caruara – corrimentos;
carue – mijar, mijo; caryba – branco, português; catã – andar;
cata-inabê – abundância; catu – bem, são; catucaba – aguilhão; caú –
beber vinho; cauim – vinho; cauim-çai – vinagre; cauim-tata –
aguardente; cayeã – ontem; cearroma – ceia; cecá-cima – cego;
ceça-pecanga – sobrancelhas; cecapyço – vista; cecê – a cinta; ceem –
doce; cegiêmirim – tripas; cegiê-oçuí – estômago; cej – acarretar;
cemhã – mulher; cemhã-membira – sobrinho ou sobrinha do homem;
cemhã-mendaçara – casada; cemhã-moçu – donzela; cemhãtem – rapariga;
cemu – irmão de varão; cendú – ouvir; cendy – luz; cetê – corpo; cetem
– cheirar; cetyama – perna; ceyca – multidão, rebanho; cipó – planta
rasteira, trepadeira; cipó – raiz; cô – roça; coara – buraco, furo;
coaracy – sol; coaracy beraba – raios de sol; coaracy-ocankuní – sol
posto; coeno – nascer; comba – bertoeja, bonina; comendá – fava,
feijão; comendá-í – farinha; coô – caça, carne; coô-papáo –
quinta-feira; copê – costas; copiã – ovo; copiara – varanda, chaque;
corera – apápara; coromi-moçu – moço; corumirim – rapaz, criado;
cotypé – faces do rosto; couimi-oçucaba – novidade; çuaçu-apara –
veado-galheiro; cuacume – cobra; cuapara – camarada; çuasu – veado;
curucaba – papa, goela; cururiú – cobra d'água; cururu – sapo
maxilião; cutuca – picar; cuya – cabaço; cuyr – hoje; cyca – chegar.

E

Eâ – há! (interjeição), epeba – plano.

G

Goandu – ervilha; goiamim – velha; goiamim-ebera-para – arco da velha;
goobiru – rato; guã – saco de mar; guanana – marreco; guará – nome de
um pássaro (Ibis-Rubia); guará-piranga – barreira; guatã – passear;
guíra – ave, pássaro; guira-oçu – ave de rapina; gurupema – peneira;
gy – machado.

H

Huitêu – maçarico pequeno.

I

Iapar – aleijado; ibakepê tyryba – paraíso; ibatê - acima; iipé – tiú;
ikê – ilharga; imena – marido; imyra – árvore; inamby – perder; indoá
– pilão; inyry – cal; iomanar – abraço; ipecu – pato; iraitim – cera;
itã – ferro; ita – pedra; ita baboca – mò; ita bubuí – pedra pomes;
itã-cantim – chuço; ita-em – pedra hume; ita-embê – pedra de amolar;
itã-etê – aço; ita-hi – pedra de afiar; itã-jica – estanho; itã-jubá –
ouro, prata, dinheiro; itã-juráo – grelhas; ita-oca – parede de pedra;
ita-oçu – penedo; itã-peba – chapa de ferro; ita-tyba – rochedo,
pedregal; itic – arrumação; iyg apé – alagadiço.

J

Jacamã-mirim – charco; jacomã – poço d'água; jacoon – chorar; jacuê –
abafar; jacy – lua, mês; jacy-caba-oçu – lua cheia; jacy-gearoca – lua
minguante; jacy-jemotonçu – lua crescente; jacy-pocaçu – lua nova;
jacy-tata – estrelas; jagoaccacaca – lontra; jagoara – cão d'água;
jagoaraetê – onça; jakime – humedecer; jandu – aranha; jandy – aceite;
japi – apedrejar; japicoça – língua; japinon – onda; japixáo –
acutelar; japy – topada; japycã – multiplicação; jar – aceitar; jatime
– enterrar; jeauçupaba – amor honesto; jecripiam – joelho; jecuapaba –
sexta-feira; jemocarai – brincar; jemu – flechar; jeporacar –
mariscar; jeru –papagaio; jetica – batata; jicaçaba – abertura, raxa;
jirao –sobrado; jogoajira –alacráo; jora – amo, senhor, dono; juba –
manga; jucã –matar; jucaçara – matador; juçana pitereba – laço de meio
corpo; juçana-cepiyara – laço de pés; juçana-juripyara – laço de
pescoço; jucei – apetecer comida; juimboi – linha; jukira ou jukin –
sal; jurarã –tartaruga; jurity – pomba; juru – roca; jurupary –
demônio, diabo; juru-rata – inferno; jyba – braço; jybacangoera –
espádua; jyba-rupetã – cotovelo.

K

Ker – dormir; ketic – velar; kevira – irmãs da mulher; kiçaba – rede
de dormir; kicê – faca; kicê-opara – foice; koquera – capoeira, roça
velha; kyynha – pimenta.

M

Macaca – macaco; macauba – palmeira que dá azeite; maem – atentar;
mainharm – assanhar; majoi – andorinha; mama – cama; manhagaba –
fábrica; manô – morrer; mano-manha-gaba – guerra; maraar – estar
morrendo; maramonhang – brigar; marica – barriga; mavamanhang –
guerrear; meapê – pão; membeca – tenro, macio; membira – filha (da
mãe); membirá – parir; memby – buzina, flauta; merê – baço; merim –
pequeno, pouco; meru – mosca; meru ropiã – mosca vareja; meru-i –
mosquito; mimbabo – gado; mindy-pyron – papas grossas; mingao – papas
moles; mixire – assar; moama – armar; moatunçaba – parapeito; moçapyer
– três; moça-unbe – amolar; mocerane – desprezar, abater; mocoi –
dois; mocuê – moer; mocurui – esmigalhar; mojemonhang – gerar; mokatac
– abalar; mombyca – furar; mombyca-para – preso; mondã – furtar; monde
– alçapão, armadilha; monhagava – creador; moranduba – aviso;
moranhy-moça-pays – sexta-feira; moranhy-mocos – terça-feira;
moranhype – segunda-feira; mory – alegrar com afagos; moteric –
arrastar; moveó – apagar; moy – minhoca; mung – dar; murucututu –
mocho; mutuú-ara – domingo.

N

Namby – orelha, argola; nhaem – alguidar; nharm – bravo; nhunga-iara –
intérprete; nhungoera – falador; nupançaba – açoite.

O

Oapoan – arredondar; o'ato-cupô – pescada; oba – roupa; oca – casa,
rancho; ocai – queimar-se; ocapora – criado, escravo; ôco –
ausentar-se; oçú – grande; oiainte – amanhã; ojemogyb – abaixar-se;
okena – ponta; omê – acolá; opae – acordar do sono; orebo – a nós
somente; oro cumia – coruja; orocanga – costelas.

P

Berbori – bofes; pacamonhagara – médico; paçango – medicinal; panacu –
cesto comprido, carro; panama – borboleta; paragoá- papagaio; paranã –
mar; paranã-oçu – mar longo; paranã-remaia – cabo de mar; paraty –
tainha; parim-parim – manquejar; pary – armadilha para pescar; patuá –
arca; patuay – marreca; paya – pai; pê – caminho;
pecoacaba – atadura; pecu – comprido; pejara – guia de caminho; peju –
assoprar; pejuçara – abanador; penga – sobrinho ou sobrinha da mulher;
penna – genro; perê – baço; pereba – fístula; pery – junco; peyana –
gato; picerica – cair escorregando; pigoá – tornozelo; pinda-xama –
linha de pescar; pindayba – vara de anzol; pinhoa – artelho; pipema –
preto; pirã – peixe; pirã caem – peixe mal assado; pirã em – peixe
assado; pirã jacoava – peixe boto; pirã juqueiapara – peixe de
salmoura; pirã piriric – peixe frito; pirã-iguê – pescaria de corso;
pirãmomonhagava – pescaria de anzol; piranga – vermelho; piratun –
nariz, ponta, no mar; pirã-uma – peixe maro; pirã-ytye – pescar;
pirequita – periquito; pirera – pele; pirikytuim – rin; pitonga –
menino; pitonga-í – menino pequeno; pitu – cheiro de peixe, arroto; põ
– dedo, mão; poãçu – mão esquerda; poai-aconan – com a mão; põapem –
unhas; pobura – angelin; pocaar – prender, amarrar; pocoke – apalpar;
põcotu – mão direita; poe – arrebentar; pora – habitador; poracaia –
dança; poracê – dançar; pore – salto; potaba – parte, quinhão,
presente; potery – marreca; potrã –peito; potuu – aplacar; poty –
camarões; puidá – anzol; punga – alparcas; purib – vantagem; puruá –
prenha; py – pé; py-copê – peito do pé; pya – coração; pya-catú –
coração bom (agrado); pyçã – rede de pescar; pycajê – meia-noite;
pycengoera – porta; pypitera – planta do pé; pypora – vestígio,
pegada; pyr – mais; pyranha – tesoura; pyry – esteira; pytema – noite,
treva, escuro; pytema oçui – noite escura; pyterpe – meio; pytyba –
fraco, covarde.

Q

Quecã – navalha; quera – velho.

R

Rerecoara – tio; rim – faísca; roca – casa; roiçanga – sombra.

S

Sun ou suna – negro.

T

Taba – aldeia; tabatinga – argila; taboca – cana; taçoca – caruncho;
taçonha – membro viril; taçuba – febre; taçuba yba – febre maligna;
tacyba – formiga; tagoã – amarelo; taioba – couve; taipaba – parede;
tajira – filha (do pai); tamaracá – sino; tamimbuca – cinza; tamuia –
avô; tapanhuna – negro, preto; tapejara – useiro e veseiro; tapera –
aldeia destruída; tapereca – aldeia deixada; taperu – bicho; tapia
caapara – gentio; tapira – boi; tapuira – anta; tapuitama – sertão;
tapy-rotê – raspas de mandioca; taquã – cana ôca; teazon – fruta
madura; tatã berab – chama de fogo; tata piyntã – carvão; tataca – rã;
tay – arder; tayaçu – porco doméstico; tayapeba – porco do mato;
tayatinga – porco (queixada branca); tayatitu – uma espécie de porco
do mato; tayetê – porco do mato; tayna – menino; tayra – bicho; teça –
olhos; teju – lagarto; tejupaba – cabana; tenondê – adiante; teraira
–lagartixa; tibuira – pó; tijuca ou tijuco – lama, barro; tijuca ou
tijucopaba – atoleiro; timbê – beiços; timinidô – neto ou metade de
varão; timiricó – mulher do homem; tindêra – irmão de varão; tinga –
branco; tiniariron – neto ou neta de mulher; tining – seco, seca; tior
– nariz; tityra – tio; tomunhaeng – assobiar; tonha –dente; toryba –
festa, alegria; tuba – pai; tuguí – sangue; tuguí rapé – veia;
tupai-oca – igreja; tupanberaba – relâmpago; tupan-oca – igreja;
tupa-tupanã – Deus, trovão; turuçu – grande; tutuçupyo – maior; tuy –
frio, arrepiamento; ty – sumo, caldo;
tyaro-çu – guloso; tyba – freqüência, feitoria; typacoena – correnteza.

U

Uça – tosse, caranguejo; ui – farinha; ui atã – cosida, cosida de
todo; ui carimã – cosida como trigo; ui puba – cozida de milho; uiba –
flexa; uicatu – cosida d'água; una – preto; ura – bicho (berne); uri –
catarro; urupema – peneira.

V

Vu – comer.

X

Xama – corda, atilho; xapeacaba-kirá – vaidade; xo – apage, apre (interjeição).

Y

Ya – ainda bem (folgando do mal alheio); yba – árvore, cano, coxa;
ybabaçu – côco; ybaca – céu; ybarema – alho; ybaté – céu (das nuvens);
ybatiba – pomar; ybetu – viração, vento ou arroto, névoa, nuvem; ybi
ritê – firme; yby – terra; yby coara – sepultura; yby cuy – arca,
praia; yby ojê pira-oarê – terra gretada; yby peba – terra plana; yby
tinga – nuvem; yby ury – terremoto; ybytybã – areal; ybytyra – serra,
monte; yca – formiga grande; ycyca pira – grude do peixe; yg – água;
yg aba – limo; yg apôaçu – águas vivas, cheias; yg apopae – águas
mortas; yg apy – orvalho; yg berica – água corrente; yg by byra –
bulhão d'água; yg catu – água quente; yg gibera – remanso; yg guaçu –
difícil; yg tu – cachoeira; yg vô – beber água; ygaçapaba – ponte;
yggoara ritinga – vela; ygoara – canoa; ygoara coarana – caldeirões do
rio; ygoara mirim – remo; ygvoiçang – água fria; ypy – princípio;
yroba – amargas, amargoso; yuy-râ yyma – fuso.



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Música, teatro, cinema, literatura e recreação
ARTE MUSICAL



"Bastava que o dia se deitasse para dormir sobre o travesseiro dos morros e lá vinham as vozes bonitas acordar o silêncio tranqüilo das noites viçosenses. A troco de namoro? Qual nada! Sensibilidade de trovadores e musicistas. Cantando em casas de moças, de velhas, de senhoras e de amigos. Por sentimento de amizade e carinho. Com igual pureza de intenção. Apenas para homenagear as noites de Viçosa e despertar lembranças bonitas nos corações.
Que também as letras eram de enredo e inspiração para acordar a sensibilidade da noite.
Havia ainda as serenatas com músicas inspiradas que faziam os PASSOS DA SAUDADE, tocando as mais ternas valsas de um repertório fino. A lembrança dos pistons, violões, violinos que acordavam nosso sono nas noites de silêncio encompridam hoje a saudade da gente".

Norah

(A Cidade – 28 de setembro de 1969)


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Maestro Hervé Cordovil


Engrandece-se a cidade com o sucesso de seus filhos. Filho de Maria De Lucca Pinto Coelho (Dona Sinhá) e do Dr. Cordovil Pinto Coelho, ex-presidente da Câmara de Manhuaçu e ex-deputado estadual (1919-1939) pelo Partido Republicano Mineiro (PRM), nascido a 20 de fevereiro de 1885, em Astolfo Dutra, médico formado pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, que após exercer a profissão em Viçosa, clinicando no Hospital São Sebastião, socorrendo a indigência nos tempos do governo do Dr. José Ricardo Rebello Horta, transferiu-se, em 1917, para Manhuaçu, a convite de Alberto Pinto Coelho, seu primo e então administrador público daquela cidade, para combater, ali, um grave surto de febre paratifo, o maestro, pianista e compositor Hervé Cordovil veio à luz em Viçosa, no dia 3 de fevereiro de 1914. Falecido em São Paulo a 16 de julho de 1979, foi de sua progenitora que herdou o gosto pela música, desde a mais tenra idade, pois esta o ensinara ainda menino a dedilhar com muito gosto o piano doméstico. Tranferindo residência para a cidade mineira de Manhuaçu ainda pequeno, aos 10 anos Hervé já estava com seus pais no Rio de Janeiro. Lá ingressou no Colégio Militar, integrando sua banda de música, tendo então formado com os condiscípulos um grupo de jazz. Foi enquanto ainda epígono do colégio que Hervé, destaca TAFURI PANIAGO (nº?), iniciou a divulgar suas primeiras composições. Aos 17, matriculou-se na Faculdade de Direito de Niterói, bacharelando-se em 1936.
Hervé exerceu a advocacia em Manhuaçu, tendo estreado no rádio em 1931, inicialmente na Rádio Sociedade (Orquestra de Romeu Silva) e depois na Rádio Philips, Rádio Tupi e Rádio Record, de São Paulo; e Rádio Guarani da capital mineira. Compositor de jingles, regente de orquestra para teatro e cinema, foi autor de trabalhos em parceria com Walfrido Pereira da Silva, Zé Dantas, Luiz Gonzaga, Luiz Peixoto, Manezinho de Araújo, Manuel Vitório, Maria Regina, Mário Vieira, Daicy Portugal Cordovil, David Nasser, Fernando Lobo, Filomena dos Santos, Humberto Porto, Irvando Luiz Arrelia, Ivani Soares, Jayme Tolomi da Rocha, João de Barro, Polera, Raul Duarte, Renê Cordovil, Adoniram Barbosa, Alberto Ribeiro, Almirante, Marisa Pinto Coelho, Mauro Damotta, Nei Machado, Noel Rosa, Orestes Barbosa, Osvaldo Moles, Pascoal José Marcílio, Paulo Netto de Freitas, Paulo Roberto, Bonfiglio de Oliveira, Carlos Alberto Ortiz, Cláudio de Barros, Corrêa Júnior, Cristovão de Alencar, Aloysio Silva Araújo, Armando Ramos, Armando Rosa, Arrelia, João Gutierrez, Jorge de Lima, Jorge Murad, Júlio Atlas, Lamartine Babo, Thalma de Oliveira, Valdomiro Pereira, Vicente Leporace, Roberto Martins, Rochinha e Sérgio Ferreira. Carlos Galhardo estreou cantando canção sua: “Carolina”. Carmen Miranda também interpretou obra de sua autoria, bem como Francisco Alves, Aracy de Almeida, Sílvio Caldas, Isaura Garcia, Lamartine Babo, Carmélia Alves e Dick Farney. Este ilustre filho da terra é hoje nome de Comenda do Legislativo Municipal de sua cidade natal e também da Estação Cultural (antiga Estação da estrada-de-ferro), no centro da cidade de Viçosa.


Bandas e retretas


Guardiãs de uma tradição secular, as bandas realmente são celeiro fértil de músicos de qualidade. Se já se constitui privilégio a presença de uma só corporação musical no município, que se dirá de mais de duas? Popularizou-se esta frase: “Todo mineiro tem um trem de ferro apitando nas veias, uma montanha brilhando nos olhos e uma banda de música tocando nos ouvidos”.
Envolvidos por sua ação cultural, e em torno de suas atividades, são inúmeros os que se beneficiam dessa atividade criativa e construtiva. Em Minas, essa tradição remonta a 1781, ano em que se fundou a Sociedade Musical Santa Cecília, em Sabará. Viçosa, dentre outros conjuntos, contou no passado com a Orquestra Carlos Gomes, que era homônima de uma sociedade musical existente na capital mineira, Belo Horizonte, desde 1896. É rica a história musical viçosense. Há notícias, em antigos jornais da cidade e outras fontes, primárias e secundárias, de presenças de conjuntos como o regido pelo maestro Pedro Gonzaga, durante exibições cinematográficas no extindo Cine Theatro Paladinos do Progresso, e o Conjunto Estudantil Arthur Bernardes, idealizado por Dona Lucília Barbosa, nos primórdios do século XX.
A 1ª Banda de Música de Viçosa foi criada, provavelmente, em 1888. Era a Lira Viçosense, conhecida popularmente como a Banda dos Jacob/Sant’Anna: João Jacob, Juca Jacinto, Florentino Jacob, Francisco Gouveia, Jacob Lourenço, Jacob Jacinto, Randolpho Sant’Anna, Verano Faria e Lindolfo Sant’Anna.


Cameratas e orquestras


Contando com uma Orquestra de Câmara, tendo como estrela maior a soprano Katya Beatriz Oliveira, que sempre executou magistralmente composições de Carlos Gomes, Heitor Villa-Lobos, Senra, Tom Jobim, Handel, Banchieri, Mozart, Bruckner, Vinícius de Moraes, Dorival Caymmi, Lennon, McCartney e Premê, dentre outros compositores consagrados, a OCV congregou jovens e adultos apaixonados pela música clássica. Mestre em Musicologia, seu maestro é o viçosense Modesto Flávio Chagas Fonseca, que trabalhou na catalogação de um gigantesco conjunto de partituras encontradas no coro do Santuário de Santa Rita de Cássia e em poder da família do viçosense José Sant’Anna e Castro (maestro Zequinha), que marcou época à frente da Lira Santa Rita (popularmente conhecida como Banda do Zequinha) possivelmente a partir de 1917, regida inicialmente pelo maestro José Jacinto Dias de Sant’Anna, depois por seu filho José de Sant’Anna e Castro e por José Lopes de Gouveia. Confira a foto de uma de suas primeiras formações, na seção iconográfica deste trabalho.
Foi em 1994 que surgiu a Camerata Santa Cecília, que se transformou, em 1997, na Orquestra de Câmara, com 26 instrumentistas, mantida pela Associação dos Amigos da Orquestra de Câmara de Viçosa (AAOCV). Com coragem, boa vontade e persistência, os músicos da OCV, com o apoio de seus sócios e autoridades, a Escola de Orquestra de Viçosa (EOV) mostrou a realidade de suas conquistas. Aplausos carinhosos e efusivos demonstraram a confiança da comunidade viçosense. Trabalhando o desenvolvimento humano e, conseqüentemente, a inclusão social, por iniciativa da professora Roseli Shiroma, as atividades da EOV, um trabalho voluntário, foram organizadas em estudos envolvendo alunos novatos da OCV, com a imprescindível monitoria dos mais adiantados, que colaboraram, desde 2003, com os ensaios de conjuntos camerísticos, apresentações e concertos. O pequeno grupo se aventurou até no reparo de avarias de instrumentos musicais (iniciação a luteraria).


Seresteiros


Em 1949 era criado o Sexteto Melodia. Em 1975 era formado pelo maestro Portugal, pelo croonner Ed Carvalho, pelo maestro e violinista Adson Rodrigues Bicalho, José do Espírito Santo Sant'Anna (Zé Bóia), João Bosco Sant'Anna, Álvaro César Sant'Anna e João Bosco Fialho (João Bobaginha), como se vê na seção iconográfica deste trabalho. O maestro Adson, ser humano boníssimo, filho da tradicional familia Jacob Rodrigues, pelo lado materno, descendia de uma família de músicos, de saudosa memória, como a mãe, Adalgisa Rodrigues Bicalho (Dona Zizinha), a prima Maria Lopes Tafuri (Dona Neném) e os tios Esther Rodrigues Araújo e João Rodrigues, este, violonista da Orquestra Sinfônica Brasileira. Adson também espargiu a maviosa sonoridade, por décadas, pelo Brasil adentro, a magia e o encanto de seu inconfundível violino. Quem apreciou de perto a arte desses musicistas, aquilata o que se imagina ser a música celestial. Descendente, pelo lado paterno, do odontólogo e protético Adezílio Bicalho, da família Trindade Barreto, irmão de Maria Pompéia, outra virtuose do violino, de Luzieta, Léa, Adezílio Filho e de José, tendo freqüentado os cursos secundário e de datilografia em sua terra natal, Adson tinha inconfundível gosto pelo cancioneiro melódico e clássico. Folha de Viçosa de 2 de setembro de 1973 se referiu a ele como "um dos homens mais populares de Viçosa". O cronista Armando assim se expressou, dentre outros aspectos, sobre este musicista:
"O povo em sua infinita sabedoria diz com muita razão: tamanho não é documento. Naquele pequeno frasco, existe um mundo de fraternidade, fruto das almas de boa formação cristã: nele existe latente o continuar de orações expressas nas suas ações, nas suas palavras, nos seus gestos: Duas tendências manifestaram-se desde cedo em Adson: inclinação pelo comércio e para a música. Na infância o seu divertimento predileto era aquele de brincar de 'vendinha', e mais crescido, se é que ele cresceu, fez do seu violino o seu companheiro inseparável, o seu 'hobbie'. De família de músicos e com a sua formação sentimental, fez-se um 'virtuose'. Adson toca movido pelo desejo de transmitir alegria, a música coopera com ele na expansão de seu espírito filantrópico. Quantas e quantas vezes o seus famoso conjunto de seresteiros – faça-se justiça também ao José Bóia – não contribuiu para aliviar o sofrimento dos que são menos favorecidos pela sorte.
Tocando nos clubes, nas 'boites', ele transmite não só alegria, como o bálsamo para aqueles corações que procuram nos ângulos pouco luminosos dos salões esconder as traições diárias da vida. Adson não é só músico, como bom compositor: é o autor do hino do 'Clube 4S', que forma líderes rurais. Há muitas composições suas, que a sua modéstia não permite divulgá-las. Embora tocado pela genialidade de Beethoven, sente-se que no fundo do seu coração há raízes que penetraram profundamente naqueles compositores que formaram a época do 'Romantismo.' Ele é romântico e conservador, embora ache que a mocidade caminha para novos horizontes. Ele é sócio de quase todas as organizações de Viçosa, em muita, ele participa de suas direções, dos seus conselhos, das suas comissões, colabora sempre, é ativo e possui grande espírito de iniciativa. Adson está sempre cercado de amigos que o respeitam, que lhe dedicam profunda amizade. Quando nas suas 'rodinhas' se encontra uma 'hermosa muchacha' dizem os seus amigos mais íntimos, que ele ouve o trinado dos rouxinóis."
Música em Viçosa, especialmente a dos seresteiros, é tema inesgotável.



Corais e Festivais




Conforme registram as melhores fontes, a música coral dentro do campus universitário começou com o Clube dos Cantores, cuja trajetória se confundiu, inicialmente, com o nome do professor Koloman Lehostky, até fins da década de 1930, quando passou a ser dirigido e organizado pelo Dr. John B. Griffing, com o incondicional apoio do maestro João Salgado Amorim. Há informações de que, em 1939, era constituído de mais de três dezenas de cantores, entre discentes, docentes e funcionalismo. Isto até o ano de 1945. Com a instituição da Escola Superior de Ciências Domésticas (ESCD), a professora Benedita Melo, então diretora do que hoje é o Departamento de Economia Doméstica e os também docentes João Bosco Pinto Guedes e Benito Taranto mantiveram algumas poucas apresentações na então Universidade Rural do Estado de Minas Gerais (Uremg). No final da década de 1960 o coral atingiu o apogeu, quando coube ao Clube Carcará a sua reestruturação, ficando a regência a cargo de Maria do Carmo Tafuri Paniago. Em 1971 chegou a se apresentar, com 40 componentes, no programa “Mineiros Frente a Frente”, da TV Itacolomi. “Seus elementos compuseram também o Coral Clélia Bernardes, da cidade de Viçosa, com apresentações diversas, em 1975”, conforme TAFURI PANIAGO (nº?).
O engenheiro João Carlos Bello Lisboa fundou, em 1923, a Banda da Esav, constituída de operários e regida por Manuel Florentino, por maestro da Polícia Militar e posteriormente, sargento Cordeiro, com 40 músicos. “Em 1928 assumiu a regência o maestro João Salgado Amorim. Com a saída do Dr. Bello Lisboa, a banda atravessou fases críticas. Teve nova fase boa com o Dr. José de Melo Soares Gouvêa, que deu total apoio à corporação. Depois disto, a banda se manteve com altos e baixos até desaparecer, com a saída do maestro João Salgado Amorim, em 1960”, ainda de acordo com PANIAGO. Em 1965, foi reorganizada durante o reitorado do Prof. Edson Potsch Magalhães, quando passou a contar com 32 músicos e instrumental novo, além da sede própria e de usar uniforme de cor verde-oliva. Era a Banda das Uremg, que mudou novamente de nome para Banda da UFV. Num dos três reitorados do Prof. Antônio Fagundes de Souza passou por nova reestruturação pelo órgão correspondente ao que hoje é a Divisão de Assuntos Culturais (DAC/UFV), encargo pelo qual responsabilizou-se o professor Benito Taranto. A regência, à época, era do maestro João de Moura. Em 1978, o Conjunto de Sopros foi reorganizado já sob a regência do maestro Rogério, e esteve em atividade até 93, havendo interrupções em suas atividades por um breve espaço de tempo. No referido período, foram realizadas centenas de apresentações em importantes cidades do Estado de Minas Gerais. O maestro Rogério Campos, que tem se destacado como baluarte da música no município de Viçosa, também foi o criador, em 1992, do Quinteto de Metais de Viçosa, aliás, o pioneiro do gênero, em Minas Gerais.
Um outro músico que muito contribuiu para o enriquecimento desta que é a primeira das artes foi o igualmente saudoso maestro Expedito Gomes de Castro (rubrica “E. G. Gomes”), que iniciou sua vida musical na Corporação Musical São Sebastião, no antigo distrito viçosense de São Sebastião da Pedra do Anta, onde nascera. Ele legou à posteridade composições de estilo sinfônico, duas Ave Marias, valsas, dobrados e e ainda o Hino do Colégio Estadual de Viçosa e o Hino à Viçosa, cuja letra é do médico e poeta riobranquense Ary Teixeira de Oliveira, da Academia de Letras de Viçosa.
O I Festival da Música Popular em Viçosa aconteceu no dia 28 de setembro de 1969, no Ginasio da Universidade Federal de Viçosa, constituiu-se, de acordo com a edição de 12 de outubro de 1969, no mais absoluto sucesso. "Viçosa ainda não tivera oportunidade de promover algo de despertasse tamanha vibração popular e merecesse tantos aplausos de público tão numeroso." A iniciativa de promover o Festival de Música nasceu de "pequeno e entusiasta" grupo de pessoas: Mário Rocha Gomes, Fernando José Ribeiro, Cícero Garcia, Fernando Antônio Gomes e José Geraldo Araújo. "O esforço e a dedicação dos extraordinários promotores foram a razão principal do completo sucesso do Festival", detacou A Cidade. Das músicas apresentadas foram selecionadas 13 como semi-finalistas e na primeira fase da seleção, tomaram parte apenas pessoas de Viçosa. As semi-finalistas, apresentadas ao público na noite de 28 de setembro, foram as seguintes:

Biscate p’ra Rapaz – Sanferjo (Viçosa)
A Você, Um Dia Eu Amei – Maria Cristina Leão (Viçosa)
Carnaval, Alegria Ilusória – Silas Pedrosa Soares (Mariana)
Copa de Setenta – Sanferjo (Viçosa)
Utopia – Roberto Carlos de Andrade – (Viçosa)
O Refrão do Jornaleiro – Irney Mamede Reis (Belo Horizonte)
Sonho – Francisco Eustáquio Salgado e Isnard José Lopes (Viçosa)
Confissão – B. Alcântara (Curitiba)
Lamento ao Mar – Romeu Mesquita Furtado e Roberto Vaz de Mello (Viçosa)
Não é Isto o Amor? – Zélia Alves (Viçosa)
Canto em Louvor ao Jangadeiro – Pierre Sabag e Eduardo Gleig (Viçosa)
Vivência – Dalva Lúcia Maffia (Viçosa)
O Adeus de Ataulfo – E. G. Castro (Viçosa)

Das 13 semi-finalistas, 5 foram selecionadas como finalistas e apresentadas novamente para classificação final, cujo resultado foi o seguinte:

1º lugar – Canto em Louvor do Jangadeiro
2º lugar – O Adeus de Ataulfo
3º lugar – Sonho
4º lugar – Lamento ao Mar
5º lugar – Vivência



CINEMATOGRAFIA



Par e passo com a arte musical, a 20/2/1898 foi fundada a primeira sociedade teatral de Viçosa: o Grupo Dramático Paladinos do Progresso. Foram seus fundadores: Joventino Octavio de Alencar, Randolpho Sant’Anna, Antônio Felipe Galvão, Honorino de Mello Lima, Francisco Torres Júnior, Antônio Batista, Florentino de Oliveira Sales, Dirceu Sant’Anna, João Lopes Jacob e José Canuto Torres. O surgimento do Cine Theatro Paladinos do Progresso remonta aos primórdios da República e do século XX. Esta casa de cultura teve o apoio da municipalidade em sua construção, conforme a Resolução Nº 119, de 5 de fevereiro de 1900, subscrita pelo presidente da Câmara, agente executivo e juiz municipal, Dr. Francisco Machado de Magalhães Filho, que autorizou despesa de quatro contos de réis, para ser paga à comissão encarregada da edificação em prestações anuais. Com sede própria onde se encontra atualmente o imóvel de número nº 52 da Praça do Rosário, nele surgiu o Grupo Dramático “Paladinos do Progresso”, em 1907. O jornal Cidade da Viçosa, edição 742, de 25 de outubro de 1908, trazia à última página a seguinte notícia: "Realizou-se domingo passado, conforme fora annunciado, um espetaculo do grupo dramatico 'Paladinos do Progresso.'
Levando-se à scena o custoso e apreciado drama de 5 actos - Ghigi, esforçou-se muito o grupo para alcançar um bom sucesso. E isto, de facto, se deu.
Teve o esplendido drama optimo desemenho, sendo por isso muito apreciado. Manda a justiça que seja feita uma referencia especial ao papel de Antônio Ferragi.
A essa parte, que, de instante a instante, se transformava, deu Pedro Gomide sempre fiel caracter.
Foi, por vezes, a representação interrompida pelos calorosos applausos.
É de lamentar-se não ter havido enchente no theatro como recompensa ao grande esforço que empregou o grupo, o que foi motivado pelo mau tempo.
Uma peça como Ghigi deve ser repetida pelo grupo 'Paladinos' que, para sua representação tantos muitos sacrifícios fez com a sua montagem.
Assim, pois, é de crer que se tenha opportunamente o publico outra vez de apreciar esse tão importante drama, e assim offerecerá ensejo aos que não pouderam assistir à primeira representação de apreciar a segunda e é o que espera".
De sua nova ala amadora surgiu outro grupo teatral, a “Aliança Viçosense”.
Pagava-se aos músicos instrumentistas, 500 a 800 réis por sessão cinematográfica, sendo que, conforme ARAÚJO (nº?), “Pedro Gonzaga, maestro na época, fundou um conjunto musical para tocar no recém-fundado Cine Paladinos, cujos filmes mudos faziam sucesso na cidade” (...). Tocava-se violino “nos intervalos e fazendo um fundo musical durante a exibição do filme mudo”.
Outro que marcou época em Viçosa, com suas projeções em Cinemascope, foi o Cine Brasil (Empreza Circuito Brasil Limitada), filial de Ubá, propriedade de Augusto Brascine, da década de 1950 à de 1980 (1956 a 1984), localizado no edifício proto-modernista projetado pelo arquiteto fluminense Edgard Velloso, que se estende de uma das esquinas do início da avenida P. H. Rolfs com a Praça do Rosário (onde tem o número 92) à uma outra esquina, a da rua Padre Serafim (onde recebeu o imóvel o número 3).
A 12 de maio de 1952 o prefeito José da Costa Vaz de Melo concedeu ao Circuito de Cinemas Brasil, pela Lei nº 156 (revigorada pelas Leis nº 185, de 10 de julho de 1953 e nº 238, de 20 de dezembro de 1954) a isenção de tributos municipais pelo prazo de quinze anos, exigindo-se, em contrapartida, a construção deste edifício, com 660 lugares, de acordo com planta então aprovada. Em 1995 o prefeito Geraldo Eustáquio Reis promulgou no jornal Gazeta do Turvo o Decreto 3236, declarando de utilidade pública para fins de desapropriação a edificação para fins de natureza cultural, na mesma linha do Decreto nº 700/1990, do prefeito Antônio Chequer.
À página 48 de ARAÚJO (nº?) lê-se que o fundador do Cine Theatro Odeon, o cidadão lusitano "Antônio Martinho veio de Portugal para instalar-se em Viçosa como empregado na padaria de Joãozico", referimdo-se ao alferes João Simplício Lopes, cujo estabelecimento comercial, a referida padaria, na hoje rua Senador Vaz de Mello, possuia, já em 1908 conforme registros históricos, uma chaminé medindo 41 palmos de altura, como se pode ver em antigas fotos da cidade. Referindo- se a Martinho, ARAÚJO prossegue: "Dotado de dinamismo e vontade de trabalhar logo associou-se a papai com a firma Araújo & Martinho. Construíram o prédio do então Cine Odeon, posteriormente denominado de Cine Brasil. De construção luxuosa, possuindo até camarotes, a sua pintura foi feita por artistas trazidos do Rio de Janeiro. Além das cadeiras confortáveis e modernas, possuía um palco de luxo, cujas cortinas eram de veludo e ricamente ornamentadas com adereços dourados que ali foram costurados por nossa mãe. A inauguração foi um acontecimento marcane, com a presença de toda a sociedade de Viçosa e cidades vizinhas, discursos das autoridades locais que elogiaram o arrojo dos dinâmicos Araújo & Martinho que com aquela notável obra colocavam Viçosa na vanguarda das artes cênicas em toda a região. A sessão inicial foi um sucesso com o filme mudo 'Curvas Perigosas' estrelado pela atriz Claire Brown. O Cine Theatro Odeon propiciou a vinda a Viçosa de vários grupos de teatro, danças e variedades, como a inesquecível Companhia João Rios do Rio de Janeiro, entre muitas outras que, desde então, passaram a incluir Viçosa no seu itinerário cultural."


CINE BRASIL – ANÚNCIOS DE FILMES EM JUNHO DE 1965:


Domingo, 2ª e terça-feira
7:30 sessão única
Domingo em três sessões 3, 6 e 8 horas,

A MORTE ESPREITA NA FLORESTA
Victor Mature e Janeth Leight
Colúmbia – Cinemascope colorido

4ª feira
LULÚ A FLOR DO PECADO
Nadja Tiller O. E. Hasse
Condor Filmes 7:30 –sessão única

5ª e 6ª feira
O TRANSVIADO
Cantiflas
Pel Mex – sessões 6:30 e 8:30

Sábado
NORMAM UM SUJEITO DE SORTE
Normam Wisdon
Organização Rank – sessões 6:30 e 8:30

Domingo Matiné
A ILHA MISTERIOSA
Michael Crag Joan Greenwood Gary Merril Beth Roan Herbeft Lan

CINE ODEON – ANÚNCIOS TAMBÉM DE JUNHO DE 1965:

Dias 5 - 6 - 7 - 8 - 9
CAPITÃO SIMBÀ
Guy Willians Pedro Armendariz

Dias 10 e 11
ADA
Dean Martim e Susam Hayward

Dias 12, 13, 14 e 15
A UM PASSO DA MORTE
Kirk Douglas e Elza Martinelle

Dias 16, 17 e 18
FRONTEIRAS EM CHAMAS
James Davis

CINE ODEON – ANÚNCIOS DE NOVEMBRO DE 1965:

Dias 10, 11
O JOVEM E O VALENTE
Vista Vision

Dias 12, 13, 14, 15, 16
O SATÂNICO DR. NO
Sean Corneiry – Ursula Andress – Vista Vision

Dias 17, 18
UMA GAROTA EM APUROS
Agnes Laurent – Jack- Watling

Dias 19, 20, 21, 22, 23
JAULA AMOROSA
Alain Delon – Jane Fonda

Dia 23 e 25
VÍCIO E VIRTUDE
Robert Aossein – Anne Issadot

Dias 26, 27, 28, 29, 30
FUGINDO DO INFERNO
Steve Me Queen – James Garner - CinemaScope

CINE BRASIL – ANÚNCIOS DE NOVEMBRO DE 1965:

Dia 10
MISSÃO SECRETA NA CHINA
Richard Boschart – Atheno Seiler – Columbia

Dia 11, 12
INIMIGO OCULTO
Jack Kelly – Ray Danton – Warner

Dias 13, 14 matiné
O DIÁRIO DE MINHA MÃE
Marga Lopes – Roberto Canedo – Pelmex

Dias 14, 15, 16
O MUNDO DE SUSIE WONG
Wilian Holden – Nancy Kwon – Paramount

Dia 17
ARSENE EUPIN CONTRA ARSENE LUPIN
Jean Claude Brialy – Jean Pierre Corsel

Dias 18, 19
SONHO DE AMOR
Dirk Bogard - Capucine

JULHO DE 1966 – TAMBÉM NO CINE ODEON:

Dia 20, 21, 22
TÚNEL 28
Cristine Kawfman

Dia 23, 24, 25, 26
OS REIS DO SOL
Yul Brynner – George Chakiris

Dia 27, 28, 29
SANGUE SÔBRE A TERRA
Rock Hudson – Dana – Water – Sidney Poitier

Dia 30, 31, 1, 2
OS 7 INVENCÍVEIS
Tony Russel


CINE ODEON – ANÚNCIOS DE FILMES EM JULHO DE 1966

Dias 6, 7, 8
ABSOLUTAMENTE ERRADO
Peter Sellers

Dias 9, 10, 11, 12
CAPITÃO BLOOD
Errol Flynn

Dias 13, 14, 15
A ESTIRPE DOS MALDITOS

Dias 16, 17, 18, 19
O ROLLS ROYCE AMARELO
Alain Delon – Rex – Harrizon – Shirley M. Laine


Um dos mais apreciados escritores que Viçosa conheceu, Elias Ibrahim, nascido no distrito de Teixeiras, membro da Academia de Letras de Viçosa, contou o que foi uma das mais longevas casas do gênero. A propósito do fechamento do Cine Theatro Odeon, situado no edifício de número 30 da praça Silviano Brandão, escreveu ele, a 11/02/1990, no Jornal de Viçosa:

“Li, com pesar, no jornal Folha da Mata a notícia do fechamento do Cine Odeon. Tive o cuidado de ler todo o noticiário. De minha parte também tenho alguma coisa para contar. O Cine Odeon deve ter sido construído, com muito carinho nos idos de 1930. Significam mais de 60 anos, e não 50, conforme noticiado. Em 1931, com a idade de 11 para 12 anos, eu e outros companheiros, como Caetano, Miltó, Bau, varríamos todos os dias o cinema e arranjávamos as cadeiras. À tarde era a hora da distribuição dos programas dos filmes. Naqueles dias distantes ganhávamos o direito da entrada que girava em torno de 800 réis. Com 800 réis dava-se para comprar a melhor marca de cigarros (Cônsul, Odalisca, Jockey-club), hoje desaparecidos.
Nesses programas vinham os nomes dos artistas do filme e pequenos comentários do que se ia ver. Guardei ainda alguns desses programas. De fato era o nosso melhor divertimento e origem de nossos primeiros namoros. Em 1931 existia em Viçosa somente 4 carros de praça. O fundador do cinema foi o português Antônio Martinho que voltou para sua terra. No Calçadão onde hoje funciona a Relojoaria Japão tinha outro cinema: Cinema Viçosense do Sírio Nacif. O primeiro cinema de Viçosa chamava-se Cine Paladinos. Sempre gostei de cinemas e ontem fui à praça e fiquei olhando em silêncio suas portas fechadas. Assaltou-me um mundo de recordações. Tive a impressão de que algo muito interessante havia desaparecido. ‘Até os livros têm o seu destino’.
O primeiro filme exibido nesse cinema chamava-se ‘Curvas Perigosas’ com Richard Dix e Claire Brum Trevor. O último conforme vimos foi ‘Avalanche’ com o falecido Rock Hudson.
Naquele tempo o cinema era mudo. Pequenas orquestras e cantores tocavam durante as sessões. Cinema falado em Viçosa apareceu por volta de 1940? Recordo que em 1935 assisti e fiquei muito impressionado com o filme ‘Drácula’ com Bella Lugosi. Filme baseado na novela de Bram Stoker. Um filme de vampiro muito bem interpretado. Li recentemente que Bella Lugosi, ator russo, morreu louco motivado pelo papel ligado a vampirismo.
Folha da Mata cita alguns nomes mas omite outros de grande envergadura. Tais como ‘E o vento levou’ .. (vide Seleções de fev/90). Museu de Cêra. A Noite Sonhamos ou Vida de F. Chopin com Merle Oberon. Casablanca com Ingrid Bergman e Bogart. O Fantasma da Ópera com Claude Rain. Os 10 Mandamentos. Vontade Indômita com Gary Cooper. Luzes da Ribalta de C. Chaplin. Morro dos Ventos Uivantes com L. Olivier. Rebeca, também com ele. Tarde demais para esquecer de Gary Grant. A Ponte de Waterloo de Robert Taylor. Seis Destinos. A Canção do Deserto com Ronald Colman e muitos outros.
Conta Stefan Zweigt em seu livro O Mundo Que Eu Vi que, por ocasião do fechamento do velho Teatro de Viena, demolido para construir a Ópera Estadual de Viena, no seu último espetáculo, depois de terminadas as apresentações, ninguém saiu do lugar. Presos como que hipnotizados pelas velhas recordações. Na manhã cedinho chegaram os operários para início da demolição. Os espectadores todos estavam emocionados. Cinema é arte. Arte visual ou cinematográfica. Toda obra de arte tem função educativa e deve ser preservada. Constitui como que um derivativo nas agruras do trabalho. A arte, como a felicidade, tem a sua própria razão de ser. O cinema foi muito aperfeiçoado por T. Edson e até hoje constitui um divertimento de primeira linha.
Suas portas estavam lacradas. Na parede ainda pude divisar a palavrinha HOJE. Um simples HOJE como se fosse uma advertência. Faz-me lembrar doutra palavra também importante ONTEM. Tal como se fosse uma confrontação entre o atual e o passado extinto.
Ajunto-me ao Paulinho, seu último gerente e demais pessoal para dizer-lhe que como eles, e talvez mais do que eles senti o impacto duma dessas coisas que vão ficando para trás e que não voltam mais”.



RECREAÇÃO


Carnaval


Já se foi o tempo das alegrias inocentes dos velhos bailes de Carnaval, com carros de boi e carroças alegóricos enfeitados de ramos floridos e bambu a desfilarem apinhados de “sujos” e mascarados, pierrôs, colombinas e palhaços e portuguesas distribuindo fartos confetes, bolas de água perfumada e de limão e serpentinas.
Os tempos atuais são de decadência. Matinês e bailes e correntes de foliões percorrendo do Canela Roxa à Liga Operária e do Viçosa Clube ao Atlético são cenas perdidas na bruma do passado. Já não mais existe o velho boi de massa, madeira e papelão, adornado com fitas coloridas, montado pelo funileiro Raimundo Pedro Pinto (Sô Pintinho) ou pelo alfaiate César Sant'Anna e Castro. Representam saudades o bloco Ferrões, com seu dragão vermelho e preto, e o bloco Araras, azul e branco, com a Águia, disputando ambos a preferência dos foliões de Viçosa desde a década de 1920. Pertenciam, respectivamente, ao Club Social Viçosense e ao Clube Dramático Paladinos do Progresso, sendo ligados, dentre outras, às famílias Sant’Anna, Costa Val, Alves Torres e Jacob.
O primeiro clube carnavalesco, “Filhos de Viçosa”, foi criado a 25 de janeiro de 1892 e não chegaram aos dias atuais registros de como eram suas fantasias e folguedos, e nem mesmo letra ou música das marchas. Seu idealizador foi João Ferreira e tinha sua sede no Hotel Ferreira, de propriedade do fundador, de acordo com nota do jornal Cidade da Viçosa, primeiro órgão de imprensa escrita do município, fundado no mesmo ano, a 15/11/1892. O Ferreira & Ferreira estabelecia-se na rua de Cima e era uma casa de pensão familiar “com commodos arejados e boa mesa, banheiro de chuva”, conforme anúncio da edição 742, de 25 de outubro de 1908, do referido jornal.
Em 2005 fundou-se a Liga Independente das Escolas de Samba e Blocos Carnavalescos de Viçosa (LIESBCV), integrando-a a cinquentenária Unidos dos Passos (GRESUP), verde e rosa, e a Turunas do Vale (GRESTUV), azul e branca, fundada em 1983. Unidos Esavianos (Ufevianos), Amoricana, Dose Dupla, Juventude Independente, Unidos da Parte Alta, Flor de Minas, Unidos do Pintinho, Bloco dos Sujos, Funil 2000, Última Hora, além dos que personificaram o Rei Momo (Ânderson Belcavelo, Kepler Euclydes Sant’Anna (Maninho), Osmar Balbino de Souza, Monte Alegre, Raimundo Careca e Ludovico Martino), tudo isto acabou. Em Viçosa, ninguém mais deve se recordar nem mesmo dos nomes das rainhas do extinto Carnaval viçosense!


Liga Operária


Surgida em 1923, na antiga Rua das Vassouras ou Rua Municipal (via cujo atual nome homenageia o tabelião Virgílio Augusto da Costa Val), a Liga Operária manteve, até o início do século XXI, a sua tradição como clube social-recreativo. Fundada a 13/5/1923, constantes alterações estatutárias não impediram que ali se conservasse muito bem acesa a velha chama da classe trabalhadora. O edifício-sede, de número 221, foi adquirido por 650 contos de réis, quando Canuto Torres era o seu presidente. O lançamento da pedra fundamental deu-se exatamente às 13 horas de 7/9/1923, em solenidade presidida por Dr. Francisco Machado de Magalhães Filho, Juiz de Direito.
Padre Serafim, Vigário de Viçosa, foi quem abençoou o início da construção. O orador de então foi o advogado João Braz da Costa Val. Naquela grande festa do operariado viçosense, executaram-se as retretas da Lyra dos Paladinos, da Lyra Santa Rita e da Banda do Batalhão Gynasial e numa urna de zinco foi depositada a cópia da ata de fundação, moedas brasileiras e, dentre outros objetos, jornais de Viçosa. A Liga permaneceu atuante, pois, em seu amplo salão de festas, ocorreram as assembléias dos sócios, nas manhãs de todos os domingos.


Viçosa Clube


Viçosa Clube surgiu no dia 7 de setembro de 1930, quando foi realizada, com a presença de algumas dezenas de associados, a assembléia de fundação do Automóvel Clube de Viçosa. Na época funcionando em sede provisória, oferecia o lazer com jogos de bilhar e de cartas. A denominação de Viçosa Clube surgiu pela discussão e aprovação do projeto de reorganização e elaboração dos estatutos, em janeiro de 1934. A 12 de dezembro de 1949 foi adquirida o prédio de número 15, edifício da Prefeitura desde a década de 1960, como sua primeira sede própria, e a 23 de setembro de 1968 foram adquiridos os terrenos de sua sede definitiva, na rua Padre Anchieta, Bairro de Ramos.



FUTEBOL



Palco privilegiado de memoráveis certames durante sete décadas, em 2008 se extinguiu o mais famoso campo de futebol da região central de Viçosa: o Estádio Carlos Barbosa, o popular “Barbosinha”, de propriedade do Viçosa Atlético Clube (VAC). Seu nome é homenagem ao homem que dirigia o clube durante a sua terraplanagem e construção, no lugar antigamente denominado Chácara do Chico de Sá Zeca, atual bairro Betânia, na década de 1930. Em 1937 já se iniciava o plantio do gramado, obra só concluída em 1939, contando com o fundamental apoio da administração do prefeito Dr. João Braz da Costa Val. Suas arquibancadas foram construídas na administração do prefeito Dr. Sylvio Romeo Cezar de Araújo, na década de 1940. Antes dele, no princípio do século XX, os principais campos de futebol do então perímetro urbano eram os que se localizavam na região próxima da avenida Santa Rita e da Av. A. Gomes Barbosa - chácaras de José Borges Pinheiro e Alexandre Corrêa de Almeida (Alexandre Português), este, próximo da travessa Purdue com a Av. Olívia de Castro Almeida e rua Francisco Machado, entre os bairros de Ramos e Clélia Bernardes; e aquele, próxima do Colégio de Viçosa, campo do Viçosa Sport Club, equipe presidida pelo farmacêutico Mário Dutra dos Santos. Já na região então suburbana existiam os campos dos Jacob e Araújo, na região do Pau-de-Paina (atual bairro Nova Era), à beira da antiga via-férrea, próximo de onde se ergue a Igreja Matriz de São João Batista. Quando ainda estivera neste local o primitivo campo do VAC é que o jovem barbeiro José Lopes Fontes, nascido em Pedra do Anta a 22/12/1900 e falecido em Viçosa a 16/7/2002, para onde viera em 1923, iniciaria o pioneiro trabalho de base com o time Juvenil do Atlético, com seu uniforme alvirubro, inspirado no América, do Rio de Janeiro.
O Primeiro de Maio Futebol Clube, time originário do extinto Ferroviário, o Estrela Dalva Esporte Clube, o Silvestre Futebol Clube, o Couceiro Esporte Clube, o Camilinho Futebol Clube e o Colônia Futebol Clube, foram outros clubes que construíram seus estádios na cidade, esses dois últimos localizados nos limites das zonas urbana e rural. Até 2010, Viçosa ainda não contava com um Estádio Municipal, havendo nesta ocasião projetos para uma Arena Esportiva na Rua do Pintinho, no bairro Bela Vista. Inúmeros campos de jogos existem na zona rural e nos três distritos, abrigando cotejos dos mais variados certames, aqueles de promoção oficial, do Departamento de Futebol Amador da Federação Mineira de Futebol (DFAI/FMF), os ocasionamente patrocinados pelo Poder Público Municipal, e ainda os de organização sumária, sediando prélios amistosos. Entre os mais tradicionais clubes, figuram: Acadêmico, Condé, Coura, Estiva, Grama, Grotense, Guarani, Juventude do Sapé, Juventus, Nove de Julho, Paraíso, Real de Nova Viçosa, Redenção, Renascer, Renovação, Ruanovense, Santa Cruz, São José, Social, Tupã, Triunfense e Vila Novo Paraíso. Estas eram algumas das mais tradicionais entre as dezenas de equipes futebolísticas em ação no primeiro centenário do futebol em Viçosa, em 2006. A maioria jogava nos finais de semana e não era registrada como pessoa jurídica, a exemplo dos clubes sociais Viçosa Atlético Clube, Liga Operária Viçosense, Viçosa Clube, Clube Campestre e Viçosa Tênis Clube. Hoje Viçosa tem duas ligas de desporto em funcionamento: a Liga Municipal de Desportos de Viçosa (LMDV), fundada em 1997, e a Liga Esportiva de Viçosa (LEV), surgida informalmente na década de 1960, integrada pelos times do Operário Futebol Clube, já extinto, carinhosamente apelidado de "Lote de Burro"; da azul e branca Associação Esportiva Colégio de Viçosa, de saudosa memória; do Viçosa Atlético Clube; e da Liga Universitária Viçosense de Esportes (LUVE), hoje Associação Atlética Acadêmica (AAA), regida atualmente por um Conselho Administrativo ligado ao Serviço de Esporte e Lazer da UFV.
Mas a LEV só veio a se constituir legalmente a 10 de novembro de 1979. Presidiram-na, dentre outros, da década de 1960 até a terceira década de sua existência formal, no final da primeira década do século XXI, Renato Antônio Sant'Anna, José Antônio de Oliveira, José Antônio dos Reis, Luiz Gonzaga da Silva, José Mário da Silva Rangel, Walter de Aguiar Maciel Sobrinho, Pedro Rodrigues Saraiva, Lacyr Dias de Andrade e José Homero Ferreira dos Santos. Os diversos veículos da imprensa local sempre registraram o prestígio da prática atlética do amadorismo viçosense, com suas fantásticas conquistas, agregando um cada vez maior número de competidores, mesmo na atualidade, quando jogos televisivos são uma das causas na diminuição da massa popular que outrora comparecera às arquibancadas. Especialmente nesta modalidade coletiva, a terra viçosense relevou alguns grandes nomes para os gramados nacionais, sendo expoente Raimundo Isidoro (Dorinho), atleta profissional cujo empenho nos treinamentos, dedicação, determinação e disciplina o fizeram evoluir e vencer inúmeros desafios, sendo o aguerrido detentor de gloriosas conquistas no Brasil e no mundo, sobressaindo-se em sempre novas e elogiadas performances, por isso, um ícone do futebol viçosense. Nas modalidades individuais, diga-se de passagem, os outros doi destacados valores do esporte viçosense, ainda não suplantados, não padece dúvida, vêm do ciclismo e do pesismo: Ivanir Teixeira, ciclista olímpíco, e Maria Elizabete, pesista que levantou 135 quilos (arranco e arremesso) nas Olimpíadas de Sidney.
A Liga Esportiva de Viçosa está indissoluvelmente ligada às glórias da Cidade de Viçosa. A despeito de breves interrupções ao longo de sua trajetória, a LEV completou 30 anos em 2009, em pleno funcionamento. Mas houve percalços maiores fora das quatro linhas. Está comprovado que "a cidade que não investe nos esportes", como disse alguém, "colhe seus recordes nas ruas, nos botecos, nos problemas sociais e na marginalização". E dentre outros problemas, inclusive questões político-partidárias, de conseqüências nefastas, e outros, relacionados particularmente a investigações de irregularidades nas federações por comissões parlamentares de inquérito e também pelo Ministério Público acabaram acarretando danosos impasses nesta entidade administrativa do desporto viçosense. Em alguns períodos administrativos desses citados dirigentes, líderes de agremiações se recusaram, por receio, a quitar as licenças de funcionamento, previstas no Regulamento Disciplinar Interno da CFB, penalizando seriamente seus clubes federados com o impedimento de receber benesses públicas, inclusive o direito de participação em campeonatos oficiais. Em situação, portanto, de clandestinidade temporária perante as federações, passaram a preferir as disputas exóticas, não se preocupando, muitas vezes, com a coerência de um trabalho concernente às categorias básicas. Houve períodos em que o Poder Público Municipal interveio, numa tentativa de substituir a Liga, quando o caminho correto seria o estreitamento da parceria, com eventos improvisados, nos quais se condicionavam, contrariando o que preceituam normas gerais do desporto, a inscrição de atletas por equipes em seus eventos à não adesão aos certames federados, interferindo no direito constitucional ao livre associacionismo, quando o melhor seria trabalharem juntos, contribuindo para o processo de organização da entidade. Foi esta a causa maior do esvaziamento das associações legítimas e tradicionais que, com isso, se nivelaram a times formados a toque de caixa, como se não possuíssem estatutos próprios. De fato, ocorreram períodos de cerceamento interno, que se repetiram em épocas várias, em que comissões descredenciadas, contrariando e aprisionando, em modelos de regulamentos, os principios fundamentais do amadorismo e visando pequenos favorecimentos, atletas viçosenses deixavam fatalmente suas verdadeiras agremiações de origem, assinando para quaisquer outras sem personalidade jurídica, que apareciam todos os dias no município. Foram períodos de promiscuidade na permuta de camisas e cores clubísticas. Torcedores - razão maior dos espetáculos -, juízes, roupeiros, tribunais disciplinares, massagistas, roupeiros, árbitros, lavadeiras, delegados de jogos e todo um batalhão de servidores do esporte viçosense ficaram totalmente perdidos, pois já não sabiam definir o conceito dessas em relação às outras, pois se enveredaram por um caminho inadequado.
O futebol apareceu em Viçosa no dia 15 de novembro de 1906, de acordo com antigos registros. Foram primeiros praticantes da modalidade nesta cidade os jovens Luiz Lopes Gomes (Lulinha), Randolpho Sant’Anna, João Simplício Lopes (Joãozico), Luiz Megale, João Ferreira Nunes, Pedro Galvão e outros. No dia 9 de dezembro do mesmo ano, foi convidado o coletor de Ubá, Sebastião Ramos de Castro, que veio a Viçosa ensinar como se jogava futebol. O clube chamava-se “Foot-Ball Club de Viçosa”. - Lulinha, Alvino Machado, Randolpho Sant’Anna e outros colaboraram para a fundação do segundo clube, o “Destemido Viçosense Foot-Ball Club”, em 1913. O Viçosa Atlético Clube foi fundado a 28 de maio de 1931, pelos viçosenses Dr. Raymundo Faria, Dr. Carlos Megale e Geraldo Lopes Jacob (Gigi), e teve como diretores Sebastião Taucci, Dr. Raymundo Faria, José Fontes, Arduíno Braga, José Thomaz Teixeira (Salame) e Orlando Santana da Cunha, numa época em que Viçosa possuía eram apenas três os clubes futebolísticos locais. Na terceira década do século XX, se contavam em pouco mais de oitocentas as casas de Viçosa.
Em sua coluna Domingo Sportivo o repórter Jotta anunciava, no título da matéria, ´Uma justa victoria do “Arnaldo Carneiro F. C’’, informando sobre prélios ocorridos a 19 de outubro de 1924. Disse Jotta que “desde cedo notava-se o grande número de espectadores seguiram rumo ao grammado viçosense” e que “debateram-se os teams de Sylvestre e da E. Agricola cabendo a este ultimo os loureis da victoria que conquistou grande numero de goals. Ao pisar o grammado os teams principaes era tal a concorrencia que se podia sem exagero calcular os espectadores em mais de mil pessoas”, e que “ao dar o dr. Jayme Marinho, arbitro da partida, inicio ao jogo pairava sobre toda assistência uma nuvem de duvida que se firmava com o desenrolar dos primeiros minutos de jogo, tal o equilibrio mantido pelos teams.
A bola zigue-zagueava de ‘back’ a ‘back’ sem passar ao goal”. Jotta segue narrando a partida nos seguintes termos: “Não se fez muito demorado este silencio de duvida dos espectadores que logo após o 1º goal Pontenovense transmudou em uma forte torcida. A reacção se fez rapida e pouco tempo havia decorrido quando tornava-se empate a partida com um goal feito pelo team de Viçosa. Findo o 1º tempo estavamos com o score favoravel a nós por 2 x 1. Começado o 2º tempo notou-se o domínio do quadro de Viçosa que em intervallo pequeno fez balançar a rêde sob as guardas de Jayr por duas vezes.Com uma vantagem grande em pontos os nossos jogadores desinteressaram-se pelo jogo, o que permittiu aos visitantes n’um esforço louvavel conquistar, fazendo vasar a cidadella de Reynaldo, o 2º goal Pontenovense. Deu o juiz por findo o jogo com a victoria do ‘Arnaldo Carneiro F. C.’ por 4 x 2.
Segunda-feira, às 18 horas, houve um reco-reco pelas principaes ruas da cidade, acompanhado pelos alumnos e alumnas do Gymnasio e grande numero de viçosenses no qual se fez echoar vivas e urahs em regosijo a victoria. Carregadas por alumnas do Gymnasio abriam alas ao reco-reco o ‘Fifi’ e taça ‘Bazar Renê’”, conclui o redator esportivo.



LITERATURA


Academias de Letras


A Academia Viçosense de Letras (AVL) foi fundada a 30 de setembro de 1963, mas teve efêmera existência. Seu primeiro presidente foi o Pe. Antônio Mendes, sendo seus sócios-fundadores Dr. Altamiro da Conceição Saraiva, Prof. Antônio Gonçalves de Oliveira, Prof. Edgard de Vasconcellos Barros, Prof. Edson Potsch Magalhães, Prof. Fernando Antônio da Silveira Rocha, Dr. Januário de Andrade Fontes, Prof. José de Alencar, Dr. José Felicíssimo de Paula Xavier, Dr. José Felismino de Oliveira, Dr. José Norberto Vaz de Mello e José Pinto Coelho, este seu primeiro secretário.
E a Academia Municipalista de Letras de Viçosa (AMLV) fundada a 23 de novembro de 1985, com 40 membros efetivos, eleitos por seus pares, e 20 sócios correspondentes, sua primeira presidente foi a escritora Maria Aparecida da Silva Simões. Para a diretoria foram eleitos os seguintes sócios: 1º vice-presidente Benito Taranto, 2ª vice-presidente Therezinha Mucci Xavier, secretária-geral Cirene Ferreira Alves, 1º secretário Pélmio Simões de Carvalho, 2ª secretária Juracy de Souza Barros, 1º tesoureiro Carlos dos Reis Baêta Braga, 2º tesoureiro Elias Ibrhaim, 1º bibliotecário Maurício Xavier e 2º bibliotecário Ary Teixeira de Oliveira.
Seus objetivos e finalidades são o estímulo e o engrandecimento os valores autênticos, que tenham contribuído para o aprimoramento da Língua Pátria, da cultura literária e histórica de Viçosa e das cidades circunvizinhas, e o acolhimento, sem discriminação, por parte de seus membros, dos valores culturais autênticos que engrandecem e valorizam o desenvolvimento da cultura em Viçosa, propugnando inclusive por melhor conhecimento de sua história."
A 12 de abril de 1986, em reunião ordinária da ALV, os acadêmicos escolheram o dia 24de maio para a sua festiva instalação, e a 8 de maio de 1986, em reunião extraordinária, decidiu-se por suprimir a palavra "Municipalista", ficando apenas Academia de Letras de Viçosa, por deliberação dos acadêmicos. Personalidades de indescritível valor no cenário cultural não só de Viçosa, aqui incluímos os nomes de todos os membros efetivos, entre vivos e já falecidos e sócios correspondentes e honorários do sodalício que tem como patrono o Mestre Arduíno Fontes Malaquias Bolivar, um dos mais ilustres filhos desta terra. Filho de Cândido Malaquias Bolivar e de D. Maria Tereza Gonçalves Fontes, um dos poetas e humanistas mais influentes de toda a vida intelectual e política de Minas Gerais entre as décadas de 1920 e 1950, nascido na velha Santa Rita do Turvo, depois Viçosa, a 21 de setembro de 1873. Tendo cursado Humanidades no Colégio do Caraça, onde foi despertado o seu pendor para o estudo das letras latinas, pupilo, por um ano, da conceituada Escola de Farmácia de Ouro Preto, onde também lecionou no Colégio Mineiro, bacharel, em 1902, em Ciências Jurídicas e Sociais pela consagrada Faculdade do Largo de São Francisco, em São Paulo, promotor de Justiça, diretor do Arquivo Público Mineiro, Arduíno foi um dos fundadores da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Santa Maria, atual PUC/MG, onde ministrou aulas de Literatura Latina. Tradutor das odes de Horácio e das ecóglas de Virgílio, latinista, sobre ele assim se expressou um seu ilustríssimo ex-aluno no Colégio Arnaldo, Carlos Drummond de Andrade: "Arduíno Bolivar, o teu latim/ Não foi, não foi perdido para mim./ Muito aprendi contigo;/ A vida é um verso/ Sem sentido talvez, mas com que música!"
Por ocasião do lançamento, pela Academia Mineira de Letras, de documentário sobre sua obra (citado na bibliografia do presente trabalho), desenvolvido pelos professores Johnny José Mafra, Mário Cleber Martins Júnior e Simone Von Rondon, do Projeto Universidade Livre, do Centro de Memória da PUC/MG, o jornal Folha da Mata, de Viçosa, se dignou publicar, de autoria deste blogger, a 22 de novembro de 2003, o artigo do qual a seguir compilo os principais tópicos. Nome de bairro em sua terra natal, localidade conhecida popularmente como "Alto das Amoras", emprestou seu nome também ao extinto Grêmio Artístico e Literário do antigo Colégio de Viçosa, o "Galab". Arduíno também é patrono da Academia de Letras de Viçosa (ALV).
Enquanto cursava Direito em São Paulo, Arduíno lecionou no Instituto Luiz Antônio dos Santos. Militante da imprensa local, ele trabalhou no "Comércio de São Paulo" e na "Nação". Foi ainda redator de algumas revistas acadêmicas como o "Instituto Jurídico", "A Evolução" e a "Renascença". Advogado, Arduíno retornou à terra mineira, onde foi nomeado, a 28 de maio de 1903, promotor de Justiça da Comarca de Carangola, onde permaneceu por três anos, período em que se dedicou ao jornalismo, como redator de "O Progressista", daquela cidade da Zona da Mata.
A 3 de fevereiro de 1906 foi nomeado Juiz Municipal da Comarca de Ubá, onde permaneceu até 1914 e lecionou no Ginásio São José, estabelecimento de que foi vice-diretor. Ali foi redator de outro orgão de imprensa: "O Movimento". E a 8 de setembro de 1914, nomeado oficial de gabinete do secretário de Agricultura, tendo servido neste posto com os secretários Raul Soares de Moura e Clodomiro de Oliveira. Ingressou no magistério estadual como professor da Escola Normal Modelo de Belo Horizonte, nomeado a 8 de dezembro de 1922. Em 20 de março de 1925 tornou-se ali titular da cadeira de Português e em março de 1926, diretor daquela instituição. No dia 14 de abril de 1936 foi nomeado diretor do Arquivo Público Mineiro, cargo que exerceu até 14 de setembro de 1938, quando se aposentou. De 1931 a dezembro de 1942 lecionou Latim no curso vestibular da Faculdade de Direito da Universidade de Minas Gerais. Em 24 de março de 1944 foi admitido como professor de Sociologia da Faculdade de Ciências Econômicas e Administrativas de Minas Gerais, posteriormente incorporada à Universidade de Minas Gerais, sendo investido como catedrático da cadeira de Princípios de Sociologia aplicados à Economia, por concurso de títulos, a 16 de novembro de 1945.
Lecionou Literatura, Latim, Francês, História Universal e História do Brasil no antigo Ginásio Mineiro de Belo Horizonte e no Colégio Arnaldo a que já nos referimos. Foi também professor de História da Literatura Italiana na Faculdade de Filosofia Santa Maria, e de História da Literatura Latina na Faculdade de Filosofia da Universidade de Minas Gerais. Membro da Academia Mineira de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, Arduíno Bolivar exerceu durante vários anos as funções de membro da Comissão Nacional do Livro Didático – subcomissão de Língua Portuguesa e línguas antigas do Ministério da Educação e Saúde. Para Múcio Leão, ele "soube dar a vida inteira a um ideal de cultura para o qual não via possibilidade de retribuição próxima ou póstuma."
Por ocasião de seu falecimento, a respeito do Mestre Arduíno, assim se expressou Affonso Penna Júnior, na Academia Brasileira de Letras (ABL): "No seu espólio de grande estudioso, serão encontradas muitas e muitas obras, que ele, na ânsia, bem caracense, da perfeição, ia limitando através dos anos, e apesar do incitamento de amigos, não se animava a publicar. Posso dar testemunho de algumas traduções latinas, que conservavam, na nossa língua, todo o vigor e o encantamento dos poetas Virgílio e Horácio. Essas produções, a crítica dos que o conheceram de perto, a devoção piedosa de seus muitos discípulos – pois Arduíno Foi, por excelência educador e mestre – hão de erigir-lhe o monumento de bronze e perenidade, que seu mérito reclama." De fato, o viçosense Arduíno Fontes Bolivar foi colaborador, articulista, em diversas revistas e jornais brasileiros mas não publicou livro.
Não cabe aqui, evidentemente, pormenorizar dados referentes às largas produções dos ilustrados integrantes da ALV, bem como de seus respectivos patronos no notável grêmio literário da cidade. Citamos tão somente aqui seus gloriosos nomes, que falam por si mesmos. Ei-los:

Alexandre de Alencar
Alexandre Furtado Cordeiro
Aluízio Borém de Oliveira
Antônio Aníbal Pacheco
Antônio Brant Ribeiro Filho
Antônio Gonçalves de Oliveira
Antônio Mendes
Ary Teixeira de Oliveira
Badia Abrão El-Hadj
Benito Taranto
Carlos dos Reis Baêta Braga
Cirene Ferreira Alves
Clibas Vieira
Denise Maria Nery Euclydes
Edgard Vasconcelos Barros
Edson Potsch Magalhães
Elias Ibrahim
Erly Cardoso Teixeira
Ernesto von Rückert
Fernando José Ribeiro da Silva
Francisco de Assis Costa
Francisco Simonini da Silva
Gerson Cunha
Jacyra Sant'Ana
João Maffia Filho
José Dionísio Ladeira
José Geraldo Vidigal de Carvalho
José Levy de Oliveira
José Maria dos Santos
José Paulo Martins
Júlio de Castro Paixão
Juracy de Souza Barros
Leda de Bittencourt Bandeira
Lúcia Maria Sant'Anna Costa
Luiz Cláudio Costa
Mansour Chalita
Maria Aparecida da Silva Simões
Maria Auxiliadora Monnerat
Maria das Graças de Freitas Castro
Marília Nascif Barbosa
Maurício Xavier
Murilo Rubião
Nilda de Fátima Ferreira Soares
Onofre Christo Brumano Pinto
Pélmio Simões de Carvalho
Rosimar Gomes da Silva Ferreira
Tarcísio Gomide
Therezinha Mucci Xavier
Wantuelfer Gonçalves


Estes formam a Galeria dos Imortais.



ARTES PLÁSTICAS



A Pinacoteca Municipal foi criada em 1966, quando o jornal “A Cidade” promoveu o I Salão de Artes Plásticas, sendo expostos, então dezoito trabalhos de artistas viçosenses, despertando-se o interesse geral, sendo que, nos anos imediatamente posteriores o número de obras em exposição aumentara para quase duas centenas, graças à inconteste liderança da Professora Stella Costa Val Brandão, coordenadora dos salões, a mentora da Pinacoteca de Viçosa. O prefeito Dr. Carlos Raymundo Torres sancionou a Lei n° 584, a 19 de julho de 1971, projeto de autoria do vereador Dr. Euter Paniafo, criando a pioneira pinacoteca do interior mineiro e, de seu notável acervo consta obras doadas por artistas como Alba Licínia Longo de Almeida, Amadeu Luciano Lorenzato, Amarílis Chaves, Ana Amélia Rangel, Athayde Coelho de Godoy, Betty Giudicci, Carlos Renato de Lima, Carlos Roberto Bracher, Chanina, Lwisz Szejnbejn, Conceição Pilo, Décio Noviello, Délio Delpino, Esthergilda Menicucci, Evandro Norbin, Francisco Ferreira Alves Jr., Frederico Bracher Jr., Ildeu Moreira, Inimá de Paula, José Batista de Miranda, José Orlando Castaño, José Ronaldo Lima, José Romualdo Quintão, Lisete Meinberg, Lugumar Passos Vieira, Maria do Carmo Arantes de Carvalho, Maria Helena Andrés, Maria José Santos, Márcio Sampaio, Marlene Maria Godoy Barreiros, Mari’Stela Tristão, Marlene Trindade, Meiga Villas Boas, Nazareno Altavilla, Nello Nuno de Moura Rangel, Nely Frade, Petrônio Bax, Recylde França, Renato Augusto de Lima, Rodelnégio, Ruth Werneck, Sânzio Meneses Marques de Souza, Sara Ávila, Xavier Silvestre A. Q. Barnabé, Yara Tupinambá e Wilde Lacerda.
Dentre os aqui citados destaca-se, com seus prêmios, entre os filhos de Viçosa que se dedicaram às artes plásticas, o desenhista e pintor autodidata Nello Nuno de Moura Rangel (1939-1975), consagrado nacional e internacionalmente pelo conjunto de sua obra, considerado por especialistas um dos “mais significativos” pintores mineiros e precursor da pintura neo-expressionista surgida na década de 1980. Obras de sua lavra foram permanentemente expostas, dentre outros salões de renome da capital mineira, no Centro Cultural Universidade Federal de Minas Gerais e no Museu Mineiro. Sua genialidade teve reconhecimento público desde a década de 1960, tendo atuado na Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais e na Fundação Guggenheim Memorial Fundation (NY). Enriquecem-lhe ainda o currículo o ter ele sido um dos mais festejados mestres da Escola Guignard e da Fundação de Arte de Ouro Preto.



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EDUCANDO A MOCIDADE



O professor Felício Brandi realçou o fato singular de Viçosa ter tido “a sorte de ter sido uma das cidades do nosso glorioso Estado de Minas onde primeiro se estabeleceu uma universidade rural (hoje Universidade Federal de Viçosa), centro de cultura cuja fama se estende além dos mares”. E do Ensino Primário ao Superior, Viçosa conta com centenas de estudantes. São suas escolas estaduais: Centro de Educação Continuada Dr. Altamiro da Conceição Saraiva, Dr. Raymundo Alves Torres, Effie Rolfs, José Lourenço de Freitas, Madre Santa Face, Padre Álvaro Corrêa Borges, Raul de Leoni, Santa Rita de Cássia e Sebastião Lopes de Carvalho. Escolas municipais: Almiro Paraíso, Anita Chequer, Arlindo de Paula Gonçalves, Coronel Antônio da Silva Bernardes, Dona Nanete, Dr. Arthur Bernardes, Dr. Juscelino Kubitscheck, Getúlio Dornelles Vargas, Jacyra do Vale Rodrigues, João Francisco da Silva, José Lopes Valente Sobrinho, José Theotônio Pacheco, Ministro Edmundo Lins, Monsenhor Joaquim Dimas Guimarães, Nossa Senhora de Fátima, Padre Francisco José da Silva, Paulo Mário Del Giudice, Pedro Gomide Filho e Santo Antônio. Faculdades: Escola de Estudos Superiores de Viçosa (ESUV), Faculdade de Viçosa (FDV) e União de Ensino Superior de Viçosa (UNIVIÇOSA).



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A instrução pública municipal gratuita foi oficialmente criada em 1894, com escolas em núcleos rurais "de população nunca inferior a mil habitantes, em um raio de cinco quilômetros", onde houvesse casa apropriada para escolas, oferecida pela população desses núcleos. A freqüência deveria ser de pelo menos vinte alunos e as escolas, mistas, de acordo com a Resolução nº 11, de 11 de agosto do referido ano. Os professores, de acordo decisão do presidente do Conselho de Intendência (ou presidente e agente executivo municipal), Dr. José Theotônio Pacheco, tinham direito a um ordenado equivalente a 1:200$000 anuais, pagos trimestralmente até julho do ano seguinte, quando os vencimentos se tornaram mensais.
A 17 de janeiro de 1896 estava criada, já, de acordo com resolução da edilidade viçosense, uma cadeira de instrução primária municipal no Córrego Fundo, distrito de Teixeiras. Em 1899 a Fazenda dos Medinas, daquele distrito, ganhava a sua escola de instrução primária. E outras idênticas seriam criadas na sede (Viçosa de Santa Rita), como no Córrego do Paraizo, em 1900, bem como nos demais distritos, nos anos subseqüentes: São Vicente do Gramma e Herval, Araponga, São Miguel do Anta(Cachoeirinha). Em 1905 São José do Triunfo, distrito da cidade, tinha já a sua escola e em Coimbra trabalhavam professores estaduais.
Em 1908, a comunidade dos Arrudas, distrito de Teixeiras, ganhava nova escola para o sexo masculino (instrução primária). Em 1901 o Dr. Francisco Machado de Magalhães Filho, agente executivo municipal e presidente da Câmara determinara o funcionamento de dez escolas municipais, de modo que coubesse em cada distrito pelo menos uma e na cidade duas, dando preferências às senhoras como educadoras, em escolas mistas. De acordo com o artigo 5º da Resolução nº 137 de 4 de fevereiro de 1901, eram matérias de ensino "licções de cousas, leitura, calligraphia, arithemetica basica, systema metrico decimal, noçoes de grammatica portugueza, de historia do Brazil e de chorographia do Estado, educação moral, religiosa e civica e trabalhos de agulha para as escolas do sexo feminino."
Em 1896 já se destinavam 10:000$000 como auxílio a um colégio de instrução secundária na cidade, o Collegio Baptista, fundado pelo professor Basílio Baptista de Araújo. O administrador público de Viçosa exigira, então, que para que se tornasse efetivo o auxílio votado pela edilidade para manutenção do referido colégio - que cuidava também da educação primária (funcionando no exato local onde esteve, na atual praça Emílio Jardim, 3, o Hospital São Sebastião) - que este devesse receber, a juízo do chefe do governo local, 10 alunos externos, pobres, e que já tivessem as primeiras noções para cursarem o curso secundário. Em 1898 destinavam-se 10 mil réis mensais a 20 alunos de ambos os sexos para freqüência a colégios de instrução secundária em Viçosa. Documentos históricos, como resoluções da Câmara e jornais da época, referem-se a não mais um mas há três estabelecimentos do gênero: o já citado Collegio Baptista, a Escola Livre do professor J. Villa Maria e um colégio de meninas regido pela professora Rosalina Brandão. Esse último fora subvencionado com quatrocentos mil réis em 1898 ao passo que os dois outros receberam um conto de réis cada, conforme a Resolução nº 84, de 4 de fevereiro daquele ano. Anúncio de ensinos garantidos pelo Prof. J. Villa Maria, “em seis meses, de Gramática (portuguesa e francesa) e de Geografia, ao custo, sem desconto, de 10 $ para o Primário e de 20 $ para o Secundário, sem férias, além dos domingos”, foi publicado na edição de 12 de julho de 1897 do jornal A Cidade Viçosa, dirigido pelo major Mário Vaz de Mello.
A Biblioteca Pública foi criada em 1902, aberta ao público "das seis às nove horas da noite nos dias úteis e santificados e das onze da manhã às duas da tarde nos domingos e dias feriados," conforme Resolução nº 162 de 24 de setembro de 1902. Foi instalada em 1903. Em outubro de 1909 ela aparece como sendo mantida pelo Club Litterario e Recreativo 13 de Maio, ainda sem um prédio próprio, o que foi preocupação para o presidente da Câmara, Dr. Emílio Jardim de Resende, que lhe destina 800$000 com esta finalidade.
E de 1904 há a notícia da existência do Lyceu de Viçosa, subvencionado com 1:500$000 anuais, sob a condição de nele serem admitidos dez alunos pobres. Livros escolares, papel, penas, canetas e tinta eram distribuídos gratuitamente, no governo de Arthur Bernardes, a alunos reconhecidamente pobres, em 1906. Nada menos que 200$000 foram despendidos pela administração municipal naquele ano, conforme autorização da Câmara (Resolução 229). Bernardes se preocupava com a aquisição de um prédio para um grupo escolar e a Câmara, sob sua presidência, autorizou a concessão, a 30 de setembro de 1907, um auxílio de até cinco contos de réis para o ato de lavratura da escritura de doação do prédio ao Estado.
Pela Resolução nº 312, de 27 de março de 1912, foi decretada a desapropriação, por utilidade publica, de três prédios na praça Silviano Brandão, um de Jacob Lopes de Faria e dois de Manoel Pereira Coelho, para a construção do prédio do Grupo Escolar, cuja planta foi do engenheiro José Dantas. E em maio de 1913 a Câmara autorizava a adaptação de sua antiga sede para o funcionamento do Gymnasio de Viçosa, filial do Gymnasio Santa Cruz de Juiz de Fóra. A Escola Remington era uma realidade na década de 1920, sob a direção de Guiomar Medeiros. A edição nº 11 (Ano II) do Jornal de Viçosa, de 25 de outubro de 1924, publicou nota alusiva a um concurso. "A commissão examinadora foi presidida pelos srs. drs. Antonio Gomes Barbosa e Arnaldo Carneiro Vianna, servindo de examinadoras as professoras senhorinhas Juracy Miranda e Guimar Medeiros e de paraninpho o sr. dr. João Carlos Bello Lisboa. Obteve o primeiro logar a senhorinha Maria das Dores Vargas a quem foi conferida a medalha de ouro. Tirou o segundo lugar o Ssr. Carlos Lopes da Silva, chefe das officinas da nossa collega 'Cidade de Viçosa'. Os demais allumnos obtiveram notas simples e plenamente.
Foi oradora da turma examinanda, a sednhorinha Maria Amélia Carneiro. As provas constaram de copias de uma correspondencia commercial e de uma pagina de Coelho Neto," informa o jornal.
Alguns nomes de mestres da Grande Viçosa, registrados na história, são os de Aleta Fontes de Resende (Fazenda do Paraíso), José de Souza Lopes (distrito de Canaã), Olímpia da Cruz Dias e Etelvina Penna Salles (Araponga), Joaquim Gonçalves de Alvarenga (São Vicente do Grama), Maria da Conceição Cardoso (Cachoeira de Santa Cruz), Alice Souza Lima (Paraguai, em Cajuri), Maria da Conceição Silva (São Benedito, distrito da sede), Conceição Gomes, Cândida Maria das Neves (distrito de Teixeiras), Olga Germana e Arinda Bizerra Rego (Lemos, no distrito da sede), Francisco de Paula Galvão, Ludomilla Gomes Pereira e Maria Coelho Soares (São Miguel do Anta), Prudencia Velloso (distrito de Coimbra), Maria de Lourdes Ramos, Maria da Conceição Fontes (distrito do Herval), Genária Toledo, Maria Tomásia Leal, Argentina Borges Viana, João Custódio de Matos, Inácio Pereira Bartolomeu, Zélia Rodrigues Fonseca, Adalgisa de Sousa, Noêmia de Moura, Genica Pinheiro, Maria de Souza Sabarense, Maria Leonor, Iracema Rosa de Jesus Viana, Marianna Brandão de Resende, Nadir Queiroz, Marilene Nogueira, Mirca Vieira Paiva, Dorvina Vieira, Noêmia de Moura, Branca Rosa Schittini, Geraldina Rufino, Carlota Rufino, Anunciação de Paiva e Zita da Conceição Leal (Pedra do Anta).
Conforme CARVALHO (nº?), "tecer louvores ao mister grandioso da professora é um dever de justiça e gratidão. São Gregório diz ser 'ars artium' -arte das artes- a tarefa sublime da mestra. Fala René Bazin que 'a formação de um homem é obra difícil, quando bem realizada é obra-prima por excelência'" [...] "O dito bíblico: 'adolescens juxta viam suam, etiam cum senuerit, non recedet ab ea' - O jovem, mesmo ao envelhecer, não se afastará nunca da vereda trilhada em sua infância, revela o papel transcendental daquela que imprime nos espíritos uma poderosa e duradoura direção na vida." [...] 'Os destinos de uma nação se decidem nos bancos escolares, mormente das escolas primárias, onde se ministram aquelas noções fundamentais que levam à grandeza moral. Aí se fixam condutas indeléveis que marcam, para sempre, uma vida.
Viçosa teve uma professora singular, de fato, prima inter pares: Da. Argina Silvino Ferreira. A ela ficou a cidade devedora de eterno agradecimento. Muitos são aqueles que hoje beneficiam esta terra ou a honram em outras plagas, nos mais variados setores, e que hauriram, nas magistrais aulas daquela educadora competente e dedicada, o afeto à Religião, à Pátria e à Cultura.
Inúmeros os cidadãos prestantes que formou. Nas mais diversificadas profissões, eles conservam o traço primacial vincado por ela. O cumprimento das obrigações, o acatamento da lei de Deus e um acentuado patriotismo eram inoculados. Concomitantemente à assimilação do conteúdo dos temas das várias disciplinas eram desenvolvidos com sapiência e habilidade ímpares. Balmes tinha razão: 'Um só professor bom é capaz, em alguns anos, de produzir benefícios imensos a um país'. É que no porvir eles terão influição sobre outros e sobre todo um contexto no qual atuarão. Aliás, Gibier ajunta: 'Os destinos de um povo se ligam com a educação da primeira idade; o porvir da sociedade principalmente da boa educação dos meninos'. Não há dúvida, 'cultivar oportunamente e incessantemente este melindroso canteiro de pequeninos seres botões de rosa da lindíssima primavera humana; inclinar e robustecer para os recontros da sociedade e para as batalhas da existência esses tenros e ternos entes que tudo assimilam, de tudo se repassam, com tudo se matizam, tornando dúcteis e dóceis, qualquer feitio e impressão que se lhes dá; arrancar às trevas intelectuais e às seduções mundanas esta criaturinhas tão indefesas pela sua idade, tão insinuantes pela sua candura e tão simpáticas pela sua inocência; temperar-lhes as energias do corpo e arrotear-lhes as durezas do gênio; espreitar-lhes a vocação e compor-lhes o caráter; conduzi-las, com explicações claras, avisos prudentes e exemplos frisantes à adesão de todas as virtudes e à aversão de todos os vícios; habituá-las ao espírito da disciplina, ao amor do trabalho, ao sentimento do respeito e à observância do dever; talhar tudo isto, graduar tudo isto, moderar tudo isto é diminuir a estatística do mal e aumentar a crônica do bem; é extirpar o vício pela raiz e secar o erro na origem; é prosperar o indivíduo e a família; é empreender a cruzada acentuadamente civilizadora, a obra, por excelência humana, da segurança, da tranqüilidade e da ventura comum; é realizar o mais nobre, o mais transcedente, o mais alto apostolado que pode estadear-se sobre a terra'. Esta foi a missão que Deus confiou a Da. Argina Silvino Ferreira e ela a cumpriu com esmero!
Hoje se cantam as glórias da metodologia nova. Pelos idos de 1940, Viçosa já conhecia toda a técnica propagada pela moderna pedagogia, nas salas de aulas de Da. Argina.
Ela considerava a infância como uma tese no processo geral de desenvolvimento do homem. Conduzia seus epígonos, orientando-os para que eles chegassem, por sua iniciativa, por um progresso natural e contínuo, à idade adulta. Não lhe importava a soma de conhecimentos adquiridos, mas a maneira como o educando os concebia e manejava. Daí ter sido característica de suas aulas a participação de cada aluno. O que se estudava se transformava em instrumento através do qual ela mobilizava esquemas de assimilação. O esforço devia partir do discente. Nada pronto, pré-fabricado. Ela sabia que a lógica da criança é diferente da lógica do adulto.
Em classe, muitas vezes, pequenos grupos se formavam para o estudo dos temas, num processo socializador.
Dotada de fina psicologia, quase que por intuição, penetrava as sinuosidades recônditas da mente infantil. Patenteava uma vigilância instintiva, incentivando cada um no momento azado. Solicitude amorosa ostentava com os mais rebeldes em acatar suas diretrizes. Transfundia correntes de simpatia para cada etapa a ser vencida.
Ela não se prendia a nenhuma prática didática. Possuía permanente disponibilidade no anseio de evitar a rotina. Mantinha constante inquietação e dúvida em relação às soluções propostas no que tange ao sucesso escolar. Tinha o dom de saber orientar a aprendizagem. Sem autoritarismo, fazia da sala de aula um local aprazível, onde todos se sentiam motivados para as tarefas. Ajudava a apreender. Suas aulas eram feitas para o aluno, que era mantido em trabalho ativo, ora interpretando textos, ora falando francês, ou resolvendo problemas de aritmética, ou debatendo pontos da história, geografia e ciências naturais por ela habilmente suscitados. Cada ângulo era apresentado em situações reais, em termos de experiências vivenciais. Quantas vezes ela ia com seus alunos à antiga Igreja Matriz para uma aula de catecismo no ambiente sugestivo, apto a arraigar piedade e fé. É que ela sabia que Deus é o fim supremo da ação educativa e, com rara aptidão, lançava a semente nos corações de seus discípulos.
Nunca exigiu uma lição decorada. A História, terror dos alunos na escola tradicional, com série de nomes, datas e locais a serem memorizados, era uma das matérias mais interessantes e atraentes. Ela nos transportava ao cenário em que se deu o evento. O que aconteceu era objeto de cuidadosa hermenêutica. Fazia compreender os motivos pelos quais os personagens agiam ou daquela forma e como tal comportamento refletiu no meio social e foi, por sua vez, por ele influenciado. O passado ilustrando o presente e conduzindo a uma visualização prospectiva do futuro. Era a descoberta dos elos que uniam as ocorrências numa cadeia ininterrupta de causas e efeitos. A Guerra do Paraguai, por exemplo, era estudada dentro das mais aprimoradas normas da Didática. No mapa eram mostrados os lugares onde a batalha se desenrolou. Fotografias do heróis e cenas das lutas eram recursos visuais de grande valia. O encontro com as principais figuras, a exposição do ocorrido numa focagem global e exata dos acontecimentos, o devotamento ao Brasil, tudo entusiasmava. O objetivo era colimado: no fundo da consciência ficava claro que uma missão fôra cumprida, o território brasileiro fôra preservado com intrepidez, sem ódios, sem vinganças. Riachuelo, Tuiuti, Itororó; Osório, Barroso, Caxias: quadros familiares, vultos amados!
O francês era ministrado no quarto ano primário. O manual era O Novo Método prático e fácil para aprender A LINGUA FRANCESA com muita rapidez pelo Dr. F. Ahn, adaptado ao uso dos brasileiros. O autor era Francisco de Oliveira e a Livraria Francisco Alves, a distribuidora. Quem dá este testemunho, apesar de estar situado pelo seu perfil caracterológico nas Ciências Sociais, sobretudo nas províncias da História, muito lucrou com as aulas de francês da Da. Argina Silvino Ferreira. Tornaram-se um embasamento de importância capital." [...] "'A todos impressionava Da. Argina pela linguagem escorreita, castiça, pelo vocabulário rico, pela caligrafia bela, caprichada. Seus alunos esforçavam-se por imitá-la no falar e no escrever."
Nascida a 30 de abril de 1898, em Viçosa, filha do oficial de justiça Mariano Carlos da França Silvino e de Dona Rita Maria dos Anjos, a emérita professora Argina estudou o curso Normal com as Irmãs Carmelitas da Divina Providência. Professora da Escola Rural Mista de São José do Triunfo desde 1919 e da Escola Masculina da Estação do Turvo de 1921 a 1923 e novamente da escola de São José do Triunfo de 1923 a 1936, nesta, substituindo a mestra Paulina de Assis. Mudando-se para a cidade, criou a escola primária que preparava alunos para admissão ao Gymnasio e à Escola Normal de Viçosa. Desde 1950 foi orientadora educacional da Escola Agrícola Arthur Bernardes, até se aposentar. Faleceu no dia 4 de março de 1961.



Colégio de Viçosa, antigo "Gymnasio"



Em 1946 foi instituída a Sociedade Anônima Colégio de Viçosa, pelo Decreto nº 14.961, mas sua origem remonta a 1º de outubro de 1913, com a criação do Gymnasio de Viçosa, cuja primeira sede fora instalada na praça Silviano Brandão, nº 136. De acordo com as melhores fontes, o Colégio de Viçosa foi fundado pelo professor Alípio Peres com a já citada denominação de Gymnasio de Viçosa. Em 1918, sob a direção de Dr. Arnaldo Carneiro Viana obteve bancas examinadoras para processamento de exames finais. A partir de 1925, responderam pela direção do Colégio de Viçosa: Pe. Álvaro Corrêa Borges, Leopold Catoud, Adesílio Bicalho, Biolkino de Andrade e Pe. José Xavier. Pela Resolução nº 505, de 20 de setembro de 1928 a Câmara Municipal autorizou o administrador público de Viçosa, Dr. João Braz da Costa Val a promover a rescisão do contrato celebrado com o Dr. Arnaldo Carneiro Vianna, em 21 de dezembro de 1925, para continuar a manter e dirigir o Gymnasio, a tomar providencias no sentido de municipalizar o estabelecimento e a obter dos poderes competentes "a sua equiparação ao Collegio Pedro II" e também a ceder a quem este julgasse conveniente, a seu juizo, por prazo limitado ou indefinido e sob as mesmas condições estabelecidas no aludido contrato, o uso e gozo do estabelecimento. Em 1932, ocupou o cargo de diretor, o professor Alberto Álvaro Pacheco, que obteve da presidência da República a sua fiscalização permanente. Em 1936, pela Resolução de 10 de outubro de 1936, o município de Viçosa foi autorizado a promover judicialmente rescisão do contrato celebrado entre a Prefeitura e o Prof. Alberto relativamente à exploração do Gymnasio. Falecido a 15/7/1963 e cujas “barbas cor de marfim” foram perenizados em busto de bronze na praça que traz o seu nome na entrada principal do campus universitário, ao final da avenida P. H. Rolfs, este educador dirigiu com pulso férreo a instituição até que um grupo de amigos de Viçosa adquiriu o Ginásio, transformando-o no Colégio de Viçosa, cuja Sociedade Civil foi criada a 30 de dezembro de 1943. A primeira diretoria da Sociedade foi constituída por José Sant’Anna, Alino Corrêa Borges, Prof. Edson Potsch Magalhães, Prof. Edgard Vasconcellos Barros, Pe. Álvaro Corrêa Borges, Dr. Raymundo Alves Torres e Saulo Moraes Moretszon, quando assumiu a direção técnica o Dr. Moacir Pavageau. Contribuíram sobremaneira para que a empresa tivesse êxito, o médico Sebastião Ferreira da Silva, o farmacêutico Mário Dutra dos Santos, que foi diretor-tesoureiro, Francisco Simonini, os comerciantes João José Araújo e Jorge Ramos, o professor Felício Brandi, José da Costa Vaz de Melo (Parrique) e Dr. Sílvio Romeu Cezar de Araújo. Esses dois últimos cidadãos foram prefeitos de Viçosa, respectivamente, nos períodos de 1951 a 1954 e de 1943 a 1945. Foram diretores-técnicos do colégio, a partir de 1945, o Prof. A. Barroso, Dr. José Miguel Pacheco, Dr. Alexandre de Alencar e Dr. Felício Brandi. Seu último diretor- residente, até 1981, foi o advogado Januário de Andrade Fontes, que acumulou, com competência e abnegação, as funções, a partir de 1949, de professor de Língua Francesa, Educação Moral e Cívica e Matemática, inclusive no Curso Técnico de Contabilidade, que funcionou anexo ao Colégio. Durante sua direção foi criado o Curso Básico Noturno. Seu nome se tornou uma legenda, como um dos maiores entre os ilustres docentes que trabalharam, anos a fio, no Colégio. Iniciou sua carreira como inspetor de alunos em 1934, a convite do Prof. Alberto Pacheco e aposentou-se como professor em 1983.
Na lembrança de ex-alunos, professores, regentes, chefes de disciplina e funcionários, ficaram, entre tantas saudades, pelo menos três muito especiais: “O Dinamite”, órgão de imprensa criado pelos alunos; a AECV (Associação Esportiva Colégio de Viçosa), cujo time foi campeão em inúmeros certames regionais, inclusive da Liga Esportiva Viçosense (LEV); e o Galab (Grêmio Artístico Literário Arduíno Bolivar), do qual foi o maior incentivador o poeta e professor de Latim e Português, Sebastião Lopes de Carvalho, um mestre sempre idolatrado por quantos foram seus pupilos. Três institutos ligados ao Colégio, e que foram grandes marcos de uma época. O estabelecimento alcançou, em sua fase áurea, prestígio interestadual e foi reconhecido como “o Berço das Águias Futuras”. Primava pelos moldes tradicionais de ensino. Por seus bancos passaram centenas de jovens, muitos dos quais depois exercendo as mais diversificadas e importantes funções na vida social, política, econômica e cultura pelo Brasil afora. PANIAGO ressalta que “em 1957, o Colégio de Viçosa passou por séria crise financeira, resultante das despesas com a construção e a retração na aquisição das ações da Sociedade, pois a dívida do estabelecimento era de Cr$ 3.000.000,00 aproximadamente”, quando assumiu sua direção o professor Januário, que em sua administração pagou a dívida, “conservando a excelência do ensino ali ministrado”, quando chegaram a 1.000 os alunos matriculados. A maior parte de suas cotas foram adquiridas pela Prefeitura Municipal na década de 1980, quando atravessou nova crise financeira, tendo que encerrar oficialmente suas atividades. O prédio em que funcionou é considerado um signo da história da educação de Viçosa, tendo sido tombado pelo Conselho Municipal do Patrimônio Cultural e Ambiental de Viçosa (CMCPCAV). Por fim, a 30 de setembro de 1999 constituiu-se a Fundação Colégio de Viçosa, tendo como membros natos e vitalícios de seu Conselho Diretor os cidadãos Antônio Carlos Ribeiro, Esmeralda Thomáz Affonso, Gilson Faria Potsch Magalhães, Lúcia Helena Mollica, Lúcia Moura, Marcelo Soares de Andrade, Maria das Graças Salgado, Maria de Lourdes Ribeiro, Patrícia Machado Coelho Lima, Paulo Márcio Carvalho Lopes, Terezinha Mucci Xavier e Virgínia Lúcia Bittencourt Moura.



Colégio Estadual



Criado pela Lei Estadual nº 3.508, o Colégio Estadual de Viçosa, de Ensino Fundamental e Médio, depois designado de “Dr. Raymundo Alves Torres”, foi iniciativa do governador Magalhães Pinto. Aprovada na Assembléia, a lei foi sancionada em novembro de 1965 após ser relatada pelo deputado viçosense, Dr. Carlos Vaz de Mello Megale, cuja síntese biográfica se encontra noutra postagem deste blog. A condicionante prevista na lei de que o estabelecimento de ensino só se instalaria após doado ao Estado prédio adequado ao seu funcionamento nunca foi atendida e principiou o educandário a funcionar em prédio do próprio Estado, até então sede da Prefeitura Municipal, por empenho do deputado Edgard de Vasconcellos Barros, no governo de Israel Pinheiro, que pleiteou ainda, na ocasião, que ali também se instalasse uma Faculdade de Filosofia, para funcionamento noturno.
O deputado Edgard de Vasconcellos, além de militante na imprensa local, foi um homem visceralmente ligado à educação da mocidade e especialmente aos interesses do povo viçosense, mormente nesta área. Um Conservatório de Música foi outro seu acalentado sonho, materializado na Lei nº 4.966, de 7 de outubro de 1968, no governo do Israel Pinheiro, que previa seu funcionamento "anexo à UREMG, integrando seu sistema de ensino médio". (Minas Gerais de 8/10/1968). Presidira a Companhia Nacional de Escolas da Comunidade (CNEC), de organização de ginásios gratuitos, e no exercício de seus dois mandatos parlamentares no Estado, por ocasião da tramitação desse projeto, específico, de criação do Colégio Estadual de Viçosa, presidia a Comissão de Educação da Assembléia Legislativa, função que exerceu durante oito anos. Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais pela Universidade do Brasil (RJ), exerceu também a advocacia entre 1938 a 1950, na Comarca de Viçosa. Nascido em Guiricema a 31 de dezembro de 1912, filho do farmacêutico Sebastião de Vasconcellos Barros e de Dona Maria Graça de Vasconcellos, descendente da família Bernardes, era casado com Dona Irene de Vasconcellos Barros e tiveram seis filhos. Veio para Viçosa aos 7 anos de idade, onde, antes de ingressar no Gymnasio de Viçosa, foi aluno da professora Rute Carneiro. Exerceu o magistério por meio século como professor na Universidade Federal de Minas Gerais, lecionando Jornalismo Agrícola, Estrutura Agrária Brasileira e Antropologia Social no Departamento de Economia Rural da Universidade Federal de Viçosa, onde coordenou o curso de mestrado em Sociologia Rural, professor ainda no Colégio Normal Nossa Senhora do Carmo, de Viçosa, e no Colégio de Viçosa. Doutor em Sociologia Rural pela Universidade Hebraica de Jerusalém, especialista em Planejamento e Desenvolvimento Rural, professor visitante na Universidade de Milwaukee (EUA), na Fundação Educacional para o Trabalho e pela Diretoria de Ensino do Exército Nacional, consultor para assuntos educacionais da Fundação Helena Antipoff, em Ibirité (MG). Prefeito de Ervália em 1947, foi também diretor técnico do Instituto Estadual de Florestas, presidente da Fundação Pandiá Calógeras, membro do Conselho Estadual de Cultura de Minas Gerais e do Conselho Curador da ULTRAMIG. Escritor, poeta e conferencista de renome internacional, pertenceu ao Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, ao Instituto Genealógico Brasileiro (SP), à Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais, às academias de letras de Divinópolis, Mariana e Viçosa, sendo detentor do.Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras em 1986 e ocupante da cadeira nº 37 da Academia Mineira de Letras. Publicou, além de livros científicos, milhares de artigos em jornais e revistas de circulação nacional sobre temas rurais, literários, políticos, econômicos, educacionais e sociais. O ex-deputado Edgard de Vasconcellos faleceu em Belo Horizonte, a 31 de maio de 2003.
Data de 12 de abril de 1971 o início do seu funcionamento do Colégio Estadual de Viçosa, na praça Silviano Brandão, onde até então fora a Prefeitura, propiciado pela Resolução nº 51/71, publicada em 30 de junho de 1971, tendo como primeiro diretor o Prof. David Procópio Loures Valle, secretariado pela professora Therezinha Mucci Xavier. Dentre outros destacados colaboradores, cite-se, de maneira especial, o Prof. Arlindo de Paula Gonçalves, então vice-prefeito municipal, a quem damos escorço biográfico noutra postagem deste blog. Da praça Silviano Brandão, em condições precárias, em prédio já demolido, transferiu-se para a Rua do Pintinho (antiga rua Tiradentes, no alto do bairro Bela Vista, outrora cognominada “Rua Seca”), graças a ampla campanha que encetou no Folha da Mata o jornalista Simão Cirineu Ladeira, em quatro artigos publicados em 1979, alertando para a deterioração do edifício, que passava a representar perigo para seus alunos. A campanha foi vitoriosa, pois foi construído, enfim, o novo prédio, onde, em seu vigésimo ano de funcionamento já atendia a dois mil alunos.



Effie Rolfs e Colégio Universitário



A 19 de março de 1965 foi criada a Escola Estadual Effie Rolfs, considerada um marco na educação do município. Construída por meio de um convênio entre a Universidade Rural do Estado de Minas Gerais (Uremg) e o Plano Nacional de Educação (PNE) do Ministério da Educação e Cultura (MEC), em 1966 foi criado o curso complementar em Viçosa, que funcionou neste estabelecimento, pelo qual tem passado, ao longo de sua trajetória, docentes do mais alto nível. Posteriormente, este curso foi anexado ao grupo escolar, sendo que os alunos que completavam a sexta série do ensino fundamental eram encaminhados para a segunda série ginasial. Em 1978, a escola ampliava o atendimento até a oitava série, quando também nela foi introduzido o pré-primário. Em 1986, o ensino foi estendido para o segundo grau, aumentando o fluxo de alunos de 400, por turno, para 505. A ampliação do atendimento, com educação geral, se deu em virtude da facilidade de acesso ao terceiro grau. Instituíram-se, também, o segundo grau profissionalizante com habilitação em magistério de primeira a quarta séries. Em 2010 a escola atendia a 1.480 alunos, distribuídos entre o ensino fundamental (nove anos), ensino médio e educação inclusiva, com sala de recursos e oficinas pedagógicas. Este é outro estabelecimento considerado e respeitado como modelo para todos os que lutam por um ideal e almejam o conhecimento, com brilhantismo, sempre conquistando novas grandes vitórias com a aprovação de seus alunos nos diversos exames para cursos superiores.
Já o Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Viçosa ou Colégio Universitário (Coluni), chegou a ser, por três anos consecutivos, considerado o melhor colégio público do país. A 26 de março de 1965, o Conselho Universitário da então Universidade Rural de Minas Gerais (UREMG) aprovou a criação de um Colégio preparatório para o vestibular, funcionando inicialmente em prédio de madeira, cedido pelo Departamento de Engenharia Florestal, recebendo somente alunos do 3º ano do ensino médio, tendo sido sua primeira turma formada em 1966, com 27 estudantes, todos aprovados no processo seletivo da UREMG. E desde 1983, com o expressivo número de aprovados, atendendo exigências legais, o colégio passou a receber alunos de todas as séries do ensino médio, sendo transferido para o pavilhão mais antigo do Colégio Nossa Senhora do Carmo, na rua Virgílio Val. Em 1989 foi inaugurado o prédio-sede do Coluni, no campus da UFV, obra do arquiteto Aguinaldo Pacheco. Em 2001 foi que tornou-se o Colégio de Aplicação, com seus alunos monitorados por estudantes dos cursos de graduação da UFV, e o desenvolvimento de projetos de extensão e iniciação científica. Foram os seguintes os percentuais de aprovação de seus egressos em vestibulares, em relação ao número de alunos participantes, conforme relatório oficial do educandário: Vestibular de 2006: Número de alunos: 159, aprovados, 123, aproveitamento, 77,3%; em 2007, número de alunos, 144; aprovados, 116, aproveitamento, 80,5%; em 2008, número de alunos, 156; aprovados, 117, aproveitamento, 75%; em 2009, número de alunos, 152, aprovados, 118, aproveitamento, 77,6%; em 2010m, número de alunos, 147, aprovados, 126, aproveitamento, 85,7%.



Grupo Escolar Cel. Antônio da S. Bernardes



Corria o ano de 1916 quando um mineiro de São Domingos do Prata, Dr. José Ricardo Rebello Horta, exercia o segundo de seus três mandatos de chefe do Executivo de Viçosa quando a educação de 1º grau foi institucionalizada na cidade. Era o ano de 1916 e o primeiro grupo escolar de Viçosa foi oficializado pelo Decreto nº 4.572 de 16 de março. Seu nome homenageia um ilustre português natural de Castanheira da Pêra: o advogado provisionado Antônio da Silva Bernardes. Viçosa contava, à época, 330 casas, sendo 2.000 os moradores da cidade. Foram matriculados, inicialmente, 320 alunos. A freqüência às escolas no município, abrangendo os pequenos distritos, era então de 1.350 estudantes. O velho “Grupo da Praça”, sediado no prédio 71 da rua Benjamim Araújo (antiga Rua do Comércio), foi instalado a 30 de setembro de 1922, na praça Silviano Brandão, e antes dele só existiam na cidade as escolas particulares, subvencionadas pelo poder público (conforme a legislação), isoladas, mistas ou unitárias, que funcionavam em casas de famílias como Soares, Silvino, Coelho, Loureiro, Galvão, Gonçalves, Mello e Sant’Anna, onde mestres-escola ensinavam algo além do ABC, das operações aritméticas básicas e do catecismo católico.
Em meados da década de 1920 contava 8 classes, num total aproximado de 600 matriculados. Tido como referencial de escola pública nos anos 70, foi o primeiro a contar, desde 1968, com supervisão pedagógica. Rute Carneiro, Nenzinha, Rita Val de Castro (Ritoca), Geraldina Sant'Anna Lopes Rosado (Genita), Carmita Pacheco, Aurita Saraiva, Argina Silvino Ferreira, Eny Tafuri, Anna Macário Soares (Donana), Antônia Soares Brandi, Dylia Pierri, Sylvia Del Giudice, Pe. Carlos dos Reis Baêta Braga (este último ali implantou o depois extinto Ginásio Santa Rita), João Batista Alves de Lima e Maria Val de Castro são apenas alguns dos poucos entre os muitos educadores que ali deram o melhor de seus conhecimentos e dedicação, e que se confundem com a rica história do primeiro Grupo Escolar de Viçosa.



Escola Normal



Em 1914, criada com o intuito de proporcionar à juventude feminina de Viçosa uma boa formação intelectual e moral, a Escola Normal, depois Colégio Carmo (este último nome desde 2005, quando foi extinto o Curso Normal), teve a sua direção ofertada às Carmelitas da Divina Providência, de Cataguases (MG), em carta subscrita pelo Dr. Emílio Jardim de Resende em 1916, endereçada a Irmã Bernardete, superiora da Congregação religiosa. Eis um excerto da correspondência do Dr. Emílio, que ensejou a oferta da direção do educandário:

"Viçosa, 6 de agosto de 1916.

Excelentíssima Irmã Bernadete,

Aproveito o ensejo para comunicar a Vossa Excelência que temos desejo de transferir a nossa Escola Normal, que funciona aqui na forma de externato e é comparada as oficiais, a alguma congregação religiosa que teria o nosso apoio e auxílio e a receberia sem ônus, podendo dar-lhe a forma de internato, aliás condição para a sua prosperidade. Não aceitaria Vossa Excelência essa transferência?

Emílio Jardim de Resende"

Irmã Maria Verônica de Santa Face foi a primeira freira a dirigi-la, em 1917. A pedra fundamental do pavilhão de dois andares, na rua Virgílio Val, 118, foi lançada em 1936, tendo ele sido orçado, na ocasião, em 133 contos, 471 mil réis. Nele funcionaram internato, ginásio e um curso de formação de professoras, além de cursos noturnos de 1º e 2º graus. Depois passou a ministrar o Ensino Infantil, Fundamental e Médio. No vicariato de Pe. Frei Seraphim Pecci, em 1919, o estabelecimento de ensino foi instalado no prédio construído em 1895 para sediar a Fábrica de Tecidos de Santa Maria, ao lado do referido pavilhão da rua Virgílio Val. Quando ainda era sediado anexo ao Ginásio de Viçosa, no prédio público do Grupo Escolar, onde se ergueu depois o edifício da Caixa Econômica Federal, na praça Silviano Brandão, teve como professores pioneiros os doutores Antônio Gomes Barbosa, Heitor do Nascimento e Emílio Jardim, tendo sido primeiro diretor o professor Alípio Peres. A Escola Normal de Viçosa foi instituída pelo Decreto nº 5.108, de 27 de janeiro de 1914, no governo de Júlio Bueno Brandão. Em 1917 por iniciativa do Dr. Emílio Jardim de Resende e do Dr. Arthur da Silva Bernardes, desejosos "de proporcionar à mocidade feminina de Viçosa uma formação intelectual e moral consentânea com as exigências sociais e religiosas da missão que lhe é destinada", conforme o jornal Luz do Carmelo, a Escola Normal passou à direção das Freiras Carmelitas.
Do âmago da Escola Normal é que surgiu a Escola Estadual Madre Santa Face, instituída pelo Decreto Estadual nº 6.564 de 11 de março de 1963, pelo governador José de Magalhães Pinto. Antes de se criar o cargo de diretora, sua coordenadora foi a Irmã Edwiges, carmelita da Divina Providência. O estabelecimento veio atender às estagiárias do Curso Normal, inicialmente com quatro turmas (de 1ª a 4ª séries), e desde 1970 o modelar estabelecimento de ensino, que funcionou até a década de 1980 anexa ao Colégio Normal, foi dirigido inicialmente pela Irmã Marlene Soares Vidigal, da referida Congregação religiosa (1970-1986), e partir de então, quando passou por grandes dificuldades, funcionando em casa alugada, teve à sua frente a professora Maria de Lourdes Sant'Anna Castro, até 1991, mestra que marcou época à frente do educandário, inclusive como regente do Coral "Pequenos Cantores de Viçosa", que sempre se apresentou impecavelmente, com seu uniforme (colete vermelho, calça azul-marinho, camisa branca de mangas compridas e gravata-borboleta), nas mais diversas solenidades cívicas, culturais e religiosas, constituindo-se numa das mais destacadas atividades da escola cujo nome homenageia a primeira diretora da Escola Normal de Viçosa a partir de 1917, Me. Maria Verônica de Santa Face. Naquela sua fase de lutas por uma sede própria, foi realmente muito grande a garra e o empenho de "Tia Lourdinha" e equipe, que contou com o apoio do ex-prefeito Antônio Chequer, empresários locais e também do Lions Clube de Viçosa, que colaboraram para que o sonho se tornasse uma realidade, hoje instalada na rua Dona Getrudes, nº 75.
Mantendo em seu quadro funcionários competentes, responsáveis e comprometidos com uma educação de qualidade, a Me. Santa Face sempre valorizou os conteúdos transversais, dedicando-se, extra-turno, o seu corpo docente e funcionalismo, a meticuloso planejamento e estudo para proporcionar sempre o melhor atendimento aos seus alunos, resultando tal trabalho, dentre outros prêmios, no reconhecimento de ser uma das 50 melhores escolas do gênero em Minas Gerais, título justamente conquistado em 2006, ao concorrer com nada menos que 4.000 outros estabelecimentos do
Estado.



CENTEV, antiga Escola Agrícola


Sofrendo diversas transformações em sua filosofia pedagógica ao longo de sua existência, até que fosse transformada no Núcleo de Desenvolvimento Social e Educacional Arthur da Silva Bernardes, vinculado ao Centro Tecnológico de Desenvolvimento Regional de Viçosa (CENTEV), instituído em 2001, onde se encontra em fase de implantação o Parque Tecnológico de Viçosa, cujas atividades se iniciaram em 1995, quando foi transferido pela Prefeitura Municipal o patrimônio da extinta Escola Agrícola Arthur Bernardes para a Universidade Federal de Viçosa, ali funcionam na atualidade uma Vaca Mecânica, produzindo leite de soja, distribuído à comunidade pela Secretaria Municipal de Assistência Social, produzem-se mudas de eucalipto e café pela Secretaria Municipal de Agricultura e Meio Ambiente, atendendo a pequenos agricultores de Viçosa, há o projeto Crescendo (educação esportiva), a APAE-Rural e o curso de marcenaria que funcionava desde 1993, hoje em parceria com a Sociedade São Vicente de Paulo (SSVP) e o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI). Em 1918, dentro de ações previstas na política de atendimento dos direitos da criança e do adolescente, Viçosa instituiu a sua organização governamental para seu acolhimento. Diferentemente da época atual, em que faltam instituições que trabalhem programas sócio-educativos nas cidades limítrofes a Viçosa, naquele ano, por força do Decreto-Lei nº 12.983, de 28/2, na antiga Fazenda da Vargem, em Novo Silvestre, uma grandiosa edificação, hoje sede da Incubadora de Empresas de Base Tecnológica, ligada à UFV, foi o espaço onde se ministrou ensino técnico-agrícola em nível de 1º grau, cursos supletivos, formação ética, física e intelectual a crianças e adolescentes, como internato, semi-internato e externato. Antes de ser patrimônio da Universidade Federal de Viçosa, era ligado, na década de 1980, à Secretaria de Estado da Educação, tendo sido Centro Brasileiro para a Infância e Adolescência (CBIA), depois Divisão Educacional (Deaab). A partir dos anos 40 foi a Escola Agrícola Arthur Bernardes (EAAB). Em 1964 era unidade local da Fundação Nacional do Bem Estar do Menor (Funabem).
Sua pedra fundamental foi lançada a 1º de junho de 1926, sendo inaugurado a 7 de novembro de 1927. Criado pelo Decreto-Lei Nº 12.983 de 28 de fevereiro de 1918, como Patronato Agrícola, inicialmente jurisdicionado pelo Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio, depois pelo Ministério da Justiça e Negócios Interiores e também pelo Serviço de Assistência a Menores (SAM), seu primeiro diretor foi Carlos de Araújo Moreira, pai do ex-prefeito de Viçosa, Dr. Cyro Bolivar de Araújo Moreira, de saudosa memória. A escola teve os seguintes dirigentes, em suas fases várias: Anna da Conceição Saraiva Brandi (Dona Nanete), Arthur Pereira da Silva, Claudeni Siridol Pereira, Flávio Sodero Toledo, Gilson Cerny, Irmão Leão de Maria (da Congregação dos Lassalistas), José Américo Garcia, José Ferreira de Lima, Luiz da Rocha Vianna, Paulo Tadeu de Leite Arantes, Sérgio Carlos Botelho Padim e Vera Sônia Saraiva (Dona Verinha).



Tiro-de-Guerra



Desde 1934 funcionara anexo à Esav a Escola de Instrução Militar, que pela Portaria Ministerial nº 1696 de novembro de 1946 se transformou no Tiro-de-Guerra nº 04-162, mudando para TG 04-027 em 1979, quando passou a ser ligado ao Comando Militar do Lesta da 4ª Região Militar. Estabelecido desde a década de 1960, na Rua do Pintinho, 199, bairro Bela Vista. O engenheiro-agrônomo, professor universitário e tenente Waldemar Raul Kümmel, foi seu primeiro instrutor. Nome legendário, incorporado à atual sede da unidade, Kümmel ministrou formação física, militar e cívica à juventude viçosense. Descendente de alemães, gaúcho de Santa Maria (RS), nasceu a 22 de fevereiro de 1908. Chegou em Viçosa a 10/12/1930, quando assumiu as escolas de instrução militar, a nº 257, a partir de 1934, na Esav, quando seu diretor era o Dr. João Carlos Bello Lisboa; e a nº 126, do Gymnasio de Viçosa, na praça Silviano Brandão, 136. Até 2009 haviam sido seus chefes de instrução os seguintes militares: 2º tenente Waldemar Raul Kümmel (1934), subtenente José Ribamar Flaviano Corrêa (47-48), subtenente Eugênio Alberto Lage (48-54), 2º sargento Salathiel Clévio Lobato (55), 1º sargento Círio Dias Ferraz (45-59), 1º sargento Wilson de Castro (59-66), 2º sargento José Alves da Costa (66-67), 2º sargento Edjalma Alves Ramos (67-69), 2º sargento Manoel Luís Parreiras (70-71), subtenente Guido Aparecida Ferreira (71-81/87-88), subtenente Pastor Lucas Martins (81-87), subtenente Lourival Pereira (87-91), 1º sargento Geraldo Magela Teixeira (91-92), 2º tenente Atalides Nunes dos Reis Filho (92-93), subtenente José Carlos de Freitas (94-97), subtenente Jaime Faustino da Costa Filho (97-2001), 1º sargento Jorge Henrique Renzler Fraga (01-02), 1º sargento Jorge Augusto Guterres de Castro (02-04), 1º sargento Lismar José Puccinelli (04-05), Oriel Carlos Cruz (05-08) e Osmar Ribeiro Júnior (08-09).



ESAV - UREMG - UFV: a "Escola de Viçosa"



Viçosa planta culturas agropecuárias e científico-tecnológicas e por isto está a colher merecidos carinhos. Aqui já se ensinavam, anualmente, conforme dados estatísticos de 2006, 40.500 a estudar, saber, agir e vencer. Uma incipiente agroindústria e a produção rural fizeram a economia desta cidade, até a década de 1920, quando ainda não sediava órgãos de pesquisa e assistência na área agropecuária. Mas a tão propalada "indústria do ensno" teve início, sem dúvida, com a inauguração do Gymnasio de Viçosa, em 1913. Antes disso eram as escolas particulares, como, por exemplo, o Colégio Baptista, de efêmera existência, criado ainda no século XIX.
Desde que fora colonizada pelos aventureiros portugueses à procura de ouro, e que aqui deixaram famílias que se dedicaram à agricultura para abastecer Ouro Preto e adjacências, o massapé das encostas de Viçosa foram aproveitados apenas para a agricultura de milho,feijão e café - esse último tendo representado por muitos anos a maior fonte de renda municipal - mas com o decurso dos anos, os antigos agricultores, sem nenhuma técnica, deixaram que a erosão levasse todo o subsolo, deixando uma das produções mais baixas de todo o país: milho 1.200 quilos por ha., feijão, 300 quilos por ha., café 20 arrobas por mil pés. Portanto, a nossa agricultura quase não existia e como as terras são péssimas para pastagem sempre tivemos uma pecuária muito pouco desenvolvida. De acordo com informações, a produção cafeeira de Viçosa em torno de 1905 era de 38.000 arrobas, produzidas em pequenas propriedades. Em 1913 essa lavoura já havia diminuído muito, dado o baixo valor do
produto: cinco mil réis o saco. Em 1938 o café desapareceu da região.
Os antigos administradores municipais, não querendo ou não comprendendo que a economia local se esfacelava, não industrializaram Viçosa, deixando-a se tornar uma cidade pobre em agricultura e pecuária e sem indústrias, que aqui existiam, como as fábricas de tecidos São Silvestre e Santa Maria, a Usina Santa Rita, no antigo Pau-de-Paina, na Segunda década do século XX, a Indumel, de melaço em pó, no distrito de Silvestre, implantada na década de 1970 e que se foi na década de 1990, a usina de álcool, na década de 1940, nas proximidades do atual distrito de São José do Triunfo, todas consideradas atualmente como erros de estratégia, iniciativas precocemente implantadas. Outras foram aquelas que aqui poderíamos ter, como a Pif-Paf Alimentos. Muitas não encontraram o necessário apoio. Outras não suportaram exigências fiscais. Por tudo isto cerraram as suas portas. Portanto, grande parte do povo viçosense continuava vivendo, no início do século XXI, ainda que indiretamente, quase que exclusivamente dos frutos da Universidade Federal de Viçosa (UFV).
Desde a década de 1960 foi significativo o êxodo das pequenas cidades da microrregião de Viçosa em busca de trabalho, acelerando o processo de favelização da periferia urbana. Por outro lado, os estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná, dentre outros, tornaram-se verdadeiros "importadores de viçosenses," fato notório e relatado nas crônicas locais já naquela década. Refletindo o Brasil, à exceção de sua
construção civil, sua maior força econômica, Viçosa, sob certos aspectos, tornou-se uma cidade subdesenvolvida, semelhante ou pior do que muitas urbes nordestinas.
Assim com sua agricultura de subsistência, a pecuária que é sobretudo leiteira, indústrias de pequeno porte na área de confecções e móveis artesanais, além do modesto Distrito Industrial da Barrinha e região da antiga Colônia Agrícola Vaz de Mello e com um comércio que ainda quer se fortalecer (e iniciativas não faltam por parte das entidades ligadas às classes empresarial e operária), não resultaram em vantagem competitiva para o município aludidas parcerias com instituições estaduais e federais em busca de um planejamento para a atração de empresas para o município, com a preocupação de constituir um sistema produtivo integrado. Eram ainda quase inexistentes, nos alvores do século XXI, as empresas que quisessem se candidatar à instalação no município, ou que pudessem contar com algum tipo de subsídio ou incentivo, tais como isenção de impostos, terrenos a baixo custo, dentre outros serviços. A verdade é que nunca existiu, até então, em Viçosa, uma política global de promoção do desenvolvimento econômico e social, orientado para a geração de emprego e renda para setores sociais de baixa renda, marginalizados do denominado núcleo central do processo produtivo da economia regional.
Mas é em Viçosa que existe uma das melhores e mais importantes universidades de todo o Brasil, com 11.544 alunos, conforme dados estatísticos do ano de 2007 (9.838 graduandos e 1.706 pós-graduandos), 779 docentes e nada menos que 2.511 funcionários. Seus pesquisadores compõem Câmaras Setoriais do mais alto nível científico graças à competência e ao esforço conjunto que lhe proporcionaram uma extraordinária evolução em vários aspectos, inclusive no desenvolvimento regional e na educação aberta e a distância. De fato, “Estudar, Saber, Agir e Vencer” é o seu consagrado lema. Seus cursos, até 2009, eram os seguintes: Administração, Administração de Empresas, Agronomia, Agroquímica, Arquitetura e Urbanismo, Biologia Animal, Biologia Celular e Estrutural, Bioquímica, Bioquímica Agrícola, Botânica, Ciência da Computação, Ciência da Nutrição, Ciência e Tecnologia de Alimentos, Ciência Florestal, Ciências Biológicas, Ciências Contábeis, Ciências Econômicas, Comunicação Social/Jornalismo, Dança, Direito, Economia, Economia Doméstica, Educação Física, Educação Infantil, Engenharia Agrícola, Engenharia Agrícola e Ambiental, Engenharia Ambiental, Engenharia Civil, Engenharia de Agrimensura, Engenharia de Alimentos, Engenharia de Produção, Engenharia Elétrica, Engenharia Florestal, Engenharia Mecânica, Engenharia Química, Entomologia, Estatística Aplicada e Biometria, Extensão Rural, Física, Física Aplicada, Fisiologia Vegetal, Fitopatologia, Fitotecnia, Genética e Melhoramento, Geografia, Gestão de Cooperativas, Gestão do Agronegócio, História, Letras, Matemática, Medicina, Medicina Veterinária, Meteorologia Agrícola, Microbiologia Agrícola, Nutrição, Pedagogia, Química, Secretariado Executivo (trilíngüe), Solos e Nutrição de Plantas e Zootecnia. Esses sessenta cursos já se somavam, em 2008, aos das faculdades particulares viçosenses: a Escola de Estudos Superiores de Viçosa (Esuv), com seus cerca de 700 alunos cursando de Direito, Ciências Sociais e Ciências Contábeis; a Unopar, na área de Administração de Empresas (cursos de curta duração e à distância), com cerca de 300 alunos; a Faculdade de Viçosa (FDV), com aproximadamente 350 estudantes em seus cursos de Administração (com ênfase em Comércio Exterior e Gestão de Negócios), Pedagogia e Sistemas de Informação; e a Univiçosa, com aproximadamente 800 alunos freqüentando aulas de Enfermagem, Fisioterapia, Nutrição, Farmácia, Medicina Veterinária e Psicologia, e os cursos 100% presenciais e de curta duração de Redes de Computadores, Marketing, Gestão Financeira, Gestão de Pequenas e Médias Empresas (Processos Gerenciais), Gestão Ambiental e Comércio Eletrônico (Sistemas para internet).

Uma instituição pioneira

Inaugurada a Esav em 1926, a lei que a regulamentou já objetivava o curso de especialização para os pós-graduados, com a duração de dois anos. No dia 1º de agosto de 1927 foi feita solene abertura dos cursos, com a presença dos 4 primeiros professores, P. H. Rolfs, Bello Lisboa, Diogo Melo e A. Rehag. Pioneira na extensão agrícola em grande escala, no Brasil, em 1929, com a 1ª Semana do Fazendeiro favorecera, até 2005, 405.371 pessoas. Em 1928, sua primeira biblioteca funcionava em uma sala do Edifício Principal, hoje Arthur Bernardes, e atualmente em um moderno e funcional edifício, que abriga um acervo de 243.997 publicações, sendo 132.603 livros. Em 2006 já se somavam em 1.318 os doutores formados em Viçosa. Com 36 cursos de graduação, 27 programas de pós-graduação, lecionados por 61 pós-doutores, 543 doutores, 166 mestres, 16 especialistas e 54 graduados. Uma freqüência de 13.134 estudantes dos mais diversos níveis. A instituição federal de ensino superior somava, no mesmo ano, 59.859 trabalhos científicos dela originários e 5.670 mestres dela egressos.
Ao mérito de grandes homens, a fecundas existências, se devem honras pela excepcional munificência da Escola de Viçosa em seus mais variegados setores. Da trajetória esaviana à ufeviana, são muitos os cidadãos, brasileiros e estrangeiros, que ocuparão sempre páginas de relevo, por terem sido os marcos vivos de uma luta plena. A Escola, de fato, evoluiu com firmeza. Formou, em 1931, seus primeiros agrônomos, então já reconhecida no exterior como instituição de Ensino Superior, por países como Portugal, Bélgica, Itália, Alemanha, Espanha, Inglaterra e também pelos Estados Unidos da América do Norte. Em 1935, ano em que formou seu primeiros veterinários, a Esav foi oficializada pelo presidente Getúlio Dornelles Vargas no Decreto 112, de 4 de abril, após ter adquirido, quatro anos antes, nova organização e regulamentação, autonomia didática e administrativa, pelo Decreto Estadual 10.054, de 1931. Cumprindo determinação do presidente Arthur da Silva Bernardes, e por intermédio do embaixador do Brasil em Washington, José Cochrane de Alencar, foi conseguida a feliz indicação, por meio do Departamento de Estado dos Estados Unidos da América do Norte, do diretor do Florida Agricultural College, em Gainesville, Bachelor of Science, Master of Science e Doctor of Science Peter Henry Rolfs, para trabalhar no planejamento e depois assumir a primeira direção da Escola Superior de Agricultura e Veterinária (ESAV) de Viçosa. A bordo do vapor Huron, ele chegou em terras brasileiras, na cidade do Rio de Janeiro, no dia 4/2/1921, cabendo-lhe a honra de içar, pela vez primeira, no atual campus da Universidade Federal de Viçosa, a bandeira nacional. Dr. P. H. Rolfs, hoje nome do prédio da Reitoria e de uma das principais avenidas viçosenses, foi partícipe direto da comissão para a escolha do local em que a futura UFV seria implantada, tendo supervisionado todo o seu planejamento, construção e estruturação. Foi dela o primeiro diretor, desde 1927 até o dia 1º de fevereiro de 1929, quando a deixou, para assumir a consultoria técnica de Agricultura de Minas. Dr. Rolfs, o pioneiro, faleceu nos Estados Unidos em 1944. O que é hoje a monumental UFV teve portanto, como sua célula mater, a Esav, uma “Filha da Universidade da Flórida”, pois que o ensino nela ministrado, em seu primórdios, em regime semestral, seguiu o método agrícola americano.
Para que fosse edificada, um descendente do Duque de Caxias e do Almirante Tamandaré, o agrimensor e engenheiro civil João Carlos Bello Lisboa, falecido em 1973, aos 81 anos, em Belo Horizonte, foi o especial contratado do governo mineiro. Jovem fluminense de Vassouras (Ipiranga), com inimitável organização e apurada técnica, ele comandou, com o apoio de 600 operários, e o dispêndio de 3.054 contos de réis, o surgimento de prédios e da colossal infra-estrutura inicial da instituição que, em 1927, iniciara suas atividades com 2 cursos médios (5 professores e 15 alunos). Docente do Instituto Propedêutico de Ponte Nova, formado pela Academia do Comércio de Juiz de Fora e pela Politécnica do Rio de Janeiro e contador, foi da UFV um dos pilares. Secretário da Indústria e Comércio (RJ), prefeito de Ubá e Uberaba, ele foi também sustentáculo do progresso da Viçosa para além do campus, pois acumulou, enquanto diretor da ESAV, a direção financeira do extinto Colégio de Viçosa. Ter sido homenageado como “O Esaviano nº 1”, em 1942, foi sua consagração, na 14ª Semana do Fazendeiro, uma de suas grandes criações. Pioneira na extensão agrícola em grande escala, no Brasil, a criação da Semana do Fazendeiro em 1929 proporcionou favorecer, até 2005, a 405.371 cidadãos, num balanço de quase oito décadas.

A locação

Reunindo excelentes condições, conforme parecer do Dr. Álvaro da Siqueira, a Fazenda Maria Luíza foi indicada para instalação da Escola Superior de Agricultura e Veterinária (Esav), que hoje se desdobra em Fundação Universidade Federal de Viçosa. A 24 de janeiro de 1921 ele escreveu: “Dos terrenos que visitei nas vizinhanças de Ubá, Visconde do Rio Branco, Viçosa e Ponte Nova, prestam-se, a meu ver, melhor os situados a pequena distância de Viçosa. Há uma parte em vargem não brejosa e outra parte em morros mais ou menos íngremes, mas que, em alguns lugares, são arados. Não é necessária propriamente a aquisição de todo o vale do Córrego do Paraíso, pois me parece que a extensão de terra indicada é suficiente para os trabalhos da futura Escola: entretanto, para a irrigação da vargem situada à margem direita desse córrego será precisa a água tirada bastante alta desse mesmo córrego, e por isso não seria fora de propósito a compra de todo o terreno compreendido da bacia até as cabeceiras. Além de tudo, a área total da bacia não é demais grande. Parece-me que a sede da Escola não ficaria mal no ponto do esboço. Daí à cidade tem cerca de um quilômetro e meio, bastando, para que até aí seja fácil o acesso, que se melhore a travessia do córrego S. Bartolomeu, com a construção de nova ponte suficientemente elevada, para a grade da estrada a declividade compatível com o tráfego de automóveis ou bondes’.
Adquirida das famílias Ferreira da Silva, Lopes Rosado, Gonçalves Guimarães, Pacheco, Vitarelli, Machado, Massena, Vieira e Alencar, aquela parcela do solo viçosense recebeu a pedra fundamental da ESAV a 10 de junho de 1922, ato a que se seguiram o trabalho colossal de sua edificação comandada pelo engenheiro-chefe Dr. Honório Hermeto Corrêa da Costa e a adoção dos princípios “Ciência e Prática” e “Aprender Fazendo”., integrante da trilogia “Ensino, Pesquisa e Extensão”. Conforme a planta dos terrenos da velha Esav, sob responsabilidade técnica de Benedito Quintino dos Santos, datada de 15 de setembro de 1921, erigiram-se a residência do vice-diretor, um modesto escritório de construção, um dormitório e o prédio principal. Uma primitiva casa de fazenda se ergueu à esquerda da via férrea, onde depois se construiu a Vila Matoso, no campus universitário. Era o começo da existência de toda uma rica infra-estrutura de uma Universidade Federal que entregaria ao mundo, ainda na década de 1960, os 2 primeiros Magister Scientiae brasileiros na área agrícola. No dia 19/9/1926 o jornal Cidade de Viçosa noticiava a festa de inauguração da Escola Superior de Agricultura e Veterinária (Esav): “Inaugurou-se no dia 28 de agosto, com a presença de altas autoridades estaduais e federais, a Escola Superior de Agricultura e Veterinária, que veio marcar uma verdadeira época de renascimento para o Estado e, particularmente, para Viçosa. Esse notável empreendimento, devido ao tino superior de estadista do nosso benemérito conterrâneo Dr. Arthur da Silva Bernardes, pôs em foco não só a competência técnica do jovem e talentoso engenheiro patrício Dr. João Carlos Bello Lisboa, que dedicou toda a sua atividade e todo o seu carinho à execução dessa Escola, feita com a maior economia, pois não excedeu os 1300 contos a construção de seu edifício principal, sendo computado em menos de 3000 contos o preço total das obras, incluindo-se cerca de 100 hectares de excelentes terras”.

Os primórdios e a evolução

Na instituição que veio a ser a UFV o primeiro Curso Superior foi iniciado a 1º/3/1928, quando os ensinos Elementar e Médio já existiam. De lá até aqui, foram longos anos de “lutas, glórias, crises, risos, sofrimentos e vitórias”.
Assinada pelo governador Dr. Milton Soares Campos, a Lei 272, de 13 de novembro de 1948, criou, composta de escolas superiores de Ciências Domésticas, Agricultura, Veterinária, de serviços de experimentação, extensão e pesquisa e de uma escola de Especialização, a Universidade Rural do Estado de Minas Gerais (Uremg). A 15 de novembro de 1949, o Decreto 3.211 a declarou instalada em Viçosa. Por força da Lei 2.470, de 28 de abril de 1955, a instituição passou a contar com subvenções federais. Uma conseqüência natural da evolução da velha Esav, que conquistara largo reconhecimento desde seus primórdios. A partir de 1962, um surto progressista se verificou na Uremg e na ESA, no governo de José de Magalhães Pinto. Multiplicaram-se os alunos e as vultosas obras, desenvolvendo-se inestimáveis projetos em setores os mais diversos. Na primeira das três administrações do reitor Antônio Fagundes de Sousa (1974-78), extraordinário foi o crescimento nos contextos administrativo e de valorização de recursos humanos. Em março de 74 eram 36 os auxiliares de ensino, 84 os professores-assistentes (57 adjuntos e 9 titulares), perfazendo o total de 186. Dificuldades financeiras do Estado levaram o Governo Mineiro a postular a sua federalização, e o passo inicial neste sentido foi um convênio assinado com a União, no governo de Israel Pinheiro, a 10 de abril de 1969.
Com o registro do Decreto 64.825 no Cartório de Registro Civil de Pessoas Jurídicas, em Belo Horizonte, a Universidade passou a existir como pessoa jurídica de direito público ainda em 1969.O primeiro reitor da Universidade Rural foi um preclaro mineiro nascido em 1910, filho de Visconde do Rio Branco, Prof. Joaquim Fernandes Braga, reconhecido como “um dos mais finos espíritos” que passaram pela Uremg, falecido em 1963, aos 52, em BH, que permaneceu no comando da Uremg entre 1949 e 1953?6?. Até 2005, foram seus sucessores Joaquim Fernandes Braga (49-56), Antônio Vieira Machado (56-57 – pro tempore), Lourenço Menicucci Sobrinho (57-59), Geraldo Oscar Domingues Machado (59-62), Flamarion Ferreira (62-64), Edson Potsch Magalhães (64-66/66-69/69-71- UFV), Geraldo Martins Chaves (66 pro tempore e 84-88 – UFV). UFV: reitores – Erly Dias Brandão (71-73), Renato Sant’Anna 73-74 – vice-reitor em exercício), Antônio Fagundes de Sousa (74-78/82-84/88-92), Paulo Mário Del Giudice (78-81), Joaquim Aleixo de Souza (81-82 – vice-reitor em exercício), Cid Martins Batista (88 – vice-reitor em exercício), Renato Mauro Brandi (92 – vice-reitor em exercício), Antônio Lima Bandeira (92-96), Luiz Sérgio Saraiva (96-2000), Carlos Sigueyuki Sediyama (2000 – vice-reitor em exercício / 2004-2008 - reitor), Evaldo Ferreira Vilela (2000-2004) e Fernando da Costa Baêta (2004 – vice-reitor em exercício). E antecessores, na Esav, os diretores Peter Henry Rolfs (1927-29), João Carlos Bello Lisboa (29-36), Sócrates Renan de Faria Alvim (36-39), John Benjamim Griffing (36-39), José de Mello Soares de Gouveia (39-40/44-46), Geraldo Gonçalves Carneiro (40-44), Diogo Alves de Mello (46-47 – pro tempore) e Antônio Secundino de São José (47-51). Em março de 78, a Universidade já contava com 170 auxiliares de ensino, 99 professores-assistentes (75 adjuntos e 109 titulares), totalizando 453 professores.
O primeiro professor catedrático da Uremg foi o Dr. Edson Potsch Magalhães, que com obras e trabalhos científicos cooperou extraordinariamente para a modernização e desenvolvimento da instituição, tendo sido partícipe direto das discussões que transformaram a Esav em Uremg e da Uremg em UFV. A federalização ocorreu a 8 de maio de 1969. Reitor por três mandatos, foi um dos responsáveis, ao lado do viçosense Dr. Arthur Bernardes Filho, pela federalização da instituição, ocorrida a 8 de maio de 1969. Dr. Edson, conforme realçou LADEIRA (nº?)“em 1944 vai para os Estados Unidos fazer pós-graduação e, em Cornell, torna-se amigo do Dr. Frost F. Hill, Chefe do Departamento de Economia Rural e que mais tarde assume posição de relevo na Fundação Ford. A amizade propicia uma série de doações à instituição, que começaram em 1952, com a construção do edifício do Instituto de Economia Rural e a criação do Curso Superior de Economia Doméstica e se estenderam até 1970. Inúmeras outras doações, tipo da Fundação Rockfeller e convênios como o de 1952 e 1973, com a USAID-Purdue em programas de pós-graduação, explicam o desenvolvimenot fantástico da UREMG, que vai tornar-se a UFV, com Dr. Edson reitor de 1964 a 1971!
Em síntese, consolidou a passagem da ESAV para a UREMG e expandiu a UREMG, criando todas as condições de fazê-la a UFV, uma das mais conceituadas instituições de ensino superior da América Latina.
Entre tantos professores e professoras, servidores e servidoras, que foram ou que continuam construtores desta instituição modelar – neste desenlace de tantas décadas depois dos pioneiros – ninguém nega que Edson Potsch Magalhães, seu primeiro catedrático, sempre se ombreou a Peter Henry Rolfs e a João Carlos Bello Lisboa, pilares da instituição”. (Legado Magnífico) Sempre Viçosa (págs. 94 e 95 - Folha Artes Gráficas - 2009).
Um dos maiores benfeitores do município de Viçosa foi, sem dúvida o Dr. Arthur Bernardes Filho, aqui nascido a 16 de setembro de 1905. Diz o Padre Antônio Vieira numa de suas mais famosas orações fúnebres que a memória dos homens é tão volúvel que são pouquíssimos aqueles que são lembrados após a missa de trigésimo dia. Lamentavelmente, é forçoso dizê-lo, na cidade natal de um grande nome da política nacional, Viçosa, não houve nenhuma comemoração oficial, pela municipalidade, pelo transcurso de seu centenário. Filho do ex-presidente Dr. Arthur Bernardes e de Dona Clélia Vaz de Mello Bernardes, aluno do extinto Gymnasio de Viçosa, tendo cursado o secundário também no Colégio Anchieta e no Colégio Aldridge, Bernardes Filho se formou pela Faculdade de Direito de Minas Gerais. Agricultor, empresário e banqueiro, dentre os cargos de alto relevo que exerceu em sua vida de homem público, foi secretário particular da Presidência da República (1923-1926), ministro da Indústria e Comércio no efêmero governo de Jânio Quadros, deputado constituinte (1933 a 1934), deputado federal (1935 – 1937/1946 – 1947), senador (1947 – 1951/ 1951 – 1956) e vice-governador de Minas Gerais (1956 – 1961), foi exilado em 38, tendo permanecido no exílio até o início da 2ª Guerra Mundial. Fundador e presidente da Eletromar por 38 anos, foi Senador, eleito em 1946, reeleito em 1950, cumprindo mandato até 1958. Foi de sua autoria a emenda, aprovada, ao Orçamento da União, que ao Estado de Minas Gerais foi propiciado receber indenização do governo federal pela incorporação da antiga Rede Mineira de Viação. Membro do diretório nacional da Aliança Renovadora Nacional(Arena), presidiu o Partido Republicano (PR) até o advento da Revolução de 1964. Ele faleceu em 21 de setembro de 1981, na cidade do Rio de Janeiro. Ao compulsarmos os anais das casas do parlamento federal, deparamos com registros de uma prolífera atuação de Bernardes Filho. Em homenagem à sua memória, aqui trazemos à recordação, este simples registro, que é de sua autoria o projeto de lei que culminou na assinatura, pelo presidente da Câmara dos Deputados no exercício do cargo de presidente da República, Carlos Coimbra da Luz, da Lei nº 2.470, de 28 de abril de1955, facultando à Uremg, beneficiada pela federalização, a condição de entidade subvencionada. Tal decreto determinou uma consignação anual à Uremg de uma subvenção não inferior a nove milhões de cruzeiros, trazendo extraordinário progresso para o seu torrão natal, conseqüência da extraordinária ampliação que então se pôde efetivar da conceituada instituição federal de ensino superior.
As palavras seguintes são profundamente esclarecedoras. Bernardes Filho foi de fato uma figura ímpar. É o Dr. Tancredo de Almeida Neves quem o descreve, aqui, com raro brilho. Para Tancredo, havia em Bernardes Filho, "em contraste com a forte personalidade de seu progenitor, a universalidade do seu espírito, forrado de liberalismo, tolerância e compreensão. A firmeza de suas convicções e a intransigência com que as ostentava e defendia não excluíam dele a cordialidade no trato, a elegância das atitudes e a requintada fidalguia dos seus gestos altivos e generosos, que expressavam a sua grandeza d'alma. Percorreu, com irrepreensível dignidade, rara competência e acurado espírito público, todos os patamares da vida pública, que foi, para ele um longo e devotado exercício de abnegação, dedicação patriótica e de permanente e integral serviço à causa da democracia brasileira... Como chefe partidário foi elemento de decisiva importância na eleição de Juscelino Kubitschek para o Governo de Minas e, depois, na sua ascensão à Presidência da República. Quando dos trágicos acontecimentos que levaram Getúlio Vargas à anuidade e à história, amigo íntimo que era do Presidente Café Filho, a sua palavra, as suas ponderações e os seus conselhos foram da maior importância para o arrefecimento das paixões e ódios que, naquela conturbada quadra, expuseram a Nação a todos os riscos e perigos de uma luta fraticida... Era um político diferente. Exercia uma ação constante construtiva e da maior eficiência nos planos ocultos da política. Não gostava de se mostrar. A ostentação não era o seu forte. Preferia o lusco-fusco de uma atuação fecunda e criadora, dando-se por bem gratificado pelos malefícios que evitava, as incompreensões que corrigia e a desprendida contribuição que trazia para a solução dos graves problemas do momento. Não era, na maioria das vezes, personagem de proscênio, exibindo títulos, serviços ou vaidades, mas, ao contrário, preferia o fundo do palco, para agir com mais desenvoltura e melhor realizar e construir, longe da vista da vulgaridade... O homem social era exemplar. A finura de sua educação, os seus dotes de inteligência, a sua abrangente cultura literária, faziam dele a companhia que todos reclamavam e disputavam. Era o causer fascinante pelas frases cuidadas e chistosas, a graça dos seus ditos e a crítica suave, sem malícia e perversidade, das situações ridículas e da mediocridade vistosa.
Secretário da Presidência da República, no Governo do seu pai, Constituinte, Deputado Federal, Senador, Vice-Governador de Minas, Ministro de Estado, escreveu opulenta biografia na qual se honra, na mesma medida em que engrandeceu o nosso Estado.
No parlamento era atuante e aliciador. Palavra brilhante, ocupava a tribuna com brilho e segurança. Ferino e contundente no aparte, fazia-se, não obstante, estimado e respeitado pelos seus pares. O Deputado foi crítico severo dos governos a que se opunha e no Senado a sua palavra serena, experiente e persuasiva era uma fonte de inspiração e conselho que todos procuravam ouvir.
Fez da Vice-Governança de Minas um posto de maior relevo, dando-lhe projeção política de ampla repercussão pela participação que passou a exercer, em razão do seu magnetismo pessoal, na condução da vida pública de Minas Gerais. Deu ao Governador, em exercício, o o insigne José Francisco Bias Fortes - de memória nunca assás louvada - uma colaboração leal, amiga e desinteressada. O seu concurso foi dos mais preponderantes para o levantamento de graves problemas e a busca das soluções que se impunham.
Quando o Presidente Jânio Quadros, impressionado com a vivacidade de seu espírito, a força dominadora de sua mentalidade e os recursos do seu cérebro privilegiado, convidou-o para exercer, no seu curto Governo, a pasta da Indústria e do Comércio, entregou-lhe um Ministério recém-criado, que existia, apenas, no papel, sem estrutura
e sem organização, com órgãos esparsos e distantes. Coube-lhe pôr ordem no caos e fundir todo o arcabouço de uma obra imensa, que se lhe apresentava como um dasafio esmagador. Em poucos meses o Ministério recebia a sua espinha dorsal, através de uma regulamentação moderna e eficiente, de excelente técnica administrativa. Coordenados os departamentos e órgãos que o integravam, colocou-os em condições de poder atender, em toda a sua plenitude, as suas extensas finalidades.
Esse início de administração deixava ver, na sua clarividência e dinamismo, o que viria a ser a sua presença à frente desse importante setor do Governo... A nossa diplomacia registra algumas de suas incursões como representante do Brasil em rumorosas Conferências Internacionais. Poliglota, falando corretamente o francês, o inglês e o alemão, valia-se desse dom inapreciável para dar às suas missões singular refulgência, a que o seu talento sedutor imprimia um destacado relevo.
O estadista, o homem público, o diplomata, o parlamentar, o administrador, o cidadão e o homem Bernardes Filho revelaram, na sua múltipla e extraordinária personalidade, o Brasil e Minas Gerais nas virtudes mais raras e mais nobres do nosso povo. Ele foi digno para os seus amigos, benemérito para os seu coestaduanos e preclaro filho de nossa Pátria... Na mesa simples e frugal, como são as mesas da gente mineira, era o mais alegre, expansivo e conversador, a todos deleitando com as irradiações de sua alma simples, que o conforto e a civilização não conseguiram corromper..."
E o Dr. Potsch é também um proeminente cientista e mestre cuja vida e obra se fazem indissociáveis da ciclópica trajetória da grandiosa Universidade viçosense. Nascido no município de São José do Barroso (MG), a atual cidade de Paula Cândido, a 24 de janeiro de 1914, filho do farmacêutico Antônio Apolinário Magalhães e de Dona Maria Francisca, estudou em colégios da região tendo sido aluno por dois anos do Seminário de Mariana (MG) e foi funcionário da Casa Araújo e Martino. Admitido na ESAV em 1939 onde se formou agrônomo, concluiu o mestrado em Iowa (EUA) em 1945, sendo o segundo brasileiro a conquistar mestrado em Economia Rural. Doutorou-se na UFV. lização da mesma, o que ocorreu a 8 de maio de 1969. Foi membro fundador do Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras e prefeito do outra distrito do Herval, depois município de Ervália (MG), acumulando a função de secretário de Estado da Agricultura entre 65 e 66, no governo de Magalhães Pinto. Doctor Honoris Causa da Purdue University, a ele se aplica a assertiva segundo a qual “os grandes vultos se tornam ainda maiores através da perspectiva do tempo”.

O "espírito esaviano" e a Marcha "Nico Lopes"

Um outro alguém muito especial ingressou na Esav passados sete meses de sua criação, tendo vivido o desenvolvimento de sua Escola “em condições duras e difíceis, com curtos e espaçados momentos de bonança”, mas dinamizada por um grupo de professores competentes, desprendidos, idealistas e entusiastas. À medida que avançaram as décadas, aumentou o número de ex-alunos em postos de alta responsabilidade, cresceram suas reputações, não só no seio da classe, como nas comunidades nas quais se inseriram. Fruto de uma semente muito bem plantada em Viçosa. Em Santa Rita de Patos, hoje Presidente Olegário (MG), nasceu em 1910, Antônio Secundino de São José. Formou-se agrônomo aos 21 anos de idade, na Esav, da qual fora o diretor entre 1947 e 1951, sendo reconhecido nacionalmente como “o homem do milho híbrido”. Foi protótipo dos que encarnaram o amor à Escola que os formou. Criador da famosa Marcha Nico Lopes, uma manifestação de protestos e críticas que desde sua criação quase nunca deixou de acontecer. Até mesmo em alguns momentos da ditadura militar, apesar da dura repressão, a marcha Nico Lopes é o Carnaval temporão de Viçosa. A famosa “micareta” da cidade universitária tem projeção em tudo semelhante a de festas congêneres como a Jeguefolia, de Visconde do Rio Branco; Sanatório, de Ubá; Festa do Doze, de Ouro Preto; e Carnabelô, da capital mineira. Nas primeiras edições do século XXI, chegou a atrair um público médio de 50.000 pessoas. A tradicional marcha foi o meio pelo qual os alunos manifestaram seu descontentamento com as autoridades universitárias, municipais, estaduais e federais, e expressaram suas críticas, na mais das vezes, irreverentes, sofreu grandes transformações, acompanhando a evolução dos tempos e, logicamente, da universidade, dos estudantes e do Estado. O trio elétrico se incorporou ao evento em 1992. Forjado pela tradição, foi criado em 1939, quando a instituição possuía cerca de 50 alunos. Antigamente era pura sátira, “crítica de fatos pitorescos, pois todas as brincadeiras eram atribuídas ao Nico Lopes, espírito folgazão”. Secundino reunia calouros, “arregaçava-lhes uma das pernas da calça e fazia com que corressem em volta do jardim ao som de uma sanfona de 8 baixos e fole rasgado. Daí o nome da brincadeira”, conforme destacou o professor José Marcondes Borges. E de acordo com o professor José Dionísio Ladeira, “não era Nico Lopes propriamente ‘responsabilizado pelas coisas erradas ou más que aconteciam’”. Segundo escreveu, o patrono da marcha não era “’um boêmio que tempos atrás perambulou na cidade’”... “Nico Lopes era um espírito brincalhão, gozador, que vivia o ‘dolce farniente’ da Viçosa até certo ponto efervescente dos anos 20, anos 30. Por isto, todas as outras pessoas que também se entregavam ao ócio, quando questionadas, diziam: - ‘Trabalho para o Nico Lopes...’ Espírito brincalhão, Nico Lopes se entrosava muito bem com os estudantes, sobretudo quando se dispunha a dar uma ajuda no Bar do Dario, seu genro, ali na Rua Arthur Bernardes, onde hoje é o Shopping d’A Mundial... Ah! E quando ‘dependurava as contas’... Daí o Secundino – que vai se formar na primeira turma de agrônomos em 1931 e depois será nome da Biblioteca Central – cognominar de Marcha Nico Lopes a passeata que era a culminância do trote aos calouros”. Dr. Secundino, além de criador da Nico Lopes, fora o orador oficial do quadragésimo aniversário da instituição. Transcrevemos aqui excertos das memoráveis palavras por ele ditas na ocasião solene:


“Sem qualquer intenção de colocar nossa Universidade no topo da escala de classificação, diríamos apenas que ela tem muito de pessoal, de diferente. Não no sentido material [...] mas no sentido educativo, na linha que se traçou de instruir educando, tentando sempre colocar o melhor técnico dentro de um homem mais homem. Essa luta se traduz na implantação de uma camaradagem profunda, que se estende no tempo e na distância, nivelando seus filhos pelo mesmo ideal e pela mesma dedicação ao trabalho, pelo orgulho e pela defesa de sua profissão, independentemente de idade ou origem. Essa mística que os mais antigos ainda conhecem por ‘Espírito Esaviano’ e que os mais novos, provavelmente, distinguem por outra designação, realmente existe e existirá sempre [...] Quem duvidar de que esse espírito exista, basta entrar em contato com um ex-aluno desta Casa, no campo ou na cidade, neste país ou fora dele, contemporâneo ou não de bancos escolares, e verificará que a tônica obrigatória e dominante da conversação será a sua Escola, a sua Universidade [...] Que sua mística, e tudo de bom que ela encerra, representa e defende, seja transferida de ano para ano, de curso para curso, de geração para geração, indefinidamente, pela mão firme, honesta e idealista dos moços.”


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A CONSTRUÇÃO DO SANTUÁRIO: MARCO DE UM NOVO TEMPO



Na década de 1960 o cronista Parrique, em "A Cidade", assim se expressou:


“Os sinos, no campanário de nossa Matriz, já tangem diferente, como que soltando notas musicais repassadas de tédio e nostalgia, anunciando a Semana Santa que evoca o Calvário de Cristo”.


Viçosa experimentava um notável influxo em seu desenvolvimento, tão logo se edificara um templo que passou depois a Santuário. O velho sino mecânico, plangente, da velha Matriz, silenciara-se. Do alto do novo e imponente campanário não havia mais lugar para aquele vetusto badalar que outrora convocara para os ofícios religiosos. Aqueles sons criados pelos sineiros, ao tempo do Brasil colonial, Te Deum, Ângelus, exéquias, cinzas, ressurreição, treva, passos, finados, agonia, incêndio, almas, Natal, ano-novo, morte do Senhor, dentre outros repiques já não faziam mais parte de um sonhado futuro, que já se fazia presente. E os sinos, modernos, eletrônicos, aqui chegavam na década de 1950, como prenúncio daquele novo tempo. Viçosa contava, então, com 6 açougues, 4 torrefações, 5 padarias, 8 alfaiatarias, máquina de beneficiamento de café e arroz, dois salões de beleza, 7 barbearias, de seu Parque Industrial constava uma oficina gráfica, 5 fábricas de calçados, duas de macarrão, uma de biscoito, uma de manteiga, duas de ladrilho, 5 de móveis e esquadrias, um curtume, uma de farinha e uma de basculantes.
Foi quando o Cônego Modesto Paiva vaticinou um futuro luminoso para a Terra de Santa Rita. Tido em Viçosa como um semideus, ele passou seus derradeiros anos em Tabuleiro do Pomba (MG), classificando, de lá, um dia, como "inesquecíveis" seus paroquianos viçosenses. Disse ele: “Esquecer-vos? Nem na eternidade!”
Eis aqui um depoimento, a este blogger, de quem o acolitou por um bom tempo, Simão Cirineu Ladeira: “Modesto Paiva era realmente um Cônego modesto! O modesto Cônego assumiu a Paróquia sob protestos e abaixo-assinados. Logo ao chegar o Cônego mostrara seu conservadorismo. O primeiro ato das missas dominicais era o Cônego desfilando pelo corredor central da velha matriz, municiado de água benta com a qual aspergia as mulheres de qualquer idade cujos cotovelos estivessem à mostra, expulsando-as do recinto sagrado. Na igreja, reservou o lado esquerdo de quem entrava para os homens, indo, em conseqüência, as mulheres para o lado direito. As filas para o concorridíssimo confessionário eram também separadas por sexo
Jamais receou os comprometimentos próprios à sua idade, compromissos e circunstâncias.
O Cônego era um obstinado em fazer aumentar o número das pessoas que "faziam" a primeira sexta-feira de cada mês. Contava ele próprio, minuciosamente, o número dos comungantes, com o auxílio de um anelzão dentado, enquanto recitava o necessário "O corpo de Cristo...". Na época, as comunhões só eram distribuídas pela manhã e às pessoas em jejum, exclusivamente por padres, diretamente nas bocas e só aos ajoelhados na longa mesa (na verdade algo como parte anterior do "banco da frente"). À noite, no mesmo dia, na hora santa solene, com a igreja entupida de devotos e Chico Salamargo "puxando" os cantos, revelava o "placar", comparando-o com o do mês anterior, sempre progressivamente inferior. Instigava a presença de mais e mais..."
E quanto modesto ele era!-- agiu, ao contrário da maioria dos padres que constroem templos e, das construções, que não acabam nunca, fazem fonte de arrecadação.
Construiu, em uma cidade paupérrima, em tempo recorde, uma igreja do tamanho que o futuro viria a exigir e que o bom povo de Viçosa mantém lotada. E, com que sacrifício! Por exemplo, adquiriu um caminhão Volvo para comprar pessoalmente, à distância, pelo menor custo, o material de construção. E, para economia, dormia sob ele, na estrada, junto com Felipe, o fiel motorista. Aliás, fora do caminhão, dormia na sacristia da velha igreja, para locar a casa paroquial para o farmacêutico João Dias e reverter o aluguel para a igreja.
Era criativo para arrecadar recursos. Além desse exemplo, representado no folheto (Preso o Vigário de Viçosa), antes de instalar os sinos da nova igreja, disponibilizou-os, para que a população pudesse dar-lhes badaladas, em troca de contribuições. Conheci-o e com ele convivi, como seu principal coroinha diário, nas missas e nos batizados e nos sepultamentos.
"In illo tempore" os batizados eram realizados fora das missas. O Cônego os ministrava, sempre às 13 horas, diariamente, salvo, se não me engano, aos sábados e domingos. Havia uma pia batismal, na matriz antiga, em lugar reservado à esquerda de quem nela entrava, ao lado das cordas que serviam para tanger o sino, por ocasião dos sepultamentos (sem necessidade, exclusivamente nessas situações, de subir ao alto da torre para o solene repique, aos cinco minutos antecedentes às missas dominicais).
À direita ficava a escada que dava acesso ao Côro, e, atravessando-o, a nova escada pela qual se subia aos sinos (esta sim, já sobre o local da pia). Invariavelmente, lá, com ele, estavam a Professora Maria de Lourdes Ramos, encarregada de fazer os imprescindíveis registros em um cadernão, e eu, coroinha, para dialogar o ritual, em latim...”
Falecido a 16/2/1996, em Juiz de Fora, ele foi sepultado no Cemitério Dom Viçoso. Seus restos mortais foram transladados a 19/5/2005 para o Batistério do Santuário de Santa Rita, templo construído em tempo recorde, sob sua liderança, a partir de 1951. “E isto aconteceu porque um vigário de qualidades excepcionais, encarnação perfeita e completa da autoridade, padrão das mais puras e nobres virtudes, o enérgico e humilde, culto e despretencioso, pobre e desprendido, infundidor de confiança e catalizador de boa vontade, ergueu a sua batuta e comandou a orquestra do querer e realizar de seus paroquianos. Assim, em tempo recorde, a Santa Padroeira ganhou a sua morada e Viçosa assistiu a construção de sua bela Matriz[...] Solenidade inesquecível, de ordenação de vários sacerdotes saudou o novo e admirado templo. Cerimônia brilhantíssima de consagração, promovida pelo nosso querido Arcebispo Dom Oscar de Oliveira e pelos Bispos Dom Rodolfo e Dom Lázaro e programada para o término da decoração e montagem dos altares, por ocasião da festa da Padroeira, realizou-se...”, destacou a imprensa.
O templo é considerado um dos marcos da capacidade e generosidade do povo viçosense. Sobre este fato o professor José Marcondes Borges relatou, em 2001, o seguinte: “Uma pequena e pobre cidade pôde, em quatro anos, conduzida por um autêntico líder, construir uma obra majestosa, a nova Matriz de Santa Rita de Cássia e, confiante, então, em sua real capacidade, encetar um ciclo progressista de construções que ainda permanece, cinqüenta anos depois. Na verdade, a cidade era pequena, pois, conforme a Enciclopédia Mérito, era habitada por 6.424 moradores, em julho de 1950. [...] Naquela época, a velha matriz, situada na esquina da rua Benjamim Araújo com a praça Silviano Brandão, além de mostrar visíveis sinais de deterioração em sua estrutura física, e até em seu sino rachado, estava se tornando muito pequena para os devotos de Santa Rita. [...] Como preparativos para o início da construção, cônego Modesto tinha de enfrentar três problemas: adquirir o terreno, obter a planta e escolher o pessoal técnico. O local adquirido, que não poderia ser melhor, foi o da parte central do quarteirão onde ficava situada a velha matriz. Quanto à planta, valeu-se da intercessão da Irmã Célia (Amélia de Carvalho Janotti), diretora da Escola Normal Nossa Senhora do Carmo, junto a seu irmão, o benemérito e prestigioso viçosense José de Carvalho Janotti, que havia sido prefeito de Teresópolis, deputado e presidente da Assembléia Legislativa e era, na ocasião, governador do Estado do Rio de Janeiro. Ele obteve a planta de um amigo engenheiro, o Dr. Octávio de G. Freire."
Nascido em 1916, em Viçosa e falecido em Teresópolis (RJ) em 1980, José de Carvalho Janotti iniciou sua carreira de homem público em pleno Estado Novo, no ano de 1945, tendo sido seu primeiro cargo o de secretário da Prefeitura de Teresópolis. Em 1947 elegeu-se prefeito daquele município fluminense. Em 1950, foi eleito deputado estadual pelo Partido Social Democrático (PSD) e em 1955 foi reeleito para o mesmo cargo. Foi deputado novamente à Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro em 1958, tendo assumido o governo do Rio de Janeiro a 7 de julho de 1962, ao qual renunciou em 1963 para assumir o Tribunal de Justiça daquele Estado. Memorável, sem dúvida, esta sua participação na construção do majestoso templo.
"Para a direção técnica, o cônego convidou o Dr. Mário das Neves Machado, engenheiro-agrimensor e um dos mais antigos e conceituados professores do Departamento de Engenharia Agrícola da Esav, prestante cidadão e católico praticante. Vicente da Paixão, que foi um dos melhores mestres-de-obras e pedreiro que Viçosa conheceu, foi, naturalmente, o escolhido para as duas funções. A construção da nova matriz foi seu último trabalho como pedreiro e era excepcional no mister pela boa qualidade e, sobretudo, pela sua rapidez no trabalho. Depois da construção, tornou-se o mais disputado mestre-de-obras da cidade.
Resolvidas as preliminares, o cônego conseguiu das autoridades competentes a permissão para que os presidiários da cadeia de Viçosa fizessem a demolição de todas as casas do quarteirão, com exceção da situada na esquina da rua Virgílio Val. É justo dizer que, contra a previsão de muitas pessoas, o trabalho foi realizado em poucos dias e sem nenhum incidente [...] Concluído o arrasamento das casas e limpo o terreno, o Dr. Mário Machado e seu cooperador, o professor da Esav, José Marcondes Borges, locaram a igreja no centro do quarteirão. [...] Esta foi iniciada com a abertura da escavação e a colocação da laje de base da torre que seria também sua pedra fundamental. Para esta o cônego escreveu a inscrição, em latim [...] cuja tradução foi feita pelo cônego José Geraldo Vidigal de Carvalho e monsenhor Vicente Diláscio é a seguinte: No dia 9 de maio do ano de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1951, sendo Sumo Pontífice Pio XII, Arcebispo da Igreja de Mariana Helvécio Gomes de Oliveira, Pároco, Modesto Paiva, para edificar esta lápide, projetada por Octavio de G. Freire e feita por Vicente da Paixão, sob a direção de Mário das Neves Machado com seu cooperador José Marcondes Borges, os cidadãos viçosenses com ardor ofereceram os recursos, favorecendo Santa Rita”. A inscrição original que se encontra na base da torre é esta:


ANTE DIEM VII IDUS MAIAS ANNO DOMINI NOSTRI JESU CHRISTI MCMLI, SUMMO PONTIFICE PIO XII ARCHIEPISCOPO ECCLESIAE MARIANNENSIS HELVETIO GOMES DE OLIVEIRA, PAROCHO MODESTO PAIVA, AD HANC EXSTRUENDAM LAPIDEM, AB OCTAVIO DE G. FREIRE DELINEATAM ET A VINCENTIO DA PAIXÃO CONFECTAM, DIRIGENTE MARIO DAS NEVES MACHADO CUM EJUS COOPERATORE JOSEPH MARCONDES BORGES, INFLAMMANTER NUMUM CIVES OBTULERUNT VIÇOSENSES, SANCTA FOVENTE RITA


Monsenhor Modesto deixou Viçosa, como vigário, a 12/10/1955. Nascido a 16/6/1898, em Santa Bárbara (MG), num arraial chamado Brumado, hoje Brumal, aos 14 anos iniciou seus estudos no Colégio Caraça, com os padres lazaristas. Formado no Seminário de Mariana, foi ordenado padre a 29/11/1925. Foi coadjutor e vigário de Cataguases, onde esteve por 9 anos, e de Santana dos Ferros, tendo trabalhado ainda em Belo Horizonte e São João Del Rey e exercido a vice-reitoria do Ginásio de Dom Helvécio, além da capelania da Escola Normal Nossa Senhora do Carmo, de Viçosa, a partir de 1943, por 4 anos. Foi também professor de Religião e de Língua Portuguesa, no antigo Gymnasio de Viçosa. Em entrevista concedida a um jornal de Viçosa, ele relatou só ter aceitado a direção da paróquia de Santa Rita por “muita insistência” do arcebispo. Transcrevemos a seguir alguns trechos, esparsos, de seu depoimento: “Conhecia muito bem todo movimento da paróquia e sabia que todos tinham sido batizados e casados pelo padre Álvaro e não iria ter coragem de substituí-lo”, enfatizou.[...] “Neste tempo, tudo aconteceu de novidade. A Igreja Matriz estava podre, querendo cair. Era necessário construir uma outra. As dificuldades aumentavam. Então, pouco a pouco o dinheiro foi aparecendo, de sorte que, não querendo eu construir uma Igreja na esquina, onde estava, mas construí-la onde está hoje, tive de comprar, na praça principal de Viçosa, quatro casas. Compradas estas casas com muitas dificuldades demoli-as e iniciei a construção da nova Igreja, onde ela está, no dia 6/11/1950, para começar o Ano Santo. De vez em quando o arcebispo aparecia para ver como estava a construção. [...] Logo depois da Semana Santa veio a festa de Santa Rita. Para que o povo me desse bastante dinheiro, fiz um boletim. Mas como ninguém lê boletim, coloquei o seguinte título: ‘Preso o Vigário de Viçosa Cônego Modesto Paiva’.

De fato, o boletim foi assim redigido:



"PRESO O VIGÁRIO DE VIÇOSA

Como é triste uma prisão!

O Vigário de Viçosa está preso, mas tem confiança que, até o dia de Santa Rita, cada Viçosense trará muito dinheiro, para comprar a liberdade dêle.
Está preso pelos compromissos, que assumiu, na construção da igreja.
Os credores estão exigindo e não há dinheiro para êles.
Vêm Viçosense! Vem depressa, com tua contribuição e sentirás grande alegria de trazer o fruto do teu trabalho, para Santa Rita.

Viçosa, Maio de 1953.

Cônego Modesto Paiva"



Prossegue ele: "Foi um efeito muito bom, porque o povo concorreu, concorreu, concorreu e no dia da Festa de Santa Rita ele me deu o dobro do dinheiro que eu tinha pedido. Assim, pude ver, em 12/12/1953, a Igreja construída, dependendo apenas de lisar o piso e improvisar um altar que deixei lá. Improvisado este altar, o arcebispo pôde celebrar missa, ordenando cinco padres: padre Pedro Lopes, padre Rubim, já falecido, padre Wandick e padre Valente e um outro que se fez monge, padre frei Thiago. [...]
A cidade era muito pobre. Toda ela de construção de cor amarela e os portais e janelas de cor roxa. Eu disse ao povo: vamos construir a Igreja que a cidade vai melhorar. E de fato a cidade melhorou muito [...] A casa lá de trás, comprada primeiro, onde estava o correio, esta parte eu a transformei numa loja e casa[...]Todos ajudaram, até os pobrezinhos das casas de São Vicente de Paulo, que criavam franguinhos e davam para a Igreja. Os ricos ajudaram, mas quem construiu a Igreja foram os pobres. Há muita ajuda dos ricos, mas se não houvesse a cooperação de toda a população da cidade a Igreja não seria construída não. Construída a Igreja, tratei de colocá-la de acordo com a padroeira Santa Rita. Santa Rita era devota da Paixão de Nosso Senhor. Acompanhei o arquiteto, dizendo a ele como queria a Igreja: sete janelões de um lado, sete de outro, para por a Via Sacra lá. Eles estão lá. Santa Rita era devota também de três santos: São João Batista, Santo Agostinho e São Nicolau Tolentino [...] Por isso, no sopé da torre, eu fiz lugar para os protetores de Santa Rita. Eu gastei os três primeiros anos de pároco para levantar a Igreja espiritual. Levantada esta, eu tinha a confiança do povo [...] Eu deixei as duas casas, quatro lojas, terreno para construir o salão que está lá, o salão paroquial. Também deixei dinheiro. [...] Na primeira missa que eu celebrei, coloquei: recebi do senhor fulano de tal vinte cruzeiros para a Igreja. Todo o mês eu publicava o que entrava. O povo tomou confiança. Na festa de Santa Rita, de 1953, foi muito dinheiro que me deram. Eu pude comprar muito material caro de São Paulo, levando ainda três operários especializados de São Paulo, para acabamento da Igreja. Tudo ficou pronto”.
Seu epitáfio, no Santuário, fez justiça a sua obra:

“MODESTVS, SACERDOS INCLITVS, HOC TEMPLVM CVM MAGNA SEDVLITATE POSVIT - Sacerdos Modesto Paiva – Parochus: 1947-1955 - * 16/6/1898 - + 16/2/1996 (Tradução: Modesto, ínclito sacerdote, com grande zelo construiu este templo).

Padre Carlos dos Reis Baêta Braga foi o Pároco de Viçosa desde 1957, sucedendo ao Padre Geraldo Maia, antigo capelão da Escola Normal e do Hospital São Sebastião, este falecido em Piedade de Ponte Nova (MG). Foi ele, Pe. Carlos, quem mais tempo permaneceu à frente da Paróquia: 42 anos. Dizia encontrar na convivência com seus paroquianos “uma porfia de mútua correspondência”, e a ele coube dar continuidade e ampliar a obra do Cônego Modesto num período em que começaram a se estabelecer na cidade diversas igrejas cristãs de denominações diversas, a partir da década de 1960. A 9/10/60 estabelecia-se fisicamente o protestantismo na avenida Bueno Brandão, 18, expandindo-se depois em núcleos congregacionais. No paroquiato de Pe. Carlos foi criada, a 16/7/1994, a Paróquia de São Silvestre, cuja Igreja Matriz, no distrito de São Silvestre, fora construída como capela em 1963. Em seu paroquiato foim criada a Paróquia de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, a 13/5/1975. Paladino de grandes causas, instituiu a Fundação Cultural Santa Rita, construiu diversas capelas na periferia, o edifício do Centro Social ao lado do Santuário, incentivou a Semana Santa ao Vivo, criou a Casa de Retiro em São José do Triunfo, que sedia, dentre outros importantes eventos, as Jornadas de Conscientização Cristã do JSC, originárias do GGJ (Grupo de Gente Jovem), fundado a 3 de março de 1975, com Dias de Encontro (DDE) desde 1979 em parceria com o GJV, este o nosso grupo jovem mais antigo e promotor do TLC (Treinamento de Liderança Cristã) e das Escolas de Dirigentes, dos quais nasceu também o ASC, para os adolescentes.
Filho de Carlos Fabrino Braga e de Maria Tavares Baêta Braga, ordenado em Conselheiro Lafaiete, sua terra natal, a 31/12/1950, notário da Cúria Metropolitana, vigário cooperador do Cônego Oscar de Oliveira, então pároco de Mariana, vigário ecônomo da Catedral, comissário da Igreja de Nossa Senhora das Mercês, sua posse em Viçosa foi a 29 de março do referido ano de 1957. Capelão e professor de Psicologia, Filosofia, Religião e Latim na Escola Normal, capelão da Escola Agrícola Arthur Bernardes e do Hospital São Sebastião, fundador e diretor do Ginásio Santa Rita, entre 1967 e 1986 lecionou História da Filosofia, Sociologia, Administração, Problemas Brasileiros, História do Brasil e Geral, Pedagogia e Sociologia no Seminário Maior e algumas dessas disciplinas na Faculdade de Filosofia de Mariana (1979 a 1986) e no Seminário Menor. Licenciado em Sociologia em Roma, pelas universidades Gregoriana e Internacional de Estudos Sociais; em Filosofia, pela Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras D. Bosco, de São João Del Rey; em Letras, pela PUC-Minas, em Direito em Lafaiete e pela PUC fez também os cursos de Estudos Históricos do Brasil, Folclore e Desenvolvimento Integral. Membro benemérito do Mobral de Viçosa, sócio-fundador da Academia de Letras de Viçosa, membro Academia Marianense de Letras, foi cidadão honorário de Viçosa. O Cônego José Geraldo Vidigal de Carvalho é quem nos informa sobre as realizações de Pe. Carlos e é quem melhor define o seu perfil caritativo. Conforme ressalta, costumava Pe. Carlos doar cobertores a aviar receitas para os pobres. "Gastava muitas horas com pessoas, confortando-as e medicando-as espiritualmente, detalhes que só Deus sabe lá nos seus registros eternos". O Ginásio Santa Rita foi por ele fundado em 1966, e mantinha 300 alunos pobres. "Quando de seu falecimento, a Superintendência Regional de Ensino recolheu toda a documentação, por ser modelo de organização escolar," destacou o Cônego Vidigal. Ele foi "um dos pilares" do Instituto de Ciências Humanas e Sociais. "Como Jesus Cristo valorizou a amizade, Pe. Carlos era amigos dos paroquianos. Modelo do amigo pela sua sinceridade", realça ainda o Cônego Vidigal, que acrescenta o fato de que a tarefa de Pe. Carlos foi "difícil e complexa" com o acabamento do Santuário porque "todos aqueles detalhes são 'detalhes' que hoje nós admiramos num conjunto, mas que diante do povo pouco aparecia, quer a pintura, quer outros detalhes significativos", recordando-se de quando ele chegou "jubiloso lá em Mariana apresentando o croqui do altar de mármore da nossa padroeira. 'O zelo da Tua casa me consome' poderia ele dizer." Quando cursou Sociologia Pastoral, Metodologia do Apostolado e Exercitação para o Clero, em Roma, em 1962, fora substituído aqui, por 10 meses, pelo Pe. Efrahim Solano Rocha, hoje em Ipatinga, servindo no Hospital da Usiminas. Pe. Efraim o Rocha foi pároco interino em 1963. Este é outro sacerdote que certamente nunca se esqueceu de seu povo, pois como disse o próprio, ele partiu “levando saudades de tudo e de todos de Viçosa”. Musicista como Pe. Seraphim, incentivou a Lira Santa Rita e a Semana Santa ao Vivo, tendo formado o GGN (Grupo Gente Nova), que fez as primeiras apresentações paralitúrgicas da Grande Semana. Disse ele, certa feita: “Aqui, em Viçosa, eu não vim dar lição de amor a Deus, de cristianismo. Eu vim receber estas lições. Cinco Missas Dominicais, e a Igreja – grande já se torna pequena para o número de fiéis [...] O pouco ou nada que fiz, foi impulsionado pelo desejo e boa vontade de todos”.
A Semana Santa, a Festa de Santa Rita e o Mês de Maria foram, não há dúvida, as meninas-dos-olhos de Pe. Carlos, que sempre contou com o apoio de leigos engajados, festeiros, entre quais Dr. José Lopes de Carvalho, Alvino Machado, José Lopes Fontes Filho (Nonô), Custódio de Souza Parreira, César Sant'Anna Filho (Cesinha), Dr. Raymundo Alves Torres, Antônio Sant'Anna Gomide, João Cupertino de Souza, Geraldo de Lucca, Agostinho Vaz de Mello (Zutinho), Geraldo Lopes da Silva (Ladito), Waldir Pinheiro, Michel Marum, Geraldo Rodrigues Bento e Antônio Rafhael Teixeira Filho (Tonito). Ao lado do incentivo a movimentos como a Apov, desde 1982, aos Cursos e Círculos Bíblicos desde 1970, aos Cursilhos de Cristandade - do qual foi Diretor Espiritual - ao Movimento Familiar Cristão desde 1972, e à Pastoral da Saúde, incondicional apoio à SSVP e ao Apostolado da Oração, merece ser destacado em seu perfil de Pastor a grande devoção à Padroeira da Cidade e do Município. Esta sua característica pessoal marcante fez com que, por esta Causa, a festa do 22 de Maio fosse, a cada ano, em seu longo e profícuo paroquiato, o Maior de todos os nossos eventos religiosos. A exemplo de seu antecessor, Cônego Modesto, está sepultado no Santuário desde 19/5/2005, onde se inscreveu seu epitáfio, já no paroquiato do Pe. Dionê:

“CAROLVS, PRAECLARVS DEI MINISTER, HOC TEMPLVM MAGNA CVM PERITIA PERFECIT. Sacerdos Carlos dos Reis Baêta Braga – Parochus: 1957-1999 - * 6/1/1927 - + 6/5/1999” (Tradução: Carlos, preclaro Ministro de Deus, com grande perícia terminou este templo).

De Padre Carlos dos Reis é o soneto Ano Novo:

“Eis que no tempo surge um Novo Ano
E como é bom, Senhor, contar contigo,
Quando ao meu lado tudo é desengano,
Tenho a certeza: Tu estás comigo.

O mundo passa e falha o ser humano.
Mas Tu és sempre o mesmo, o mesmo Amigo
E de saber-Te eterno é que me ufano,
Tu me esperas, se chego, é meu abrigo.

Calo-me, escuto e só nós dois, a sós,
Alegremente ouço a Tua Voz:
Por que temer? Levanta-te, sê forte:

Nós dois iremos juntos, de vencida,
Eu sou Caminho, sou Verdade e Vida
E quem Me segue não verá a morte!”

Três sacerdotes, Monsenhor Raimundo Gonçalo Ferreira e os Cônegos Antônio Mendes e José Geraldo Vidigal de Carvalho figuraram entre seus coadjutores.
Falecido a 22 de março de 2002, no Hospital São Sebastião, de onde fora o devotado capelão, Monsenhor Raimundo foi sepultado em Paula Cândido, sua terra natal, após 69 anos de uma vida inteiramente dedicada ao sacerdócio. Em Viçosa desde janeiro de 1964, quando transferido da Paróquia de Jequeri (MG), onde fora pároco e professor da escola técnica depois de ser o desvelado pastor da Paróquia de Porto Firme por 22 anos, município de que foi um dos maiores benfeitores. Mons. Raimundo iniciou estudos eclesiásticos em 1924 com os padres barnabistas, no Rio de Janeiro, e de 1925 a 1933 foi aluno dos padres lazaristas, em Mariana, sendo ordenado a 8 de dezembro de 1933. Coadjutor, entre 1934 e 1935, do Cônego Felício de Abre Lopes, na Paróquia de Piranga, foi também capelão da Escola Normal de Viçosa até 1971, do Patronato Agrícola até 1967, tendo sido capelão também do Lar dos Velhinhos, até seus últimos dias neste mundo. Vulto célebre e benfeitor, nasceu a 11 de fevereiro de 1910, no Sítio Canteiro, comunidade do Arruda, filho primogênito do Senhor Antônio Julião Ferreira e de Dona Maria Petrina Ferreira. Monsenhor Raimundo Gonçalo Ferreira foi um vulto realmente célebre e que nunca deixará de ser assaz louvado pelas comunidades nas quais conviveu. Fez seus primeiros estudos em seu torrão natal com o não menos célebre professor Samuel João de Deus. De 1934 a 1935 foi coadjutor do Cônego Felício de Abreu Lopes, em Piranga. De Jequeri - onde fora pároco até 1963, e onde construiu a Igreja do antigo distrito viçosense de São Vicente do Grama, depois de exercer o mesmo munus de 1935 a 1955, em Porto Firme - mudou-se para Viçosa. Nomeado capelão de Sua Santidade em 1983, recebeu o Monsenhorato por Dom Oscar de Oliveira, em outubro daquele ano, no Santuário de Santa Rita. Justo é o fato de, em Porto Firme, ser ele Cidadão Honorário e nome de sua praça principal. Ali construiu a nova Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, entre 1945 e 1950, além de casa paroquial e as primeiras capelas e cemitérios das comunidades rurais, além de ter sido "o veículo de que Deus se serviu para dar impulso ao progresso" daquele município, na definição de seu sucessor na capelânia do Hospital São Sebastião, Cônego Joaquim Quintão de Oliveira. Monsenhor Raimundo foi capelão do Colégio Normal Nossa Senhora do Carmo até 1971 (quando da extinção do internato), do Hospital São Sebastião e do Lar dos Velhinhos até seu falecimento e do Patronato Agrícola Arthur Bernardes até 1967, quando assumiu a capelania deste o Pe. Pedro Rosa de Toledo. Abrigando a dor dos doentes e da velhice desamparada que o buscava, a sua presença foi confortante para os viçosenses porque sempre distribuiu bondade e compreensão. Foi pródigo em benefícios ao povo necessitado, muitos no mais absoluto anonimato, providenciando toda sorte de benesses aos vicentinos, aos internos do Lar dos Velhinhos e ao Hospital São Sebastião, do qual foi um autêntico provedor, assim se revelando em mensagens na imprensa local, relatando inclusive significativos fatos históricos do século 4º da Era Cristã, na Europa, quando a Igreja possuía hospitais e asilos, conquistando seus leitores para generosas colaborações com tais instituições, que na abalisada avaliação do Monsenhor Raimundo, correspondem "a toda sorte de doenças, necessidades e condições de vida".
Pe. Mendes, que deixou o rol dos vivos a 22/1/2002, foi orientador da Renovação Carismática Católica (RCC), fundando a Comunidade “Cenáculo do Senhor”, na Fazenda Antuérpia Mineira, no Paraíso, zona rural de Viçosa. Primeiro presidente da depois temporariamente desativada Academia Viçosense de Letras (AVL), ocupou a cadeira nº 3 a Academia de Letras de Viçosa (ALV), tendo como patrono Raul de Leoni, que, como ele, era poeta. Pároco de Alfié, Marliéria e Nova Era (MG), primeiro capelão da Universidade Rural do Estado de Minas Gerais, a partir de 1950, confirmado pela Portaria nº 440, pelo reitor Joaquim Fernandes Braga, serviu até 1985 na capela que tem como orago Santo Tomás de Aquino, no campus universitário. Pe. Mendes nasceu em Viçosa a 3/8/1914, onde aprendeu enfermagem, trabalhando na farmácia de Benjamim Araújo. Ordenado padre a 11/12/1938, tornou-se cônego em 1993. Bacharel em Direito e professor universitário, participou de órgãos colegiados e foi professor dos cursos de Economia Doméstica, Administração do Lar, Agrotécnico, do Colégio Universitário e da Engenharia Florestal, lecionando disciplinas como Política, Sociologia, Psicologia, Português, Ética, Geografia, Legislação Florestal, Administração e Literatura. Em 1954 fundou a Conferência Vicentina Santo Tomás de Aquino, a primeira no âmbito universitário, orientando, por meio dela, a duplicação da Vila Vicentina, na Rua dos Passos, 475 e a construção do Centro Profissionalizante da SSVP, na Rua Sant’Anna. Organizou a Semana Ruralista de Padres e Freiras, repassando, por intermédio dessa, princípios de Higiene, Agricultura e Alimentação. Lutou e obteve, com seu prestígio, verbas para a construção de edifícios da Universidade Rural e iniciou um trabalho extensionista que resultou na fundação e direção de dezesseis ginásios na Zona da Mata e no Sul de Minas, entre os quais o Raul de Leoni, em Viçosa, gratuito para jovens oriundos de famílias de pequena renda. Deu assistência espiritual ao Centro de Treinamento de Professoras Rurais, na antiga Colônia Agrícola Vaz de Mello, no Colégio de Viçosa, no bairro Bela Vista, no Patronato Agrícola, no distrito de Cachoeira de Santa Cruz e no Lar dos Velhinhos, foi vice-prefeito de Viçosa e um dos que mais lutaram pela construção do Hospital São João Batista, na Rua dos Passos, 1000. O Cônego Antônio Mendes desempenhou tarefas hercúleas ao trabalhar na assistência e promoção humana, sendo respeitado como cidadão de prol e líder político, inclusive tendo sido candidato a deputado. Pioneiro em diversos setores da vida social de Viçosa, foi o idealizador de um encontro para os dias de Carnaval, o Rebainho, que se transformou no Seara. Era conhecido pelo tratamento que dava a todas as pessoas de “Doutor”. Isto porque ele considerava que cada qual “é um Doutor em sua especialidade”. Sob sua orientação surgiram cursos bíblicos universitários, que culminaram em movimentos como a Pastoral da Oração de Viçosa (Pov), dentro das diretrizes do Concílio Ecumênico Vaticano II, que deu origem a uma associação, a Apov, com sede na rua Joaquim Nogueira, 235, em Nova Viçosa, dirigida inicialmente por uma mulher que teve um coração nobre e por isso deixou uma obra notável. Personalidade sem igual, que alcandorou-se em santa, foi professora Leda de Bittencourt Bandeira, nascida em Coimbra a 27/3/1936, falecida a 2/1/2003, e sepultada em Viçosa, sua fiel discípula. Teóloga, poetisa, escritora, integrou os quadros da Academia de Letras de Viçosa e muito contribuiu para o enriquecimento da literatura religiosa e infantil. Ela formou, fortaleceu e ampliou a Apov (Associação Assistencial e Promocional da Pastoral da Oração de Viçosa). Cidadã honorária de Viçosa, criou e direcionou projetos que priorizam a infância em situação de risco pessoal e social. Ela e os voluntários buscaram em estagiários da Universidade e pessoas da comunidade viçosense, o subsídio financeiro e técnico, envolvendo-os no Centro Comunitário que depois recebeu o nome dela, em Nova Viçosa, e que atende a centenas de pessoas. Mais de duas dezenas de alunos da Escola Criança Feliz, no bairro de Nova Viçosa, foram parte integrante, por sua influência pessoal, da assistência educacional das freiras carmelitas. Ali, para os que assim o desejassem, houve ensino gratuito assegurado até o Ensino Médio. Em Nova Viçosa, uma classe anexa do Ensino Fundamental, destinada a crianças carentes, em parceria com a Apov, foi considerada um fiel exemplo do trabalho proposto por Madre Maria das Neves, fundadora do Carmo. O treinamento de lideranças, campeonatos esportivos, lazer, festas folclóricas, coral e violão, afoxé, teatro, dança, tricô, crochê, corte e costura; aulas de reforço do Ensino Fundamental e Médio, alfabetização de adultos em 3 turnos, formação cultural, moral e cívica; catequese e cursos bíblicos; treinamento de agentes de saúde e atendimento num mini-posto, encaminhamentos e visitas a enfermos em domicílio, prevenção às drogas; fabricação caseira de salgados, doces, quitandas e gelados para consumo e repasse, são alguns dos “talentos” que Leda e uma grande equipe de voluntários, seguindo as diretrizes do Cônego Mendes, compartilharam com os menos abastados de Nova Viçosa e Posses. Cantina e bazar, aulas de computação, fotografia e filmagem são programas intensivos e bem administrados, realizados no salão social, e que melhoraram sobremaneira o nível de vida daquele bairro popular viçosense, surgido em 1977, ligado à Paróquia de Fátima, e que antes da Apov era praticamente desvalido.
E o Cônego José Geraldo Vidigal de Carvalho foi ordenado na Catedral Basílica de Mariana (MG) a 2/12/1956 e tornou-se Cônego Catedrático do Cabido Metropolitano a 3 de dezembro de 1961. Nascido a 1º/12/1933, em Viçosa, onde aprendeu as primeiras letras na escola da professora Argina Silvino Ferreira. Filósofo, especializou-se em História do Brasil e obteve certificados de cursos de extensão universitária como Jornalismo, Psicologia Dinâmica e Psicologia Experimental. Professor de História, Francês, Filosofia, Cultura Religiosa, Economia Política e Estatística, Eloqüência, Filosofia Antiga e Medieval, membro das academias Mineira, Municipalista, Marianense e Viçosense de Letras, assumiu a direção regional da Sociedade Brasileira de Filósofos Católicos, sendo também membro do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais (IHGMG), da Società Internazionale Tommaso d’Aquino, da Sociedade Interamericana de Filosofia, da Academia Marial de Aparecida e da Academia de Letras e Artes Mater Salvatoris. Dirigiu o Instituto de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Federal de Ouro Preto (ICHS/Ufop), sendo membro da Fundação Marianense de Educação e detentor de vários títulos honoríficos. Conferencista de congressos nacionais promovidos pela Sociedade Brasileira de Filósofos Católicos, e internacionais, como do Congresso Mundial de Filosofia Cristã em Córdoba, na Argentina (1979), do III Simpósio Teuto-brasileiro, em Bonn, na Alemanha (1981), do Simpósio “Os Cem Anos de Evangelização na América Latina e Centenário do Concílio Plenário da América Latina”, Cidade do Vaticano (1999), na Internet (Catolicanet) abordou temas teológicos, filosóficos, políticos e científicos e teve registrados seus trabalhos em provedores globais, sendo articulista de inúmeros jornais de circulação nacional e titular de programa semanal na Rede Católica de Rádio deste l9 95. Publicou quase duas dezenas de livros de real valor. E foram principalmente nos cursinhos de Igreja de Viçosa e em toda a periferia de sua terra natal que sempre se sobressaiu sua empatia, estabelecida e conquistada por sua presença carismática, marcante e permanente entre os grupos de jovens católicos, desde 1969.

No final do século XX, Pe. Elias Bartolomeu Leoni, natural de Pedra Bonita (MG) foi empossado pároco de Santa Rita, no dia 11/6/1999. Ordenado em Mariana a 7/7/1977, tendo dedicado um bom tempo de seu ministério sacerdotal à Alemanha, mestre em Teologia Dogmática e doutor em Teologia Fundamental em Roma, foi o sucessor imediato de Pe. Carlos. Teve como característica marcante a preocupação com a organização das comunidades paroquiais rurais e da periferia urbana. Viçosa festejou codignamente suas Bodas de Prata sacerdotais em 2002. Padre Elias esteve por um curto tempo em Viçosa. Mas também aqui deixou suas boas obras. Dele é este pensamento, para a nossa reflexão: “A inevitabilidade da morte coloca o cristão diante da provisoriedade e caducidade deste mundo, desfaz suas pretensões, pulveriza suas ilusões e o projeta nos horizontes infinitos da vida eterna. Para ele, na morte, a vida não é tirada mas transformada, e, desfeita esta habitação mortal, é-lhe concedida uma morada eterna.
Eis o motivo porque, diante da morte, o cristão jamais deve sentir medo, mas a confiante expectativa do encontro definitivo com o seu Criador, razão e objetivo de toda a sua existência”.
Com a transferência do Pe. Elias para a Paróquia de Santo Antônio, em Santa Bárbara (MG), sucedeu-o o Pe. Paulo Dionê Quintão, desde 26/8/2003. Sob sua liderança, após enriquecer com sua presença a região Sul da Arquidiocese marianense, mormente as igrejas de Ponte Nova, Barbacena e Amparo do Serra, além da comunidade de Monsenhor Horta, Pe. Paulo Dionê liderou e participou, a 19 de fevereiro de 2005, a instituição da quarta paróquia, a de São João Batista, desmembrada da Paróquia-Mãe e cujo templo principal teve a sua pedra fundamental lançada a 11 de outubro de 2008, em cerimônia presidida pelo Vigário Geral da Arquidiocese de Mariana, Monsenhor Celso Murilo de Souza Reis. Padre Dionê, mineiro de Abre Campo, membro da Academia Mantiqueira de Estudos Filosóficos, escreveu um dia esta linda mensagem: “Quando unimos nossas forças para concretizar um sonho em comum, todas as dificuldades são superadas mais facilmente. As portas se abrem, as sementes da confiança, da fraternidade e da união brotam e se transformam em uma frondosa amizade, sentimento que nos engrandece e nos torna mais próximos do Criador”.
Desde o dia 25 de setembro de 2008 Viçosa pôde contar com o Apostolado da Oração Masculino do Sagrado Coração de Jesus, por iniciativa do Pe. Dionê, ordenado na Igreja Matriz de Santana, de Abre Campo, sua terra natal, a 29 de junho de 1984, por Dom Oscar de Oliveira. Sobre ele, escreveu o Revmo. Cônego José Geraldo Vidigal de Carvalho, um expoente do clero marianense: “Viçosa está se tornando ainda mais viçosa com a presença do Pe. Paulo Dionê Quintão, Pastor desvelado, que veio escrever seu nome na galeria dos notabilíssimos Párocos desta renomada urbe. Todos os viçosenses já se tornaram admiradores entusiastas das excelências de sua pessoa, e todos sempre a lhe dever mimos e extremos de bondade e benevolência [...] É um fidalgo na plena acepção da palavra. Ativo e brioso, íntegro e probo, detentor de um talento administrativo extraordinário, dotado de uma perseverança inflexível, de uma paciência heróica, de uma afabilidade imperturbável e uma bondade sem limites, é o protótipo do varão de crenças extremadas e de uma sabedoria excepcional. Personifica o que declarou Sêneca: 'O homem sábio não faz nada que não deva fazer, mas nem deixa de fazer o que deve'. Puritano do dever, paladino da honra, luzeiro intenso de caridade, exemplar famoso da virtude, inteligência fulgurante é ele, sem sombra de dúvidas, um luminar que tem irradiado fulgores intensos na sua trajetória de sábio sacerdote. Condecorado com inúmeras honrarias, como Diploma da Medalha da Ordem do Mérito Legislativo do Estado de Minas Gerais, de Cidadão Benemérito de Barbacena, de Cidadão Honorário de Viçosa, tem colecionado Prêmios, Títulos e Placas que tornam o seu Currículum Vitae o espelho de suas boas ações e de seu dinamismo na promoção da felicidade coletiva. Escritor, poeta, filósofo, teólogo, conferencista… é um orador claro e eloqüente, revelando-se um especialista em pregação de Retiros Espirituais para Seminaristas e Religiosas de várias Congregações, e palestras para universitários e outros estudantes de diversos níveis."
Em seu paroquiato chegaram a Viçosa as Religiosas Oblatas de Nazaré, acolhidas oficialmente na cidade em julho de 2007 e as Monjas Beneditinas, que tiveram instalado canonicamente o Mosteiro Mãe de Deus a 11 de julho de 2008, na antiga residência da família Chequer (Castelo), na Alameda Roystonea, 405, bairro Vereda do Bosque, com a presença do arcebispo de Mariana e presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Dom Geraldo Lyrio Rocha, que foram recepcionadas, em noite memorável, pela Banda do 21º Batalhão da Polícia Militar de Minas Gerais e pela Lira Santa Rita, ao som de repiques festivos dos sinos, por dezenas de clérigos, seminaristas, representantes das santas missões populares, centenas de fiéis e autoridades municipais. "Nossa vinda para Viçosa foi como uma 'Tocha Olímpica'. Primeiramente passou pelas mãos de Madre Vera Lúcia, do Mosteiro Nossa Senhora de Guadalupe, (São Mateus), que a entregou aos Oblatos Marcos e Simone, em seguida ao Padre Paulo Dionê, Lúcia Molica e, finalmente, chegou às mãos paternais do Arcebispo Dom Geraldo Lyrio Rocha que vibrou e fez acontecer," relataram em crônica as monjas, inicialmente e número de sete e uma oblata claustral. "A Santa Missa teve início às 19h30, no Santuário Santa Rita, onde havia uma grande faixa na entrada, dando-nos as boas-vindas. Duas Bandas de Música faziam relembrar nossa infância. Entramos em procissão com os concelebrantes, diáconos, ministros e o presidente da celebração, Dom Geraldo Lyrio Rocha. O povo cantava ao som do órgão, de dois violinos e uma flauta transversal; parecia a "ante-sala" do céu, pois a presença de Deus, da Mãe, dos Anjos e Santos se misturava com o ritmo da dança do incenso.
As saudações iniciais foram proferidas pelos oblatos do Mosteiro de São Mateus: Marcos (Irmão Bento) e sua esposa Hilda Simone (Irmã Plácida) que residem atualmente em Viçosa.
Assim disseram: 'Reunimo-nos neste Santuário para a celebração da Instalação Canônica do Mosteiro Mãe de Deus, da Congregação Beneditina do Brasil. A chegada das Monjas Beneditinas em nossa Arquidiocese é um sinal do chamado de Deus à conversão de nossos costumes. Pelo labor da obediência, orientemos a nossa vida para Cristo"'
A Homilia do Sr. Arcebispo foi extasiante. Foram enaltecidas: a vida de São Bento e a Ordem Beneditina", prossegue a crônica.
As Oblatas trabalharam no projeto do Centro de Educação Infantil Santa Rita de Cássia, na rua Marly Azevedo, 13/37, centro, e atuaram, desde sua acolhida em Viçosa, também na Pastoral Vocacional, dentre outras atividades de cunho pastoral e missionário. A decisão das Oblatas de aceitar o convite de Pe. Paulo Dionê foi no dia 20 de janeiro de 2007. Viçosa tornar-se-ia, a partir daquele instante, a segunda casa desta congregação no Brasil. A primeira fora a da cidade de Petrópolis (RJ), no Instituto das Irmãs Oblatas de Nazaré (Creche São José das Oblatas de Nazaré) sediado na Rua Olavo Bilac, 815, Castelânea, atendendo a crianças a partir dos dois anos de idade, integrando-se ao Sistema Municipal de Ensino daquela cidade fluminense. O trabalho desenvolvido em Viçosa é nos mesmos moldes do de Petrópolis. Conforme bem destacou o Pe. Marcelo Moreira Santiago, ex-Vigário Geral da Arquidiocese de Mariana, em 2007, na condição de administrador diocesano, a presença “honrosa e serviçal” das Oblatas é “de grande estímulo e valioso auxílio em favor do nosso povo”, abrindo “perspectivas novas de tantas iniciativas como do trabalho de creche e de pensionato, colaboração e atendimento à obra vocacional” da congregação. Elas chegaram no ano de 2007 na Cidade de Viçosa, reforçando e estimulando ainda mais a equipe de atuantes clérigos e leigos que trabalham na Pastoral do Menor de Viçosa, que intensamente promovem e defendem a vida das crianças e adolescentes empobrecidos e em situação de risco quanto à garantia de seus direitos fundamentais. Conforme o “Semeando”, informativo da Paróquia de Santa Rita (ano VII, nº 89, de julho de2007), a instituição religiosa Oblatas de Nazaré foi fundada na Itália, em 1950 e depois passaram a trabalhar com Colônia de Férias, surgindo desse trabalho as primeiras creches, casas de noviciado e várias pastorais. As Oblatas de Nazaré também estão presentes na África e na Índia.
Sacerdotes cooperadores da Paróquia de Santa Rita, durante o paroquiato do Pe. Dionê, foram, além dos já citados, os Cônegos Joaquim Quintão de Oliveira e Pedro Lopes da Silva. Este Cidadão Honorário de Viçosa, descendente de uma das mais tradicionais famílias mineiras (Ana Cabral Câmara e Antônio Álvares Ferreira), que, no século XVIII estabeleceu-se em Calambau (hoje Presidente Bernardes), oriunda de São João do Morro Grande, hoje Barão de Cocais. Sua vocação foi fomentada pelo saudoso Monsenhor Raimundo Gonçalo Ferreira, em Porto Firme, quando foi seu coroinha, e de quem é sucessor como capelão do Hospital São Sebastião. Ele tem como lema "Eis que venho, ó Deus, fazer a Vossa vontade" (Hb 10,9). Nascido a 5 de junho de 1922, em Porto Firme, ordenado em Mariana, seu sacerdócio tem marcado as cidades de Piranga (1950-1951), Diogo de Vasconcelos (1951-1963), Ponte Nova (1964. 1966-1967), Barbacena (1965), Mariana (Seminário – 1967-1971), Barra Longa (1971-1979), Guaraciaba (1978-1998), Viçosa e Teixeiras, nestas desde 1998, e onde granjeou uma legião de amigos, por seu acolhimento e disponibilidade em tempo integral a todos os que o procuram. O Cônego Pedro, falecido a 3 de janeiro de 2008 sepultado no Cemitério Dom Viçoso (jazigo nº 39), descendia de uma das mais tradicionais famílias de Viçosa, onde nasceu a 28 de junho de 1927. Figurou entre os primeiros padres ordenados no Santuário de Santa Rita, a 12 de dezembro de 1953. Filho de Manoel Lopes da Silva e de Francisca Paulina da Silva (Dona Quita), sobrinho do Cônego Francisco Lopes da Silva Reis (Padre Chiquinho), que o encaminhou e ajudou em sua vida de seminarista em Mariana, como ele costumava sempre divulgar à comunidade católica, o Cônego Pedro foi, em seus primeiros anos de sacerdote, pároco auxiliar de Ponte Nova, depois pároco de Tabuleiro do Pomba (Paróquia do Senhor Bom Jesus da Cana Verde), de Nossa Senhora da Conceição em Senador Firmino e Porto Firme, e em Rio Doce como titular da Paróquia de Santo Antônio. Admirado por sua simplicidade, alegria e bondade, pois, como se ressaltou, "falava a linguagem dos paroquianos e nunca se esquecia de uma brincadeira para descontrair", seu espírito de humildade e fino humor foram suas inconfundíveis características pessoais, que marcaram a vida de quantos conheceram e conviveram com o Cônego Pedro, e que fizeram dele uma pessoa benquista em todos os lugares por onde passou. Foi o seu sacerdócio, em primeiro lugar, o que o fez alvo de tantas homenagens. E não menor foi a amizade que todos lhe devotaram porque se o sacerdócio é obra exclusiva de Deus, o carinho e a consideração a ele dedicadas foram merecidas, especialmente por conta de seu espírito firme e forte. Pela sua abertura de alma. Por seus ideais. Foi Dom Luciano Mendes de Almeida quem o classificou como "Anjo da Guarda do clero marianense".
Foram Vigários Paroquiais, ainda no paroquiato do Pe. Dionê, o Pe. Lindomar José Bragança, ex-pároco de Ressaquinha (MG), e o Pe. José Cassimiro Sobrinho, ex-pároco de Senador Firmino (MG). Doutor em Direito Canônico pela Pontifícia Universidade Santa Cruz, de Roma, nomeado o primeiro capelão do Mosteiro das Beneditinas, Pe. José Cassimiro exerceu as funções de Chanceler do Arcebispado de Mariana, professor no Seminário Maior São José, de Mariana, e no Seminário Maior Dom José André Coimbra, de Patos de Minas, além de Vigário Paroquial da Catedral de Mariana.

Paróquia de Nossa Senhora

A Paróquia de Nossa Senhora do Rosário de Fátima foi instituída a 13/5/1975, portanto ainda no paroquiato de Pe. Carlos dos Reis. Seu primeiro pároco foi o viçosense Pe. Geraldo Martins Paiva, nascido em 8/8/1925 e falecido a 26/8/2001, sepultado em Viçosa após 20 anos de pároco de N. Sra. Fátima e vigário cooperador de Santa Rita entre 1959 e 1964. O terreno onde se encontra a Matriz de Fátima, na praça José Sant’Anna, foi doado pela família Fontes. Empossado ali a 15/6/1975, coube ao padre Geraldo Paiva a tarefa de liderar uma campanha gigantesca junto ao seu fiel rebanho para que fosse feita a terraplanagem da área onde, com armação feita de eucalipto e de bambu e revestimento de folhas de coqueiro, foi construída a primeira versão da Igreja Matriz, com 800m² de área útil para acolher mais de mil pessoas.Simpatia, dedicação e capacidade de trabalho foram alguns de seus atributos. E “ao lado de construir a Igreja-templo, nunca se esqueceu de construir a Igreja-comunidade... Estava disponível e acessível ao povo a qualquer hora, em qualquer lugar... inclusive gostava de visitar os enfermos nos hospitais”, de acordo com LADEIRA (nº?). “Todos ficávamos encantados como ele conseguia ajuda material do povo, quando se sabia que não era de ficar com peditórios”, realça o cronista, acompanhado por ALVES (n°?): “Só sabe distribuir bondade, compreensão, entendimento. Palavras medidas, e poucas, ouvidos abertos para as queixas, recursos vários para ajudar a alguém que esteja meio tonto no meio do caminho; mão estendida a quem dele solicitar e, às vezes, de pronto, até sem solicitação, ele se achega daquele que precisa, diz algumas poucas palavras sensatas, coloca ternamente a mão sobre a cabeça do indeciso, e seu ‘vai em paz, Deus está com você’, passa uma paz tão grande, dá uma certeza tamanha, que o indeciso sente a força divina, apruma a cabeça pendida, sorri para o amanhã, e acredita” [...] Num bairro grande, afastado, construiu a Matriz de Nossa Senhora de Fátima, nome do bairro que ele tornou nobre, grande, conhecido, graças à força com que se empenhou em erguer uma Igreja, sem pompas, sem dourados, mas a Igreja da fé, da constante presença dos fiéis em busca do Padre que a todos acolhe com a mesma atenção, o mesmo carinho. Chegou ao Hospital São João Batista, por designação sábia de Dom Luciano, na condição de Capelão e que presença alentadora é a sua visita aos enfermos, seu carinho com os que trabalham; à missa rezada semanalmente acorrem os devotos de São João Batista, os amigos do Hospital, os pacientes, os familiares. Para todos, o mesmo padre simples tem uma palavra de alento, de amizade”.
Cinco mil pessoas participaram de suas exéquias. Ordenado na Sé Catedral de Mariana a 30/11/1956?8?, celebrara sua primeira missa cantada no Santuário de Viçosa a 7/12 daquele mesmo ano. Pároco de Jequeri, de Pedra do Anta e de Calambau, capelão em Viçosa do Patronato Agrícola, Colégio Normal e Hospital São Sebastião, atuou em toda a dimensão pastoral além do soerguimento do templo físico. Fez-se a terraplanagem e em pouco tempo, com armação de eucalipto e bambu e revestimento de folhas de coqueiro, estava erguida a primeira versão da Igreja de Nossa Senhora. Sua grande disponibilidade e facilidade de comunicação conquistaram seus paroquianos, possibilitando a construção da moderna Matriz. Seus colegas de sacerdócio compararam seu perfil ao de São João Maria Vianey. Humilde, paciente, acolhedor, carismático, simples, sempre presente nas atividades de setores vários da vida de Viçosa, fiel à missão de pastor, era figura indispensável, essencial, na vida comunitária. Foi um ser humano “autêntico, comunicativo, alegre a amigo”, na opinião unânime de seus paroquianos. Padre Geraldo Martins Paiva foi um sacerdote “expansivo, caritativo, prático e operoso [...], sua santidade existencial era irradiante; seu zelo pastoral, ardente; sua sinceridade, atraente; seu tino administrativo, inigualável; seu devotamento à Igreja, ininterrupto; sua vida ilibada, brilhante como o sol”, na sábia definição de seu colega no Seminário de Mariana e conterrâneo Cônego José Geraldo Vidigal de Carvalho. Seus colegas de sacerdócio compararam seu perfil ao de São João Batista Maria Vianey. Padre Geraldo foi sucedido pelo padre Geraldo Francisco Leocádio.
A devoção a Nossa Senhora do Rosário teve seu primeiro marco em Viçosa em 1834, com a construção de sua primeira igreja no Largo do Rosário. Demolida em 1899, teve a sua reconstrução concluída em 1924, mas em agosto de 1965 sua segunda versão foi demolida, durante o arcebispado de Dom Oscar de Oliveira. Muitas das incipientes povoações da Mata Mineira eram dotadas, inicialmente, de duas igrejas. Uma delas geralmente tinha, necessariamente, como orago, Nossa Senhora do Rosário. Eram nelas que os escravos tradicionalmente realizavam o cerimonial de coroação do casal-rei do Congado, com seus capacetes e coroas enfeitados com fitas multicoloridas e pedaços de espelho, com a sua corte de instrumentistas formada pelo capitão-do-meio, secretário, vassalos, bamba e dançarinos, e com uma bateria em ritmo sincopado, cantoria, embaixadas e passos característicos. Em Viçosa, o último clérigo a celebrar missa na capela localizada, até 1963, no centro do jardim da atual Praça do Rosário foi o Cônego Francisco Lopes da Silva Reis (Padre Chiquinho), nascido a 30/11/1868, falecido a 22/4/1951 e sepultado no túmulo nº 7 do velho cemitério de Viçosa. Ele veio morar nesta cidade após servir como pároco, por longos 41 anos, da cidade mineira de Calambau, onde fora, como asseveram seus coetâneos, um amoroso apóstolo e verdadeiro instrumento de paz, perdão, união, educação, força moral, meditação, estudo, oração, ascese, mística e muita fé. Ordenado sacerdote a 19 de abril de 1896, Padre Chiquinho era filho de Francisco Lopes de Faria Reis e de Antônia Maria da Conceição. Teixeiras, velho distrito viçosense, foi a sua primeira paróquia, desde a ordenação até 1900, sucedendo aos padres Joaquim José Fernandes de Godoy (1881/82) e Anastácio Azevedo Correia de Barros (1892/95). Ali, sucederam-lhe os padres Antônio Moreira de Carvalho (1900/03), João Gomes Rodrigues (1903/08), Celestino Cesarini (1906/08), Antônio Moreira de Carvalho, Belchior Homem da Costa (1908), Antônio Carlos de Souza (1908/40), José Alves de Freitas (1940), Luiz Gonzaga da Silva (1940/41), João Silvestre Alves de Souza (1941/47), Carlos Antônio de Souza (substituto), Geraldo Valadares (1947/51), Napoleão Lacerda de Avelar (1951/88) e Sebastião Luiz Nogueira, a partir de 1988. Seu sobrinho, Cônego José Geraldo Vidigal de Carvalho, destaca a grande devoção do Padre Chiquinho à Eucaristia e a Nossa Senhora. "Muito dedicado à família, todo mês de agosto passava as férias em Viçosa, celebrando Missas nas diversas fazendas dos parentes as quais ficavam à margem da atual rodovia asfaltada na direção de Coimbra. Ele sempre teve também a seu lado aqui em Viçosa Joaquina Francisca dos Reis (Da. Quininha), sua irmã, que residia na Fazenda Bonsucesso", de José Batista da Silva Araújo (Duca Araújo). Residindo na Praça do Rosário, 15, com seu sobrinho Dr. Christovam Lopes de Carvalho, "todas as tardes reunia um grupo de pessoas para a recitação do terço. Enquanto pôde nunca deixou de rezar o Ofício divino, sendo que, quando sua vista não mais o ajudou, ele passava horas e horas rezando o terço, tanto que no final de sua vida havia uma funda marca entre o seu dedo indicador e o polegar por onde passavam as contas dos diversos mistérios", recorda-se o Cônego Vidigal, acrescentando que o alpendre do majestoso sobrado do capitão Joventino Alencar "era o lugar preferido para recitar suas orações. Quando veio definitivamente para Viçosa trouxe seus livros pelos quais se pode aferir sua notável cultura humanística, filosófica, teológica, Entre as obras que o Cônego José Geraldo conserva na sua vasta Biblioteca, sejam citadas as de Massillon, de Bourdaloue, de Lacordaire, de Monsabré, de Columba Marmion, de Monte Alverne, do grande moralista Aertnys, do Pe. Antônio Vieira, do Pe. Manuel Bernardes, Código do Direito Canônico e comentários sobre o mesmo, obras dos clássicos latinos como Cícero e Virgílio, os Lusíadas de Camões, Manuais de História da Igreja, de Filosofia, comentários sobre textos de Santo Tomás de Aquino. A maioria destes livros são da década de 1840, muitos em francês e latim, o que mostra que, mesmo antes de sua ordenação, ele já se dedicava com afinco aos estudos. Encaminhou muitos jovens para o Seminário de Mariana, sendo que chegaram ao sacerdócio Mons. Joaquim Dimas Guimarães, Pe. Francisco Miguel Fernandes, Pe. José Quintão Rivelli, Pe. Pedro Maciel Vidigal. Indiretamente, pela sua piedade e santidade existencial no término de sua trajetória terrena, muito influenciou na vocação sacerdotal de seus sobrinhos Côn. Pedro Lopes da Silva, Pe. José Silvério Carvalho Araújo, Pe. José Eudes de Carvalho Araújo e Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho. A fidelidade à Igreja Católica por parte da família Lopes Carvalho é, sem dúvida, em grande parte, devido aos exemplos do Côn. Francisco Lopes da Silva Reis, o saudoso Pe. Chiquinho. Muitos são aqueles que, visitando seu túmulo no Cemitério D. Viçoso, têm obtido graças especiais por sua intercessão junto do trono de Deus," conclui o Cônego Vidigal.

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São poucas as informações sobre antigos párocos e curas. Não chegaram aos tempos atuais sequer litografias retratando as figuras humanas de alguns desses clérigos que serviram ao povo viçosense. Perdidas estão, suas vozes e fisionomias, na bruma de um tempo que ficou pra trás. Imprimiram todos eles, certamente, indelével marca na espiritualidade dos nossos ancestrais. E se não chegarão aos dias futuros o que foi um pouco da vida de tão ilustres ministros sagrados, é certo que, conforme a crença de que Cristo vive, eles descansam para sempre sob a luz infinita da divina face Daquele que, segundo o evangelista, afirmara um dia a seu discipulado:

“Os céus e a terra passarão, mas as Minhas palavras não passarão” (Evangelho segundo São Mateus - Capítulo 24, versículo 35.)



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ELITE POLÍTICA: notícias de governantes

GOVERNANTES DE VIÇOSA

PRESIDENTES DA CÂMARA
(DO REGIME IMPERIAL PARA O REPUBLICANO)

Manuel Bernardes de Souza Silvino (1873-1876/1879-1881)
Carlos Vaz de Mello (1877-1878/1887-1891)
João Lopes de Faria Reis (1882-1886)

PRESIDENTE DO CONSELHO DE INTENDÊNCIA, PRESIDENTE DA CÂMARA COM ATRIBUIÇÕES LEGISLATIVAS E EXECUTIVAS E AGENTE EXECUTIVO AUTÔNOMO DESDE 24/7/1894 (RESOLUÇÃO Nº 110), QUANDO SE EXTINGUIU O CONSELHO DO DISTRITO-SEDE

José Theotônio Pacheco (1892-1897)

PRESIDENTES DA CÂMARA E PREFEITOS NOMEADOS NO REGIME REPUBLICANO

Francisco Machado de Magalhães Filho (1898-1905)
Francisco José Alves Torres (1899) - Vice-presidente da Câmara em exercício
Arthur da Silva Bernardes (1906-1907)
Augusto José Nicácio (1906-1907) - Vice-presidente da Câmara em exercício
Emílio Jardim de Resende (1908-1912)
Joventino Octavio de Alencar (1911) - Vice-presidente da Câmara em exercício
José Ricardo Rebello Horta (1912-1915/1916-1918/1933)
Antônio Gomes Barbosa (1919-1927)
João Braz da Costa Val (1927-1930/1937-1943)
Álvaro Corrêa Borges (1931)
Anelio Salles (1932-1933)
Antonelli de Carvalho Bhering (1934-1936)
Arnaldo Dias de Andrade (1936)
Cyro Bolivar de Araújo Moreira (1936-1937)
Sylvio Romeo Cezar de Araújo (1943 a 1945)
José Martins Palhano (1945-1946)
Carlos Vaz de Mello Megale (1947)

PREFEITOS E VICE-PREFEITOS E INTERVENTORES APÓS O ESTADO NOVO

José Lopes de Carvalho (1948-1950)
VICE: Carlos Vaz de Mello Megale

José da Costa Vaz de Mello (1951-1954)
VICE: Antônio Dias de Andrade Neto

João Francisco da Silva (1955-1958)
VICE: Arnaldo Dias de Andrade

Raymundo Alves Torres (1946/1947/1959-1962)
VICE: Moacyr Dias de Andrade

Moacyr Dias de Andrade (1963-1966)
VICE: César Sant'Anna Filho

Geraldo Lopes de Faria (1967-1969)
VICE: Carlos Raymundo Torres
Abel Jacinto Ganem Júnior (1969-1970) - Interventor

Carlos Raymundo Torres (1971-1972)
VICE: Arlindo de Paula Gonçalves

Antônio Chequer (1973-1976)
VICE: Antônio Mendes

César Sant'Anna Filho (1977-1982)
VICE: Renato Sant'Anna

José Américo Garcia (1983-1988)
VICE: José Borges Neto
Lacyr Dias de Andrade (1986) - Interventor
Geraldo Eustáquio Reis (1986) - Interventor

José Ferreira Pontes (1986) - Presidente da Câmara no exercício da Prefeitura
Roberto Proença Passarinho (1988) - Presidente da Câmara no exercício
da Prefeitura

Antônio Chequer (1989-1992)
VICE: Ary Teixeira de Oliveira
Ary Teixeira de Oliveira (1989) - Vice-prefeito no exercício da Prefeitura

Geraldo Eustáquio Reis (1993-1996)
VICE: César Sant'Anna Filho

César Sant'Anna Filho (1995) - Vice-prefeito no exercício da Prefeitura

Antônio Chequer (1997)
VICE: Fernando Sant'Ana e Castro

Fernando Sant'Ana e Castro (1997-2000)

Fernando Sant'Ana e Castro (2001-2004)
VICE: Raimundo Nonato Cardoso

Raimundo Nonato Cardoso (2005-2008)
VICE: Wesley Augusto Salomé de Castro

Raimundo Nonato Cardoso (2009-2010)
VICE: Lúcia Duque Reis

Celito Francisco Sari (2010-
VICE: Dirceu Teixeira Coelho


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A EDILIDADE VIÇOSENSE (1877-2010)


A cronologia dos mandatos dos agentes executivos e deliberativos até 2010 e outras informações, acrescidas de outras aqui publicadas permitem, evidentemente, análises as mais variadas sobre os diversos aspectos desses períodos administrativos, especialmente quanto à influência exercida pelas lideranças em todos os tempos, antes, durante e após os sucessivos desmembramentos territoriais devidos às emancipações distritais, desde os primórdios até a hora presente. Por uma análise primária da mera cronologia dos mandatos aqui apresentada não se consegue aferir o tempo exato de permanência individual no cargo de vereador. Muitos nomes apresentados são de suplentes, que tiveram que completar os mandatos de seus titulares. O recordista em termos de tempo de vereança ainda não suplantado no princípio do século XXI seria Geraldo Hélio dos Santos, reeleito sucessivas vezes pelo voto direto, mas há cidadãos que podem ter exercido o cargo por mais tempo que ele, como Arnaldo Dias de Andrade e Antõnio de Pádua Bittencourt.
Não é o propósito do presente trabalho aprofundar na questão, dada a sua alta complexidade. Ao compulsar as referências à cronologia dos desmembramentos dos distritos viçosenses, neste trabalho, o caro leitor poderá fazer uma melhor análise comparativa. As linhas infra trazem a lista da edilidade viçosense, que é a que conseguimos apurar nos arquivos do Legislativo (1877–2010) e também em velhos jornais e acervos públicos e particulares, numa minuciosa verificação cruzada.
Cabem aqui algumas observações: entre 1882 a 1886 consta como presidente o cidadão João Lopes de Faria Reis, que concentrava atribuições deliberativas e executivas. Não conseguimos localizar, portanto, até onde pudemos levar nossas pesquisas, nos registros documentais a que tivemos acesso, nos arquivos originais, livros de atas e de leis, da Câmara Municipal de Viçosa e da Prefeitura Municipal de Viçosa, quaisquer nomes de edis. O regime de intendência vigorou tendo como titular, em Viçosa, o marechal Dr. José Theotônio Pacheco, que governou o município de 1892 a 1897, até a extinção do Conselho do Distrito-Sede. No Estatuto da Câmara da Cidade Viçosa, promulgado em seu período administrativo (1894 - Tipographia da "Cidade Viçosa"), previa-se mandato trienal ao agente executivo (artigo 25 da "Secção Segunda") e a existência de "dous poderes: deliberativo e executivo, harmonicos e independentes" (artigo 3), "órgãos da soberania do Povo do Município da Viçosa, no exercício da administração municipal". Na "Secção Primeira", capítulo I", em relação ao Poder Deliberativo, o número de 11 vereadores, sendo "oito especiais e tres geraes", representando os distritos de Viçosa, Coimbra, Teixeiras, Anta, S. Miguel, Araponga, S. Vicente do Gramma e Herval. Nos arquivos, localizamos apenas 10 nomes durante o governo dele, em que, pela Lei nº 110, de 24/7/1894, foi criado o cargo de Agente Executivo Autônomo. O artigo 47 desta legislação municipal rezava serem empregados municipais o "Director da Secretaria" da Câmara, o "Official da Secretaria" e o "Porteiro da Cãmara", nomeados; e empregados do agente executivo "o procurador, collector de impostos e seus agentes, os fiscais e guarda-fiscaes". Dentro de uma relação dos maiores contribuintes de impostos, era então organizada a lista dos membros à Assembléia Municipal (artigo 49 do Estatuto da Câmara).
Nos períodos compreendidos entre 1931 e 1935 e de 1937 a 1947, a inexistência da vereança se explica pelas resoluções a que já nos referimos. A 18/8/1935 foi instalada a Assembléia Legislativa de Minas Gerais, e em 1936 Viçosa tinha 16 vereadores, sob a presidência do Dr. Juarez de Sousa Carmo. Essa situação do Legislativo funcionando não perdurou, pois a 10/11/1937 as suas atividades foram novamente suspensas. A democracia seria restabelecida, parcialmente, a 2 de dezembro de 1945.
Da primeira formação da Câmara, EM 1873, localizamos 7 nomes de vereadores; na segunda formação, 9 membros, e na terceira, 12 componentes. Entre 1898 e 1905, aparecem, nos registros, 45 nomes (governo Francisco Machado). E logo em seguida o número dos edis passa a variar de 12 a 21, até a década de 1930. E desde o final da década de 1940 os camaristas variaram de 11 a 19, contando-se os suplentes que assumiram mandatos.
Eis a lista, até o presente momento a mais completa possível, em sua mais perfeita ordem cronológica e alfabética:

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Manuel Bernardes de Souza Silvino - Presidente - (1873-1876)

MEMBROS

Antônio Pinto de Miranda
João Braz da Costa Val
Joaquim Gonçalves Fontes
Joaquim de Oliveira Ribeiro
José Lopes de Faria Reis
Manuel Bernardes de Souza Silvino
Pedro Nolasco da Silveira

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Carlos Vaz de Mello - Presidente - (1877–1878)

MEMBROS

Carlos Vaz de Mello
Christiano Eugênio Dias de Carvalho
Francisco José da Silva Cardozo
Joaquim Lino de Freitas e Castro
José Cardoso Dias
José Soares de Souza Lima
Manuel Bernardes de Souza Silvino
Manoel Isidoro da Silva Ramos
Silvestre Lopes de Faria Reis

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Manuel Bernardes de Souza Silvino - Presidente - (1879–1881)

MEMBROS

Francisco dos Reis Condé
Francisco José da Silva Cardozo
Francisco Lopes de Faria Reis
João Lopes de Faria Franco
José Cardoso Dias
José Lopes de Faria Reis
José Soares de Souza Lima
Luiz Mendes dos Santos Júnior
Manuel Bernardes de Souza Silvino
Manoel Isidoro da Silva Ramos
Nuno Teixeira Laje
Silvestre Lopes de Faria Reis

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João Lopes de Faria Reis - Presidente (1882-1886)

MEMBROS

Não há registro de nomes de vereadores durante sua presidência nos arquivos da Cãmara.


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Carlos Vaz de Mello - Presidente - (1887-1891)

MEMBROS

Antônio da Silva Araújo
Antônio Francisco de Souza Lima
Antônio Manoel de Freitas
Antônio Moreira Faria
Carlos Vaz de Mello
Joaquim Fellipe Galvão
José Eugênio Dias de Carvalho
Lauriano José de Gouvêa

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José Theotônio Pacheco - Presidente - (1892-1897)

MEMBROS

Antônio Correia Lima
Augusto José Nicácio
Carlos Pinto Coelho
Francisco José da Silva Cardozo
José Pereirinha de Rezende
José Theotônio Pacheco
Manoel Vieira de Andrade
Mário Vaz de Mello
Theopisto de Bittencourt Godinho
Vicente Gonçalves Fontes Sobrinho

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Francisco Machado de Magalhães Filho - Presidente -(1898-1905)

MEMBROS

Antônio Caetano Rodrigues de Barros
Antônio Lopes Soares Valente
Antônio Manoel de Freitas
Antônio Pádua Bittencourt
Antônio Pereira Baptista
Antônio Thomé dos Santos Phires
Antônio Tomé Teixeira
Arnaldo Dias de Andrade
Arthur da Silva Bernardes
Augusto José Nicácio
Augusto Maximiano de Carvalho
Dirceu Rodrigues de Salles
Fernando Augusto Medina
Fortunato Anastácio de Souza
Fortunato Antônio da Silva
Francisco Albino da Silva Vianna
Francisco Augusto Spinola
Francisco de Assis Bello
Francisco José Alves Torres
Francisco José da Silva Cardozo
Francisco Machado de Magalhães Filho
Hermenegildo de Souza Lima
João Coutinho
João Ferreira da Silva
João Jacovini
Joaquim Lopes de Faria
Joaquim Lopes Moreira
Jorge Gomes da Silva Roza
José Antônio Barboza
José Antônio de Oliveira
José Guedes de Bittencourt
José João Carneiro
José Joaquim Lourenço Júnior
José Manoel da Silva
José Theotônio Pacheco
José Tinoco
Lúcio de Vilhena
Manoel Ferreira Pinto
Manoel Joaquim Teixeira Lima
Manoel L. Jorge Júnior
Messias Nonato de Queiroga
Onofre Lannes
Raphael da Silva Araújo
Sebastião Tito Lopes de Sá
Vicente Gonçalves Fontes Sobrinho

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Arthur da Silva Bernardes - Presidente - (1906-1907)

MEMBROS

Antônio Manoel de Freitas
Antônio Pádua Bittencourt
Antônio Tomé Teixeira
Arnaldo Dias de Andrade
Arthur da Silva Bernardes
Augusto José Nicácio
Custódio Lopes Soares
Emílio Jardim de Resende
João Alves Ladeira
João Ferreira da Silva
João Jacovini
Joaquim Felippe Galvão
Joaquim Pedro de Oliveira
José da Silva Araújo Júnior
José João Carneiro
José Theotônio Pacheco
Joventino Octavio de Alencar
Silvestre Lopes de Faria Reis

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Emílio Jardim de Resende - Presidente - (1908-1912)

MEMBROS

Antônio Pádua Bittencourt
Arnaldo Dias de Andrade
Custódio Lopes Soares
Emílio Jardim de Resende
Heráclito da Costa Val
João Alves Ladeira
João dos Anjos de Macedo
Joaquim Pedro de Oliveira
José Antônio Savino
José Antunes Moreira
José da Silva Araújo Júnior
José Ricardo Rebello Horta
Joventino Octavio de Alencar
Olympio Castro de Rezende
Silvestre Lopes de Faria Reis
Synfronino José de Almeida

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José Ricardo Rebello Horta - Presidente - (1912-1915/1916-1918)

MEMBROS

Amadeu de Souza Freitas
Antônio Brandão de Rezende
Antônio Pádua Bittencourt
Arnaldo Dias de Andrade
Custódio Lopes Soares
Emílio Jardim de Resende
Heráclito da Costa Val
João Baptista da Silva Júnior
José Antônio de Oliveira
José Antônio Savino
José Antunes Moreira
José da Silva Araújo Júnior
José Ricardo Rebello Horta
Manoel Lopes da Silva
Olympio Castro de Rezende
Raphael da Silva Araújo
Sebastião Tito Lopes de Sá

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Antônio Gomes Barbosa - Presidente (1919-1926)

MEMBROS

Adalberto Sabino da Cruz
Agenor Alvim de Souza e Silva
Alceu Lopes de Faria
Antônio Ângelo Fialho de Oliveira
Antônio Brandão de Resende
Antônio Gomes Barbosa
Antônio Pádua Bittencourt
Arnaldo Dias de Andrade
Benvindo dos Anjos Macedo
Carlos Cunha
Emílio Jardim de Resende
Ernesto Lopes Soares
Honório Vieira de Andrade
João Braz da Costa Val
José Antônio de Oliveira
José Antunes Moreira
José Canuto Torres
José Teixeira de C. e Silva
José Victorino da Cunha
Pedro Pereira Santiago
Raphael da Silva Araújo

João Braz da Costa Val - Presidente - (1927-1930)

MEMBROS

Antônio Brandão de Rezende
Antônio Pádua Bittencourt
Arnaldo Dias de Andrade
Ernesto Lopes Soares
Francisco Miguel Archanjo
Gabriel Elias Pereira
João Braz da Costa Val
Joaquim Barbosa de Castro Filho
José da Silva Araújo Júnior
José Antunes Moreira
Manoel Fialho de Freitas
Ragosino Ferreira da Silva Pinto

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CAMARISTAS COM ATRIBUIÇÕES EXCLUSIVAMENTE LEGISLATIVAS

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Juarez de Sousa Carmo - Presidente - (1936-1937)

PREFEITOS

Antonelli de Carvalho Bhering, Arnaldo Dias de Andrade
Cyro Bolivar de Araújo Moreira (1º prefeito do governo municipal biorgânico)

MEMBROS

Antônio Lopes Soares
Arnaldo Dias de Andrade
Christiano de Freitas Castro
Christóvam Lopes de Carvalho
Cláudio José Mariano da Rocha
Gabriel Elias Pereira
João Francisco da Silva
João Maffia
Joaquim Nogueira
José Albino Leal
José Paulino de Rezende
Juarez de Sousa Carmo
Pérmio Fialho de Oliveira
Ragosino Ferreira da Silva Pinto
Raphael da Silva Araújo
Silvestre Alves Ladeira

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Octávio da Silva Araújo - Presidente - (1948-1950)

PREFEITO: José Lopes de Carvalho
VICE: Carlos Vaz de Mello Megale

MEMBROS

Alberto Álvaro Pacheco
Almiro da Silva Pontes
Antônio Faria Lopes
Antônio Pereira Soares
Arnaldo Dias de Andrade
Dorvino Coelho Soares
Francisco de Souza Fortes
João Francisco da Silva
João Maffia
Joaquim Nogueira
José Geraldo Santana Gomide
José Pereira Lélis
Mário Dutra dos Santos
Octávio da Silva Araújo
Silvestre Alves Ladeira

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Felício Brandi - Presidente - (1951-1954)

PREFEITO: José da Costa Vaz de Mello
VICE: Antônio Dias de Andrade Neto

MEMBROS

Alfredo Soares do Carmo
Antônio Gonçalves de Oliveira
Antônio Lopes Moreira
Antônio Pereira Soares
Arnaldo Dias de Andrade
Clibas Vieira
Deusdedith Lopes Nogueira
Dorvino Coelho Soares
Felício Brandi
Geraldo Lopes de Carvalho
José Brumano
José dos Santos
José Fausto de Castro
José Lopes Soares
Mário Dutra dos Santos
Moacir Ladeira
Oscar Rodrigues Milagres

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Arlindo de Paula Gonçalves - Presidente - (1955-1958)

PREFEITO: João Francisco da Silva
VICE: Arnaldo Dias de Andrade

MEMBROS

Almiro Fialho de Freitas
Antônio Maffia
Antônio Rodrigues Pontes
Arlindo de Paula Gonçalves
Carlos Vieira Machado
César Sant'Anna Filho
Francisco Lopes da Silveira Filho
Heitor Lopes Rosado
Moacir Ladeira
Otaviano Couto
Raymundo Alves Torres

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Sebastião Lopes de Carvalho - Presidente - (1959-1962)

PREFEITO: Raymundo Alves Torres
VICE: Moacyr Dias de Andrade

MEMBROS

Altamiro da Conceição Saraiva -
Antônio Chequer
Antônio Lopes de Freitas
Antônio Rodrigues Pontes
Cornélio Borges Coelho
Geraldo Rodrigues Cunha
José Rodrigues de Souza
Marina Viana Fontes
Michel Abraão Daibes
Omar Orlando
Oswaldo de Paula Lana
Sebastião Lopes de Carvalho
Sebastião Milagres

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Altamiro da Conceição Saraiva - Presidente - (1963-1966)

PREFEITO: Moacyr Dias de Andrade
VICE: César Sant'Anna Filho

MEMBROS

Altamiro da Conceição Saraiva
Antônio Augusto de Araújo
Antônio Chequer
Francisco Lopes da Silveira Filho
Geraldo Hélio dos Santos
Geraldo Rodrigues da Cunha
Jésus Lourenço
João da Costa Dias
José Medina Floresta
José Mendes Cardoso
José Rodrigues de Souza
José Valentino da Cruz
Ludovico Martino Filho
Michel Abraão Daibes
Omar Orlando
Oscar Rodrigues Milagres
Paulo Fernando de Souza

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Sebastião Ferreira da Silva - Presidente (1967-1969)

PREFEITO: Geraldo Lopes de Faria
VICE: Carlos Raymundo Torres

José Antônio Rodrigues Dias - Presidente (1969-1970)
Abel Jacinto Ganem Júnior - Interventor Federal
Mário Calvão da Silveira - Secretário do Interventor

MEMBROS

Altamiro da Conceição Saraiva
Antônio Augusto de Araújo
Antônio Chequer
Antônio Zaharãm
Geraldo Hélio dos Santos
Geraldo Rodrigues da Cunha
José Antônio Rodrigues Dias
José Medina Floresta
José Mendes Cardoso da Costa
José Rodrigues de Souza
José Valentino da Cruz
Ruy Barbosa Assis Castro
Sebastião Ferreira da Silva
Sebastião Lopes da Silva

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Euter Paniago - Presidente (1971-1972)

PREFEITO: Carlos Raymundo Torres
VICE: Arlindo de Paula Gonçalves

MEMBROS

Antônio Mendes
Antônio Zaharãm
Divino Mendes Galvão
Euter Paniago
Francisco de Castro Cardoso
Francisco de Paula Oliveira
Geraldo Hélio dos Santos
Gilberto Valério Pinheiro
Joaquim de Castro Rocha
José Medina Floresta
José Nazar da Cruz
Ludovico Martino
Mauro Roberto Martinho
Raymundo Alves Torres
Ruy Barbosa Assis Castro

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Mário Rocha Gomes (1973 e 1975) e Ruy Barbosa Assis Castro (1974 e 1976) - Presidentes

PREFEITO: Antônio Chequer
VICE: Antônio Mendes

MEMBROS

Adão Ladeira de Carvalho
Ana Maria Corrêa
Antônio Zaharãm
Elias Chequer
Francisco de Castro Cardoso
Francisco de Paula Oliveira
Frank Paiva da Cunha
Geraldo Hélio dos Santos
Gilberto Valério Pinheiro
Joaquim de Castro Rocha
José Fausto de Castro
José Medina Floresta
José Nazar da Cruz
Lacyr Dias de Andrade
Mário Rocha Gomes
Paulo Lopes da Mota
Pélmio Simões de Carvalho
Ruy Barbosa Assis Castro

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Gilberto Valério Pinheiro (1977, 1979 e 1981) e Geraldo Eustáquio Reis (1978, 1980 e 1982) - Presidentes


PREFEITO: César Sant'Anna Filho
VICE: Renato Santana

MEMBROS

Antônio José de Araújo
Custódio de Souza Parreiras
Elias Campos
Francisco de Castro Cardoso
Francisco Machado Filho
Geraldo Eustáquio Reis
Geraldo Hélio dos Santos
Gilberto Valério Pinheiro
Joaquim de Castro Rocha
José Joaquim Bezerra de Barros
José Mota
José Nazar da Cruz
Josephino Couceiro de Freitas
Lacyr Dias de Andrade
Manoel José Parzanini
Moacyr Dias de Andrade
Ruy Barbosa Assis Castro

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Roberto Proença Passarinho (1983-1984 e 1987-1988) e José Ferreira Pontes (1985-1986) - Presidentes

PREFEITO: José Américo Garcia
VICE: José Borges Neto
Lacyr Dias de Andrade (1986) - Interventor Estadual nomeado
Geraldo Eustáquio Reis (1986) - Interventor Estadual
José Ferreira Pontes (1986) - Presidente da Câmara no exercício da Prefeitura
Roberto Proença Passarinho (1988) - Presidente da Câmara no exercício
da Prefeitura

MEMBROS

Aloísio de Castro Cardoso
Carlos Herman Lehner
Elias Azis Alexandre
Elias Chequer
Francisco Machado Filho
Geraldo Hélio dos Santos
Joaquim de Castro Rocha Filho
José de Arimathéa Silveira Marques
José Ferreira Pontes
Josephino Couceiro de Freitas
Luiz Eugênio de Moura
Luiz Gonzaga da Silva
Manoel José Parzanini
Raimundo Eunício de Barros
Roberto Proença Passarinho
Ruy Barbosa Assis Castro

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1ª ASSEMBLÉIA ÔRGÂNICA MUNICIPAL

Arnaldo Dias de Andrade (1989-1990) e José de Arimathéa Silveira Marques (1991-1992)-Presidentes

PREFEITO: Antônio Chequer
VICE: Ary Teixeira de Oliveira
Ary Teixeira de Oliveira (1989) - Vice-prefeito no exercício da Prefeitura

MEMBROS

Arnaldo Dias de Andrade
Carlos Roberto Rezende Pereira
Euter Paniago
João Paulino Gouveia Netto
Joaquim de Castro Rocha Filho
Jorge Rafael Ferraz
José Antônio Gouveia
José Chequer
José de Arimathéa Silveira Marques
José Ferreira Pontes
José Maria Paiva
Ludovico Martino
Raimundo Nonato Cardoso
Raimundo Nonato da Silva Castro
Reiner Martins
Roberto Proença Passarinho
Rosângela Santana Fialho
Rosemary Batalha Araújo
Wantuir Lopes Ferraz

José Antônio Gouveia (1993-1994) e Fernando Sant'Ana e Castro (1995-1996) - Presidentes

PREFEITO: Geraldo Eustáquio Reis
VICE: César Sant'Anna Filho
César Sant'Anna Filho (1995) - Vice-prefeito no exercício da Prefeitura

MEMBROS

Ademar Gomes de Lima
Antônio Filomeno
Carlos Herman Lehner
Carmen Mendes de Oliveira Sant'Anna
Euter Paniago
Fernando Sant'Ana e Castro
Geraldo Magela Gouveia
Joaquim Tristão da Silva
José Ailton da Rocha
José Antônio Gouveia
José Fernandes
Raimundo da Silva Guimarães
Raimundo Nonato Cardoso
Vera Lúcia Fernandes Lehner
Wantuir Lopes Ferraz

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Wantuir Lopes Ferraz (1997-1998) e Raimundo Nonato Cardoso (1999-2000)- Presidentes

PREFEITO: Antônio Chequer (1997)
VICE: Fernando Sant'Ana e Castro
Fernando Sant'Ana e Castro (1997-2000)

MEMBROS

Aguinaldo Pacheco
Antônio Paulo da Cunha
Antônio Raimundo Charrão Rodrigues
Carlos Fernandes Nascimento Portes
Euter Paniago
Francisco Corrêa do Carmo
João Batista de Arruda
João Márcio Medina
Joaquim Moreira da Silva Filho
Joaquim Tristão da Silva
José Antônio Gouveia
José Chequer
Raimundo da Silva Guimarães
Raimundo Nonato Cardoso
Roberto Dias de Andrade
Vera Lúcia Fernandes Lehner
Vera Sônia Saraiva
Wantuir Lopes Ferraz

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Antônio Filomeno (2001-2002) e Pedro de Oliveira da Silva (2003-2004)- Presidentes

PREFEITO: Fernando Sant'Ana e Castro
VICE: Raimundo Nonato Cardoso

MEMBROS

Ademar Gomes de Lima
Adriano Henrique Ferrarez
Ângelo Chequer
Antônio Filomeno
Antônio José Maciel
Carlindo Rosa Loures
Carmen Mendes de Oliveira Sant'Anna
Euter Paniago
Joaquim Tristão da Silva
José Ailton da Rocha
José Antônio Gouveia
José Félix de Souza
José Helvécio Alves Moreira
Lúcia Duque Reis
Luciano Piovesan Leme
Milton Cardoso
Pedro de Oliveira da Silva
Rafael Kopschitz Xavier Bastos
Vera Lúcia Fernandes Lehner

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Vera Sônia Saraiva (2005-2006) e José Antônio Gouveia (2007-2008)- Presidentes

PREFEITO: Raimundo Nonato Cardoso
VICE: Wesley Augusto Salomé de Castro

MEMBROS

Ademar Gomes de Lima
Ângelo Chequer
Arnaldo Dias de Andrade
Cristina Fontes Araújo Viana
José Antônio Gouveia
Leandro Araújo Torres
Lúcia Duque Reis
Luís Eduardo Figueiredo Salgado
Raimundo da Silva Guimarães
Valter Sérgio Batalha
Vera Lúcia Fernandes Lehner
Vera Sônia Saraiva


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Cristina Fontes Araújo Viana (2009-2010) - Presidente

PREFEITO: Raimundo Nonato Cardoso
VICE: Lúcia Duque Reis
PREFEITO: Celito Francisco Sari
VICE: Dirceu Teixeira Coelho

MEMBROS:

Ademar Gomes de Lima
Ângelo Chequer
Antônio Elias Cardoso
Carlitos Alves dos Santos
Cristina Fontes Araújo Viana
João Batista Teixeira
João Januário Ladeira
José Antônio Gouveia
Lídson Lehner Ferreira
Luciano Constantino de Oliveira
Luís Eduardo Figueiredo Salgado
Marcos Arlindo Pereira
Marcos Nunes Coelho Júnior


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JUÍZES DE DIREITO DA COMARCA


Criação a 10 de novembro de 1890
Decreto nº 230
Instalada a 15 de março de 1892

(Outras informações na postagem "De distrito à autonomia administrativa, neste blog)


Nomes dos magistrados com ano da posse


Vara Única


João Olavo Eloy d'Andrade (1892)
Enéas Carrilho Vasconcelos (1892)
Alberto Andrade Figueiredo (1894)
Francisco Castro Rodrigues Campos (1902)
Horácio Andrade (1904)
Francisco Paula Fernandes Rabelo (1905)
Francisco Castro Rodrigues Campos (1908)
José Ricardo Rebello Horta (1908)
Francisco Machado de Magalhães Filho (1913)
Raul Cavalcanti (1927)
Lívio de Oliveira (1928)
Félix Geraldo de Moura e Silva (1934)
Francisco Martins Soares (1939)
Cândido Martins de Oliveira Júnior (1941)
Manoel do Bonfim Freire (1948)
Antero Viotti de Magalhães (1955)
Janyr Moacir de Castro e Silva (1957)
Oswaldino de Paula Salazar (1961)
José Norberto Vaz de Mello (1962)
José Felismino de Oliveira (1966)
Ivo Nogueira (1979)
Júlio Henrique Prado Bueno (1981)
Manuel Bravo Saramago (1987)


1ª Vara Cível


Pedro Coelho Vergara (1989)
Mário César Azambuja (1992)
Omar Gilson de Moura Luz (1994)


2ª Vara Cível


Ailton Felisberto da Silva (1989)
Fernando Alvarenga Starling (1991)
Osvaldo Soares de Paiva (1993)
Vander Cardoso de Oliveira (1996)
Maurício Torres Soares (1996)
José Carlos Marques (1997)


3ª Vara Criminal e da Infância e Juventude


Marilda Aparecida Danelon (1998)
Napoleão Rocha Lage


4º Vara (Juizado Especial)


José Xavier Magalhães Brandão (2001)
Rosângela Fátima de Freitas (2005)



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Ainda no regime imperial, quando existia o presidente da Câmara com atribuições deliberativas e executivas (de 1873 a 1890), o mandato municipal passara a ser trienal, desde o dia 7/1/1882 até o advento da República. De 1890 a 1892 a cidade de Viçosa fora governada pelo regime de Intendência. O Dr. José Theotônio Pacheco foi o cidadão que governou Viçosa naquela ocasião, quando se editara a Lei Mineira nº 2, de 14 de setembro de 1891, que instituíra os Conselhos Distritais, constituídos de três membros, e ainda as Assembléias Municipais, estas formadas por vereadores, por membros dos referidos Conselhos Distritais, sendo a outra metade de seus integrantes obrigatoriamente formada pelos maiores contribuintes locais de impostos. Fora aquela efêmera fase, portanto, a das Assembléias Municipais e dos Conselhos Distritais (de 1892 a 1895), a que nos referimos noutra parte do presente trabalho. A Lei nº 110, de 24 de setembro de 1894, instituíra o cargo de Agente Executivo, autônomo do de Presidente da Câmara e os antigos Conselhos Distritais foram extintos ulteriormente, pela Lei nº 373, de 17 de setembro de 1903. Entre outubro de 1892 e dezembro de 1929, Viçosa fora administrada por meio de resoluções, que totalizam nada menos que 536, obviamente já prescritas por sua antiguidade. Em 1898 o Conselho do Distrito da Sede já havia sido extinto, e de 1895 a 1931 o município fora administrado por esses tais agentes executivos autônomos. Pacheco foi Intendente Municipal, depois presidente da Câmara com dupla atribuição (Legislativa e Executiva) e finalmente Agente Executivo Autônomo, desde 24/7/1894, por força da Lei nº 110. No periodo pós 1894, a Assembléia Municipal se reunia apenas uma vez por ano, para julgamento das contas. Neste período Pacheco, foram representantes do povo os cidadãos Augusto José Nicácio, Carlos Pinto Coelho, Francisco José da Silva Cardozo, Mário Vaz de Mello, Vicente Gonçalves Fontes Sobrinho, Antônio Correia Lima, José Pereirinha de Rezende, Manoel Vieira de Andrade e Theopisto de Bittencourt Godinho. Confira, neste caso, a Resolução nº 67 de 17/12/1897, e uma ata da reunião de 24/11/1897, arquivada na Câmara, na qual consta alguns desses nomes. Quanto ao Governo Francisco Machado de Magalhães Filho (1898-1905), os "vereadores", na verdade eram os conselheiros distritais de Teixeiras, Pedra do Anta, Coimbra, Araponga, São Miguel do Anta e São Vicente do Grama, que compunham a edilidade de então, com mais de 40 membros.
Após a Revolução de 1930, até 1947, foram vários os interventores nomeados pelo poder ditatorial. Alguns desses cidadãos, forasteiros, aqui exerceram voláteis mandatos, mas outros realizaram profícuas administrações, a bem do povo viçosense. O interventor mineiro Olegário Dias Maciel dissolvera as Câmaras Municipais, por força da Lei nº 4.897, de 2/2/1931, instituindo os Conselhos Consultivos, formado por 5 membros, entre os quais os dois maiores contribuintes de impostos em seus municípios e 3 cidadãos de livre escolha do chefe do governo municipal. O ilustre filho da terra, Antonelli de Carvalho Bhering, fora o primeiro cidadão que sob a denominação de prefeito chefiou o Município, após a promulgação da Constituição Federal de 16 de julho de 1934. No dia 6/12/1929, o Dr. João Braz da Costa Val subcrevia em Viçosa a última lei, na condição de presidente da Câmara: a Resolução nº 536. Não há registro de quaisquer decretos ou resoluções da Casa no ano, revolucionário, de 1930. No dia 24/1/1931 ele assina, como prefeito, pela primeira vez, nomeado que fora a 14 de janeiro daquele ano, após ser mantido no cargo de presidente da Câmara pelo Governo de Minas, ao lado do qual se posicionara, apoiando a deposição do presidente da República, Washington Luiz Pereira de Souza, pela Aliança Liberal, opondo-se, portanto à Concentração Conservadora. O Decreto nº 1, subscrito por João Braz, data de 24/1/1931. A Carta Constitucional de 1934 é que instituiu, portanto, o Governo Municipal Biorgânico, ou seja, Prefeitura e Câmara, sendo o primeiro prefeito daquela nova fase o médico Cyro Bolivar de Araújo Moreira, já em 1936, sucedendo a Arnaldo Dias de Andrade. Até então os decretos 9776 de 6/11/1930, 9168 de 24/11/1930, 22.364 de 4/5/1932 e 20.033 de 29/10/1932 é que ditavam as normas para as resoluções das administrações públicas municipais. A 2 de dezembro de 1945 a democracia seria, em parte, restabelecida, ocasião em que assumiu a administração municipal, José Martins Palhano, sucedendo a Sylvio Romeo Cezar de Araújo. As primeiras eleições diretas para prefeito, após a queda do Estado Novo, foram realizadas no dia 23/11/1947, sendo Juiz Eleitoral da Comarca de Viçosa o Dr. Cândido Martins de Oliveira, júnior, quando o Dr. José Lopes de Carvalho foi eleito prefeito.
A presente pesquisa teve o propósito de resgatar a Memória de Viçosa, abrindo perspectivas para novos estudos. Buscamos, dentro de nosso amadorismo e limitações pessoais, temporais e espaciais, o resgate da herança histórico-cultural desta nossa comunidade, outrora parte integrante dos Sertões Proibidos, inicialmente ocupada pelos silvícolas Puris. Em nosso diletantismo, desejamos que a História de Viçosa não tão somente fosse resguardada, mas, sobretudo, partilhada. Que restem, inclusive de nossos agentes administrativos, nos anais da história, e quiçá, na lembrança de futuras gerações, um pouco além da mera citação de seus nomes e de seus períodos de governo. A carreira política, a vida partidária, a atividade econômica e a escolaridade formal de nossos agentes administrativos foi estudada por este blogger nos anais da Câmara Municipal de Viçosa e da Prefeitura, por entre as poeiras acumuladas de velhos arquivos de jornais, dentre outros documentos, especialmente cartas, à cata dos vestígios de alguns desses homens públicos e de seus governos. Depoimentos de contemporâneos e descendentes das personagens foram fundamentais e por esse motivo é que pudemos obter, de alguns deles, dados substanciosos.



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Manuel Bernardes de Souza Silvino (1873-1876/1879-1881)



O primeiro governante municipal de Viçosa, o antigo município de Santa Rita do Turvo, foi Manuel Bernardes de Souza Silvino. Não há muitos registros disponíveis daquele período nos arquivos do Município de Viçosa. Não localizamos registros de nascimento e óbito desta personagem, tampouco de sua vida conjugal, entretanto depoimentos de seus parentes nos levaram à hipótese de ter ele nascido em Santa Rita do Turvo. Presidiu ele a Câmara em dois períodos: 1873-1876 e 1879-1881. É datada de 12/4/1877 a ata relativa à “primeira sessão legislativa da primeira legislatura”, já sob a presidência do advogado e industrial Carlos Vaz de Mello. ALVES (nº ? ), relatando a inauguração da galeria dos presidentes da Câmara Municipal de Viçosa, a 30 de setembro de 1972, obra considerada "de pesquisa e estudo, de ânimo e tenacidade do professor Euter Paniago, digno presidente da Câmara Municipal", retratando então os "vultos que marcaram os passos cívicos de Viçosa." Referindo-se ao seu ancestral, Manuel Bernardes de Souza Silvino, o primeiro presidente da Câmara, ALVES relatou que este foi "localizado até contra a barreira do esquecimento dos próprios familiares", e que o professor Euter Paniago "reconstruiu uma galeria que falará, pelos tempos, da trajetória dos homens que teceram a ordem, a lei e o poder desta cidade centenária."
Sobre o primeiro presidente, realçou ALVES, naquela ocasião (década de 1970), a pesquisa do Dr. Euter Paniago que pesquisou fatos, acordou lembranças, fazendo chegar "aos nossos olhos e ao coração a imagem daquele que dormiria no esquecimento, ignorado, não fosse a preocupação sadia do moço-presidente de colocar, na lembrança das gerações presentes, aqueles que fizeram a história desta cidade." De fato o presidente do Legislativo de então viajou a Belo Horizonte, onde obteve de uma falecida parenta de Manuel Bernardes de Souza Silvino informações descritivas que ensejaram a feitura de um desenho a lápis, retratando o mais próximo do que teria sido o rosto do mestre-escola e tenente-coronel "Neca Coletor", o primeiro governante municipal, que figura na galeria do saguão da Câmara.
Sobre ele ALVES dedicou as seguintes palavras em sua crônica: "Encantou-nos na vida desse tenente-coronel, não a patente, não o cargo de coletor, nem tampouco a presidência que lhe coube. Mas a lembrança de que, nesta Viçosa, ele foi, acima da honraria, patente e cargo, MESTRE-ESCOLA. Numa terra inculta e virgem, sem luzes, distante do progresso, da civilização, o MESTRE-ESCOLA plantando, com sua paciência e devoção, as raízes da que seria mais tarde a CIDADE-CULTURA, honra e glória do Estado de Minas Gerais.
Desse Mestre, talvez venha a herança didática que marca os SILVINO, fazendo de cada membro desta família, que se espalha pôr Minas e outros Estados, um professor em potencial," acrescenta ALVES.
Outras informações sobre o contexto administrativa da época do governo Silvino podem ser lidas na postagem deste blog, intitulada "De distrito à autonomia administrativa".



Carlos Vaz de Mello (1877-1878/1887-1891)



Nascido em Vila Nova de Lima a 9/8/1842 (Freguesia de Congonhas de Sabará), depois Nova Lima (MG), filho do engenheiro Fernando Vaz de Mello e de Dona Sophia Adelaide de Andrade, Juiz Municipal de Órfãos da Comarca de Ubá desde 1866, por 4 anos, Juiz de Direito da Comarca de Rio Turvo (Termo de Viçosa e Ponte Nova), deputado à Assembléia Geral por dois mandatos, conquistados em1881 e 1884, foi membro da Comissão de Estudos do Projeto do Código Civil. Presidente da Câmara Municipal de Viçosa por duas legislaturas, data de 12/4/1877 a ata da “primeira sessão legislativa da primeira legislatura”, sob a sua presidência. Deputado pelo 3º Distrito entre 1894 e 1902 (quando optou pelo Senado e o presidiu de 1899 a 1902), fora o proprietário da Companhia de Fiação e Tecidos São Silvestre e da Fábrica de Tecidos de Santa Maria, em Viçosa.
Com seu prestígio, em 1885, ele conseguiu que chegasse a esta cidade a estrada-de-ferro. Os trilhos e dormentes da ferrovia The Leopoldina Railway se estendiam então a uma primitiva estação, edificada a seis quilômetros do centro da cidade, na localidade rural depois denominada Estação Velha. A facilidade de transporte permitiu aos viçosenses intensificar o seu trabalho, interessar-se por multiplicar a sua produção, na certeza de poder aproveitá-lo no comércio micro-regional e com regiões longínquas, sem as penosas caminhadas primitivas, sem as difíceis escaladas orográficas, sem as peripécias cruentas, mas vencendo a natureza com conforto, com rapidez, com segurança, em busca de melhoria da própria vida e em cooperação com o progresso da zona estadual e da riqueza nacional. Ainda no século XIX, em 1881, a vizinha São Geraldo (antiga Vargem do Presídio) tinha já inaugurada a sua estação. A ferrovia atravessava o Pontilhão do Sapecado em direção ao distrito de São Sebastião dos Coimbras. Em 1885, também com o fito de substituir as velhas tropas e carros de boi no comércio com os centros adiantados, inauguraram-se os trilhos da Estação Ferroviária de Teixeiras, que funcionou, com seus trens mistos, até 1980, na linha Ubá-Ponte Nova. Trecho intermediário de ligação da Estrada de Ferro Leopoldina, era uma junção de linhas diversas, originalmente isoladas, construídas em épocas várias. O trecho Entre Rios-Silveira Lobo foi aberto em 1903 e 1904. O seguinte, até a estação de Guarani, ficou pronto em 1883. Fora construído e também operado pela Companhia União Mineira, até ocorrer a entrega à E. F. Leopoldina, em 1884. O trecho até este ponto e Ligação ficou pronto em 1886. Entre 1879 e 1886 foi entregue o trecho até Ponte Nova. Entre 1912 e 1926, entregou-se a linha até Matipó (Raul Soares) e em 1931 a via férrea chegava, enfim, a Caratinga. Havia um trem diário, de Barão de Mauá, no Rio de Janeiro, até Caratinga (via Petrópolis), desde 1931. Sem trens de passageiros desde a década de 1980, a linha foi desativada em 1994 nos trechos Três Rios-Ligação e Ponte Nova-Caratinga.
Os nativos não poderiam deixar de encarar senão com simpatia essa perspectiva de progresso acelerado.
O vulto dessa obra, que Vaz de Mello então oferecia, era grande demais para aquela época e seria dispensável referirmo-nos aqui ao valor das ferrovias, especialmente naquele tempo, como fator progressista. A áquina vencendo as distâncias, varando os longes tinha ao mesmo tempo a faculdade de aproximar os filhos desta terra, não só nas suas relações de amizade, mas sobretudo no interesse material. Esses trilhos e dormentes foram como o traço de união dos sentimentos e dos interesses de toda uma gente laboriosa.
Fundador e diretor do primeiro jornal aqui surgido, o Cidade Viçosa, a 15 de novembro de 1892, desde o aparecimento deste, nele foram publicadas as leis e demais expedientes municipais, até 1931, sem solução de continuidade, por pelo menos 37 anos, passando depois para o Correio de Viçosa. A partir da década de 1950 toda a legislação municipal passou a ser publicada em jornais diversos da cidade (isto quando existiam), entre os quais o mais longevo, o Folha da Mata (antigo Integração e Folha de Viçosa).
Já no ano seguinte à fundação do Cidade Viçosa, em 1893, publicava-se naquele órgão de imprensa o 1º Código de Posturas Municipais, lei que recebeu o número 3. Dentre seus artigos, destacamos os seguintes:

"27 – É expressamente prohibido verter agua ou fazer outras precisões encostado as portas, paredes ou logar publico de modo que haja ofensa á moralidade publica; multa de 2$000 a 3$000 e duplo nas reincidencias;
32 – São prohibidos os batuques e cateretês em qualquer logar do Município, sob pena de dispersão do ajuntamento e 2$000 de multa a cada pessoa que nelle se achar e 20$000 ao dono da casa.
§ I – Todo o ajuntamento tumultuário, algazarras e vozerias nas ruas e casas, sob pena de dispersão e multa de 2$000 a cada pessoa e 10$000 ao dono da casa; sendo á noute o dobro da multa.
§ II – Cantar em voz alta por ocasião de guardarem cadaveres em casa mortuaria, fazer algazarra que a seriedade do acto não permitta, bem como encommendar-se alma com cantigas altas; multa de 10$000 ao cabeça e 2$000 a cada acompanhante.
36 – É prohibido correr a cavallo pelas ruas sem motivo justificado; multa de 5$000 e 5 dias de prisão.
38 – É prohibido escrever ou sujar paredes e portas com qualquer material; pena de prisão por 5 dias e multa de 10$000.
§ I – Pasquins injuriosos ou de qualquer maneira; multa de 3$000 e 10 dias de prisão.
41 – O carcereiro será obrigado a tocar o sino da cadeia, todas as noutes, ás 9 horas, multa de 5$000 por cada noute que não o fizer.
47 – É prohibido tirar esmolas pelas ruas e estradas sem licença das aucthoridades ou prova do seu estado valetudinario; multa de 5$000 e 5 dias de prisão.
51 – O negociante ou açougueiro que vender ou comprar por pesos que não sejão do systhema metrico afferido pelo padrão da Camara, pagará a multa de 10$000 e o dobro na reincidencia."

Eis um Edital extraído da edição do Cidade Viçosa, de 10 de junho de 1900:

"José Jacinto Dias de Sant'Anna, procurador da Câmara Municipal desta cidade de Viçosa etc. Faz saber aos que o presente virem ou delle notícia tiverem que foram arrecadadas como bens do evento e acham-se em depósito os seguintes animaes: um burro grande, calçado dos quatro pés, mascarado e de côr de pello de rato, muito velho e tem rotura na virilha, do lado direito; uma besta vermelha pequena de sete a oito anos de idade; um cavalo pampa, grande e muito velho com uma pequena estrela na testa; e um dito baio claro de altura regular, fazendo a última muda e tem uma pequena grossura no pé esquerdo. Convida, portanto, a todas as pessoas que se julgarem com direito aos referidos animaes a virem provál-lo perante o Doutor Agente Executivo, no prazo de sessenta dias, contados desta data, findo os quais se expedirá
edital para serem vendidos em leilão na forma da lei. Procuradoria da Câmara Municipal da Cidade de Viçosa, em 19 de abril de 1900. José Jacinto Dias de Sant'Anna."
Dr. Carlos Vaz de Mello faleceu a 3/11/1904, em Viçosa, estando sepultado, com a esposa, na quadra 2 do Cemitério Dom Viçoso, sob um hoje mal conservado mausoléu, mandado construir em 20/5/1906, pela Resolução nº 223, da Cãmara Municipal de Viçosa.

Eis o primeiro editorial de A Cidade Viçosa, de 15 de novembro de 1892:

"A CIDADE VIÇOSA

A folha que hoje entregamos a luz da publicidade sob a denominação que encima estas linhas, tem por principal intuito pugnar pelos direitos e interesses desta cidade e seo município, pondo em contribuição todos os esforços a seo alcance para promover o seo engrandecimento, progresso e prosperidade.
Alheia inteiramente as lutas e questões partidárias, ella não tem outra preoccupação nem outra politica que não seja a do interesse geral e do bem publico, entendendo que se em quaesquer circumstancias deve ser essa a principal, senão única, cogitação de todo cidadão que ama deveras o seu paíz e deseja vel-o grande, prospero e feliz, ella se impõe actualmente de modo imperioso e iniludível.
De feito, não pode ser de occasião propria nem azada para dissenções e recriminações partidarias, aqquela em que o paiz, á braços com as innumeras dificuldades, que o assoberbão, umas oriundas da profunda transformação porque acabão de passar as suas instituições em consequencia do novo regimen político e outras dos erros e falta de patriotismo daquelles a quem foi confiada a sua suprema direcção, precisa de toda a paz, socego e tranqüilidade para poder prover de prompto remedio aos males que o afligem.
Quando os mais temerosos problemas sociaes, politicos e economicos se impõem á nossa mais seria cogitação e ahi estão a reclamar instantemente uma solução prompta e em harmonia com os importantes interesses, a que affectão, parece-nos ser aquella a unica orientação verdadeiramente patriotica.
Hoje, mais que nunca, corre a todo cidadão o imperioso dever de sacrificar no altar da patria os odios e rivalidades politicas e postar-se firme e resoluto junto de sua gloriosa bandeira para defendel-a dos assaltos dessa horda de piratas e especuladores, que da mesma tentão se apossar para para cobrirem a avariada carga de seos incomfessaveis interesses.
E’ esse o nosso modo de ver e acreditamos e acreditamos que comnosco estão todos aquelles que sinceramente se empenhão pela união da grande familia brazileira e desejão ver a sua patria livre, grande e feliz.
Tomando a seos hombros a nobre tarefa de pugnar pelos direitos e interesses deste município, cuja população tanto se distingue pelo seo espirito de ordem, amor ao trabalho, e pela altivez e independencia de seo caracter, a – A Cidade Viçosa, - não não poupará esforços nem se furtará á sacrificios para, de modo condigno, desempenhar-se de tão honrosa missão, assegurando que não a farão vaccilar e nem recuar quaesquer embaraços ou tropeços que possão surgir em seo caminho para deter-lhe os passos.
Escudada na consciencia do seo direito e impulsionada sempre pelos mais nobres sentimentos, ella abrirá passagem por entre os parceis e arrecifes das agitadas e voluveis correntes da opinião sem receio de sossobrar.
Na apreciação e julgamento dos factos procurará proceder com a maior isenção de espirito, esquivando-se inteiramente á perniciosa influencia dos pequenos odios, paixões e intrigas locaes e sem se preoccupar com os interesses que por ventura n’elles se achem envolvidos e possão ser contrariados.
Externará sempre com a maior franqueza e independencia o seo pensamento e modo de dever , não se deixando prender por consideração de ordem alguma, uma vez que entenda que assim cumpre o seo dever.
Não regateando encomios á quem os merecer, será ao mesmo tempo inexorável e severa nas censuras que haja de fazer á aquelles que faltarem ao cumprimento de seos deveres civicos, por mais elevada que seja a sua posição ou cathegoria social.
As suas columnas estarão sempre francas para a defesa de todas as idéias e commetimentos nobres e patrióticos, aceitando de boa vontade a collaboração de todos os obreiros do progresso e engrandecimento da patria.
A causa dos opprimidos e dos fracos merecerá a sua mais decidida sympathia e a encontrarão sempre prompta e de arma ao hombro para combater os abusos, desmandos, attentados e violências praticadas por quem quer que seja.
Pugnando pela pratica dos bons principios e procurando innocular no seio do povo as idéias do ordem, moralidade, economia, e de respeito á lei e á autoridade, quando digna d’este nome, condições indispensáveis de toda a sociedade bem organizada e factores obrigados de todo o desenvolvimento, progresso e adiantamento social, espera esta folha captar a confiança e apoio da opinião sensata e imparcial, única com a qual se preoccupa.
Não tendo a pretenção de formular em programma, parece-nos que as poucas linhas que ahi ficão lançadas e com as quaes prefaciamos o primeiro numero desta folha, estereotipão perfeitamente os nossos intuitos, que se não são dos mais esclarecidos, tem ao menos o merito de serem sinceros e patrióticos.
Não sabemos a sorte que nos reserva o futuro, cujos arcanos a ninguem é dado devassar; se tivermos, entretanto, de succumbir em meio da jornada sem attingir o almejado alvo, nos ficará ao menos o consolo de haver mos feito o possivel para levar tambem ao altar da pátria a nossa modesta offerenda e de podermos dizer que não fomos inteiramente inúteis – non omne inutiles."



João Lopes de Faria Reis (1882-1886)



João Lopes de Faria Reis descendia de imigrantes judeus como Hanna Franco, vinda da Checoslováquia. E do alferes Jacob Lopes de Faria, oriundo de Capela Nova das Dores, tendo este chegado a Santa Rita do Turvo por volta de 1854. As famílias Faria Reis e Faria Franco, popularmente conhecidas como Jacob, por causa de seu ancestral, possuíam propriedades rurais e casas na cidade, como na Rua Direita (ou Rua de Baixo), atual rua Senador Vaz de Mello e no Largo da Matriz, hoje praça Silviano Brandão. Diversos registros históricos apontam nomes como o de Francisca, Joaquina, Silvestre, Antônio, José e Francisco Lopes, que geraram imensa prole hoje representada por famílias como Araújo, Machado, Barbosa, Potsch, Faria, Morelli, Gomes, Lage, Paniago, Lemos, Lopes, Martino, Schlottfeldt, Ferreira, Monteiro, Coelho, Rena, Silva, Valle, Laureano, Souza, Gomide, Gouveia, Mattiy, Fonseca, Vidigal, Janotti, Dias, Bicalho, Simonini, Tafuri, Neves, Modesto, Fernandes, Sant’Anna, Castro, Freitas, Torres e Magalhães.
Este blogger não cuidou de pesquisar a genealogia desta gente, e no caso desta personagem não certificamos datas de nascimento e óbito e tampouco a sua vida conjugal. Não certificamos, outrossim, os motivos e nem a data em que teria sido deposto este governante, por não existirem registros documentais nas fontes primárias. Francisco, Silvestre e José, outros membros da família Lopes de Faria, compuseram o governo municipal desde os seus primórdios, sob a direção de Manuel Bernardes de Souza Silvino. Embora a primeira sessão legislativa da primeira legislatura tenha ocorrido em 1877, sob a presidência do Dr. Carlos Vaz de Mello, sucessor imediato de João Lopes, os Faria Reis foram personagens diretamente ligadas ao processo de instalação do município, em 1873, ainda no governo provincial de Venâncio José de Oliveira Lisboa. Para que se inaugurasse a Vila de Santa Rita do Turvo, a 22 de janeiro de 1873, ainda no governo provincial de Joaquim Floriano de Godói, foi fundamental a participação das famílias Silva Soares Cabral, Gomes e Faria Reis, em 1872, no processo de cessão da primeira Casa da Câmara e Cadeia, na atual praça Silviano Brandão, nº 136, desde 1913 transferida pelo governo do Estado ao Gymnasio de Viçosa e demolida na década de 1950. A História do Brasil registra que naquele tempo existiam duas correntes: a dos Liberais e a dos Conservadores. Em artigo publicado no jornal Cidade de Viçosa, resposta a citação vinda a lume no jornal A Reação, também de Viçosa, em outubro de 1906, citado por LIMA (nº ) à página 20, Dr. Arthur da Silva Bernardes atribuiu ao seu antagonista, Dr. José Theotônio Pacheco, ex-deputado geral pelo Partido Liberal, a autoria da “perseguição” e deposição de João Lopes de Faria da Intendência Municipal. Não obstante não existam registros documentais, como já dito, relacionados às circunstâncias que culminaram na sua deposição, há relatos, versões desencontradas, de que houve, no ano de 1884, por ocasião da chegada dos trilhos da The Leopoldina Railway ao município, graves controvérsias, envolvendo interesses particulares de fazendeiros, que tiveram posicionamentos divergentes quanto ao traçado originalmente planejado para a via férrea, que cortaria, dentre outras propriedades rurais, a da família Faria Reis, cujo chefe se opôs às obras em suas terras, vetando-as. Não existem, outrossim, resoluções subscritas pelo intendente João Lopes nos arquivos da Câmara. Não há notícias de que dividira o Poder Municipal com conselheiros, ao contrário dos períodos administrativos anteriores e subseqüentes. As indicações, portanto, nos favorecem a crença de que Faria Reis fora um Conservador, centralizando em si todas as atribuições deliberativas e executivas municipais. Em 1883, Viçosa de Santa Rita tinha alistados 100 eleitores e, em 1886 eram 3.042 os escravos desta microrregião.
Durante seu período administrativo o mandato passara a trienal, desde o dia 7/1/1882. Outras informações sobre o contexto administrativo daquela época na postagem deste blog, intitulada "De distrito á autonomia administrativa".



José Theotônio Pacheco (1892-1897)



Nascido em São José do Barroso (MG), a atual cidade de Paula Cândido, a 3/1/1849 e falecido em Viçosa a 14/4/1915, era advogado formado em São Paulo a 4/11/1974, Juiz de Direito da Comarca do Prata, nomeado chefe policial da Província de Santa Catarina, Promotor de Justiça de Oliveira (1875), Juiz Municipal de Ubá (1876) e depois de Viçosa, Juiz de Paz e deputado federal à Assembléia Federal. Dr. José Theotônio Pacheco, casado com Dona Maria Thereza de Andrade, de tradicional família de Visconde do Rio Branco, pai de João Theotônio, José, Alzira, Maria da Conceição, Otávio Otaviano, Álvaro Alberto e Alberto Álvaro, legou a Viçosa extensa folha de serviços. Antes dele, Viçosa não tinha Legislação, iniciada em sua administração com a Resolução nº 1, de 1º de outubro de 1892. Sua posse como presidente da Cãmara representou, portanto, uma nova era, em termos de organização administrativa, logo após a Sublevação de 1892. Promulgou ele o Estatuto da Câmara da Cidade de Viçosa, a Lei Orgânica Municipal daquela época. Subscrito no Paço da Câmara a 21 de dezembro de 1893, por ele, pelo ex-pároco de Viçosa, Pe. Antônio Correia Lima, pelo Dr. Manoel Vieira de Andrade, José Pereirinha de Rezende, Theopisto de Bittencourt Godinho e Cel. Mário Vaz de Mello, impresso na Typografia da "Cidade Viçosa", a referida legislação, em seu capítulo II, que trata "DA SEGURANÇA INDIVIDUAL", traz, dentre outros, os seguintes artigos.

"Artigo 92. Toda pessoa que for encontrada embriagada pelas ruas será posta em custodia por 24 horas.
Artigo 93. E' prohibido sob multa de 10$000:
§ 1. Fazer vallos ou quaesquer escavações nas ruas e praças: obrigação de entupill-os quem os fizer alem da multa:
§ 2. Dar espetaculo sem a previa licença.
§ 3. Usar armas offensivas sem licença da autoridade competente; além da multa serão obrigados os infractores a entregar as armas.
Exceptuãm-se as pessoas que as usarem quando forem necessarias ao exercicio de sua profissão.
§ 4. Amarrar animaes em frente ás portas das casas ou nos passeios de modo que impeçam o transito publico.
§ 5. Montar animaes bravos ou amançal-os nas ruas e praças das povoações e correr a cavallo sem necessidade.
§ 6. Ter nas ruas soltos cães, porcos, cabritos e carneiros.
§ 7. Dançar baile, batuque, cateretê ou qualquer outra diversão com algazarra que encommode aos visinho, poderão porém usar taes brinquedos, desde que nelle reinem a ordem e paz, e que paguem ao conselho districtal uma licença de 5$000 por cada vez.
§ 8. Arrebentar pedras dentro das povoações perto das casas sem tomar precauções que evitem damno ás pessoas ou couzas; alem da multa de 10$000 prizão por 8 dias:
§ 10. Andar soltos pelas ruas da cidade e povoações gado, vaccum cavallar, muar, lanigero ou suino, os quaes serão recolhidos ao coural do conselho:
Artigo 94. E' considerado infracção contra a propriedade e punida com a multa de 30$000;
§ 1. Fingir-se inspirado por potenciais sobrenaturaes, attribuindo-se curador de molestias por meio de benzeções e feitiços: alem da multa, 8 dias de prizão.
§ 11. Matar peixe com veneno ou dynamites.
§ 12. Dar commodo ou pousada a ciganos por mais de 24 horas nos districtos do municipio, salvo caso de molestia provada attestado medico."
Na "SECÇÃO PRIMEIRA, CAPÍTULO I" da referida legislação, também está escrito:
... "Artigo 87. Affectarem publicamente sua prostituição as mulheres de vida airada nas ruas ou em casas, pelo trajar, gargalhadas, gestos ou por qualquer modo que offenda o decoro publico. Pena de prisão por um dia e multa de 10$000.
Artigo 88. Defecar ou ourinar em lugar publico: Pena 5$000 de multa.
Artigo 89. E' prohibido sem necessidade e fóra das horas dos dias festivos fazer vozerias, dar gritos, nas ruas ou praças, dar tiros, soltar foguetes á noite. Pena de multa de 10$000.
Artigo 91. Os vagabundos sem domicilio certo, os vadios por habito, que durante 8 Dias depois de intimados pelo fiscal, não tomarem occupação licita de que possão viver, serão multados em 20$000; e quando não tenhão meios para pagar a multa será esta convertida em prizão à rasão de 2$000 por dia."
Quando da inauguração da galeria dos ex-presidentes da Câmara Municipal de Viçosa, a 30 de setembro de 1972, neto do Dr. José Theotônio, o Dr. José Miguel Pacheco relatou em discurso, dentre outros, os seguintes aspectos do perfil caracterológico de seu avô: "Há mais de cinco decênios, faleceu nesta cidade aquele de quem vos falo.
Com tantos anos já decorridos de sua morte, é de presumir-se que já estejam apagadas as brasas das paixões que acendeu e das controvérsias pessoais que provocou, e a que estão sujeitos todos que já exerceram, ou ainda exercem, qualquer parcela de autoridade. Nenhum homem público, por mais perfeito e justo que seja, está livre desse ônus. Na presunção de que aquelas paixões ou controvérsias já estavam reduzidas a cinzas, passo a delinear, com palavras singelas, mas repassadas de saudade, os traços mais vigorosos daquele que ora nos toma a atenção. Ao seleto auditório que me ouve, peço escusas se a voz do coração falar mais alto do que a razão. De início, devo advertir que não conheci o homenageado, porque tinha apenas quatro anos quando faleceu. Este fato deixa-me bem à vontade para focalizar a sua imagem, moldada no meu espírito – através de informações exauridas dos seus familiares e amigos, bem como dos seus adversários políticos e dos trabalhos forenses e artigos de jornais de sua terra.
É possível, assim, que haja alguma torvação na áurea dessa imagem, que tem crescido com o passar dos anos, e que é tão cara aos membros da família Pacheco.
O homenageado conheceu a luz da vida em 3 de janeiro de 1849, na pitoresca Vila de S. José do Barroso, hoje Paula Cândido. Embora pobres, seus pais José Miguel Pacheco e Dona Leopoldina Cândida Pacheco, deram-lhe sólida educação religiosa e social. Cursou humanidades no Seminário de Mariana e no tradicional Colégio de Congonhas.
Foi discípulo dileto do saudoso arcebispo D. Silvério Gomes Pimenta, cujo qüinquenário de sua morte o Brasil inteiro ora comemora, com profundo respeito e admiração. O sábio e santo prelado votava grande amizade ao ex-discípulo e, quando em missão apostólica por estes rincões nunca deixou de o visitar e assistir.
Cursou o Dr. Pacheco a tradicional Faculdade de Direito de São Paulo, tendo ali colado grau de bacharel de ciência jurídica e sociais em 4 de novembro de 1874.
Tão logo diplomado, foi nomeado Juiz Municipal da Comarca de Ubá, sendo, em seguida, removido para o então Termo Judiciário de Viçosa. Concluindo o quatriênio de sua investidura ao cargo de Juiz, abriu banca de advocacia nesta Comarca. Em 1885 foi nomeado pelo Imperador Pedro II Chefe de Polícia do Estado de Santa Catarina, mas declinou da nomeação.
Voltando à magistratura, exerceu o cargo de Juiz de Direito da Comarca de Prata.
Abandonou, depois, a toga de Juiz para abraçar, com amor, a profissão de advogado e para a qual tinha grande vocação, e – aqui reabriu o seu escritório. Em pleito memorável e aqui realizado, foi eleito, em 1889, deputado da antiga Assembléia Geral, que foi dissolvida com a Proclamação da República. Exerceu por nove anos de Presidente e Agente Executivo desta Câmara e, por duas vezes, as funções de Juiz de Paz do distrito da cidade. Impossível seria traçar num discurso, que deve ter proporções bitoladas: a trajetória da vida dinâmica e agitada do homenageado. Mas não deixarei de delinear, embora de modo pálido e incompleto, algumas facetas de sua brilhante personalidade. Segundo aprendi dos que tiveram a felicidade de gozar de sua convivência, era dotado de qualidades excepcionais, a começar pelo físico. De estatura elevada e complexão apolínea, era forte e vigoroso. Contou-me o Dr. João Alfredo da Fonseca, brilhante e saudoso advogado dos auditórios desta Comarca que, quando o Dr. Pacheco exercia o cargo de Juiz do Termo local, foi desrespeitado e desacatado por três jovens soldados da Polícia. Para restabelecer a ordem e resguardar a sua autoridade, ele os prendeu na cadeia, à força de bengaladas e empurrões, e à vista estarrecida dos circunstantes. Era moreno, esguio, calvo, elegante no trajar, e usava longas barbas, à moda dos profetas. Dotado de inteligência vibrante e memória prodigiosa, recitava de cor longos trechos do “Paraíso Perdido” de Milton e da “Divina Comédia” de Dante. Revelou-me o saudoso Milton Campos que passou a infância nesta cidade, pois o seu pai aqui exerceu a judicatura por vários anos, revelou-me o saudoso Milton Campos que, quando criança, o Dr. Pacheco o colocava sobre a mesa de jantar de sua casa, e lhe ensinou a recitar os primeiros versos da obra imortal do grande vate inglês, seu homônimo, e que, muitos anos depois ainda os sabia de cor. Dominava com grande maestria o vernáculo e conhecia bem o grego. Era exímio latinista e falava e escrevia corretamente o inglês, o francês, o espanhol, o italiano, conversando, ainda, com os antigos escravos no seu próprio idioma de além mar. A sua biblioteca era vastíssima e continha muitas obras raras. Guardo, ainda, com especial carinho, na minha estante, algumas destas obras, cheias de anotações por ele feitas, com a sua letra miúda e quase ilegível. Orador primoroso, eloqüente e jocoso, eletrizava os ouvintes, logrando sempre brilhantes vitórias no Tribunal do Júri desta e das Comarcas vizinhas. Jornalista brilhante, feria sem ofender e criticava sem molestar.
Como Rui, de quem fora condiscípulo na vetusta Faculdade de Direito de São Paulo, tinha o espírito superior ao do seu tempo. Comprovam a assertiva as realizações ousadas para a época, que empreendeu nesta terra que adotou como sua. Como agricultor que era nas horas vagas, aqui formou rebanhos selecionados de gado vacum, nas imensas pastagens de suas fazendas, em terras hoje ocupadas pela Universidade Rural e pela Colônia Vaz de Melo. Chegou a formar grande rebanho de carneiros de raça pura que, às tardes de verão, eram tangidos pelas ruas bucólicas e tranqüilas da Viçosa Velha, para a alegria da garotada. Foi o primeiro apicultor racional destes rincões, chegando a criar abelhas pelo sistema mais moderno da época. No seu casarão da antiga rua das Vassouras, hoje denominada Virgílio Val – disto ainda me lembro e com que saudade – havia instalação completa de gás em todos os aposentos, máquina de lavar roupa movida a mão, gramofone, piano, carruagem de passeio de quatro rodas, forrada de veludo e sêda, além de outros objetos cujo uso ainda não era comum nem nas capitais, naquela época. Além de todas essas facetas que já servem para definir a sua personalidade, foi caridoso e humanitário, pois a primeira casa de saúde de Viçosa funcionou num barracão de sua propriedade, nos fundos do quintal de sua residência, com a assistência médica de seu compadre e amigo Dr. Loureiro – marido de D. Alice Vaz de Melo, cuja memória reverencio neste momento, por dever de justiça e gratidão" (...) "Parecia não ter vocação para a política, porque era sincero e leal para com todos, e a política, como já disse um publicista, é 'a arte de enganar'. Devido as circunstâncias, o homenageado envolveu-se nas malhas da política e, em companhia do Dr. Carlos Vaz de Melo e outros líderes locais, chegou até a ser revoltoso e a depor um Juiz de Direito da Comarca.
Empenhou-se em vários pleitos eleitorais, logrando vitória em quase todos, apesar das atas falsas, da votação dos defuntos e ausentes, das torças dos nomes dos eleitores e dos candidatos, de freqüente usança naqueles tempos. As derrotas que sofreu não lhe quebrantaram a têmpera de lidador, e jamais se intimidou com os alaridos e bravatas dos vencedores. A sua fibra espartana somente se arrefeceu quando o gládio lhe foi arrancado das mãos pelo vendaval da hora em que, no melancólico dia 11 de abril de 1915, entregou seu espírito a Deus, que hoje o tem no seio de sua glória."
A cidade de Viçosa e os municípios que constituem a sua região sempre tiveram muito a ver com grandes movimentos nacionais. Na Revolução Liberal de 1842, chefiada em Minas por Teófilo Otoni, diversos filhos de Pedra do Anta, Ponte Nova, Ubá, Paula Cândido, Viçosa, Tocantins, Dores do Turvo, Senador Firmino, Guaraciaba e Araponga, sob o comando do coronel Francisco de Assis Athaíde, incorporaram-se às forças legalistas, sufocando o movimento revolucionário sob a liderança do coronel Geraldo Rodrigues de Aguiar, que se refugiou em Rio Pomba, após sangrenta batalha em Visconde do Rio Branco. Viçosa e região também aderiram, incondicionalmente, a uma Sublevação, nos primórdios da República, em decorrência do golpe de 3 de novembro de 1891, que fechou o Congresso Nacional. Após a renúncia de Cesário Alvim ao governo de Minas, eclodiu em Viçosa, no governo de Eduardo Ernesto da Gama Cerqueira, ao movimento para deposição de autoridades judiciárias locais, com a participação dos principais chefes políticos de então, o Dr. José Theotônio Pacheco e o Dr. Carlos Vaz de Mello, este entre 1899 e 1903 presidente da Câmara dos Deputados. Viçosa viveu o clima da guerra civil que culminou com a ascenção ao cargo de presidente da República, do vice-presidente, Marechal Floriano Peixoto, que anistiara os presos políticos.
Viçosenses também participaram diretamente de duas guerras. Em 1864, do distrito de Pedra do Anta, José Luís da Silva Viana, ligado ao capitão-mor Luiz Manuel de Caldas Bacelar, integrou a Guarda Nacional e arregimentou voluntários para a Guerra do Paraguai, no sertão de Mato Grosso. Também o mestre-escola de São Miguel do Anta, tabelião e escrivão do 1º Ofício do Termo Anexo de Santa Rita do Turvo, um serventuário da Justiça de Viçosa, cadete Francisco de Paula Galvão, foi legítimo herói da Retirada da Laguna, combatendo pelo 17º Batalhão de Voluntários da Pátria, sob o comando do coronel Carlos Camisão e do brigadeiro José Antônio da Fonseca. Professor Francisco de Paula, hoje nome do pátio do Tiro-de-Guerra de Viçosa, sabaraense de nascimento, tornou-se capitão honorário do Exército. Filho do coronel Antônio Nunes Galvão, um veterano da Independência, faleceu na Fazenda do Bom Sucesso a 6/5/1904. Sua atuação na Batalha de Nhandipá, a 11 de maio de 1867 valeu-lhe o título de herói. Detentor da medalha conferida pelo Decreto nº 3.926, de 7 de agosto de 1867, Galvão foi laureado Cavalheiro da Ordem de Cristo pelo Decreto de 19 de agosto de 1867, tedo sido homenageado como Cavalheiro da Ordem da Rosa. Ele serviu ainda no 5º Batalhão de Guardas Nacionais em Poconé. Outros viçosenses que também estiveram no teatro de operações da Guerra do Paraguai, como registra a história, são o oficial de justiça Mariano Carlos da França Silvino, José Lopes de Faria Jacob, o curandeiro José Antônio Loiola, a indígena cuiabana Sinhana Paraguaia, Seraphim Sant’Anna e o relojoeiro João Cesário, do distrito de Cachoeira de Santa Cruz. No conflito mundial, a 2ª Grande Guerra, nossa região foi representada, tanto guarnecendo fronteiras, como no front por Almiro Rigueira de Carvalho, Anatólio Fontes de Oliveira, Antônio Amaro, Antônio Calixto da Fonseca, Antônio Julião da Silva, Antônio Pacheco, Domingos Teixeira Valente, Evaristo Gonçalves da Silva, Francisco Lopes de Souza Lima, Geraldo Augusto de Mattos, Irineu Tomás de Paula, Jacinto Berto da Silva, João de Freitas, Joaquim Ferreira Coelho, Joaquim Saraiva da Silva, José Batista Teixeira, José Guilherme, José Manoel Pinto Neto, José Maria Alves Torres, que registram livros, foi quem deu o primeiro rito de artilharia brasileira lá na Itália; Marino Lopes da Costa, Nagib Balut, Paulo Bernardo T. Duarte, Raimundo Luiz dos Santos, Sebastião Gomes da Silva, Sebastião Roberto dos Santos, Targino Silva, Tomás de Aquino Gonçalves e Wilson Rodrigues Bittencourt. Podem existir outros, cuja memória aqui não se descortina.
Legitimado pelo governo da República, o massacre de 25 mil sertanejos liderados pelo cearense Antônio Vicente Mendes Maciel, o “Antônio Conselheiro”, especialmente a quarta e última Expedição, com mais de quatro mil soldados e o combate de Cocorobó, considerado hoje um dos genocídios praticados no país, e que mobilizou aproximadamente 12 mil soldados, foi amplamente festejado em Viçosa, com direito a saudação do Dr. José Theotônio Pacheco ao “governo patriótico da República”. Considerado um “monarquista encapotado”, conforme LIMA (nº?), no dizer de seu adversário Dr. Arthur da Silva Bernardes, a edição de 12 de julho de 1897 do jornal A Cidade Viçosa, dirigido pelo major Mário Vaz de Mello, noticiava o regozijo, na cidade, pela "grande vitória do povo brasileiro" representada pelo arrasamento e “tomada do reduto do fanático Antônio Conselheiro". Casas e edifícios públicos se iluminaram e a Lyra regida pelo maestro José Jacintho Dias de Sant’Anna desfilou garbosa pelas ruas, além de terem sido espocados foguetes e dinamites ao som de muitas salvas ao presidente da República, Dr. Prudente José de Moraes Barros, ao Dr. Carlos Vaz de Mello e também ao general Arthur Oscar de Andrade Guimarães, comandante da derradeira expedição. Fato é que Antônio Conselheiro ainda vivia naquela data da referida edição do jornal A Cidade Viçosa, e a tudo resistia nos sertões baianos.
Outras informações sobre este governante municipal cujos descendentes hoje estão representados nas famílias Oliveira, Andrade, Camarão, Galvão, Marques, Bhering, Lopes, Bessone, Lisboa, Vieira, Moreira, Martins, Batista, Bastos, Terra, Comastri, Jacob e Macedo, na postagem "De distrito à autonomia administrativa" e "Educando a mocidade".



Francisco Machado de Magalhães Filho (1898-1905)



Descendente do Barão de Pontal, o Dr. Francisco Machado de Magalhães Filho, ex-promotor de Justiça da Comarca de Leopoldina, daquela cidade se transferiu para Viçosa, nomeado Juiz Municipal do Termo de Santa Rita do Turvo, empossando-se a 24/11/1883. Trinta anos após foi nomeado pelo governador Júlio Bueno Brandão, para o cargo Juiz de Direito da Comarca de Viçosa, empossado a 1º/3/1913. Entre 1907 e 1910 exercia ainda o cargo e, quando de seu falecimento, em Viçosa, a 8/12/1927, substituiu-o como Juiz do Foro local o Dr. Raul Cavalcanti. Antes de ambos exercera também o cargo de Juiz de Direito em Viçosa, desde 4 de junho de 1902, o pai do ex-governador de Minas Gerais, o pontenovense Dr. Milton Soares Campos, o consagrado jurista Rodrigues Campos, hoje nome do Palácio da Justiça, na capital mineira. Falecido a 10 de janeiro de 1939, em Belo Horizonte, filho de Faustino José Rodrigues Campos e Margarida Cândida de Castro Campos, Dr. Francisco de Castro Rodrigues Campos era mineiro de Angustura (Além Paraíba), nascido a 24 de julho de 1872. A exemplo do Dr. Francisco Machado, foram também promotor de Justiça de Leopoldina. Juiz municipal de Ponte Nova desde 1898. Diretor da Secretaria de Finanças e da Imprensa Oficial Rodrigues Campos exerceu ainda os cargos de procurador-geral do Estado. Em 1917, promovido a desembargador, presidiu o Tribunal de Apelação do Estado de Minas Gerais por oito mandatos, participando ainda da comissão do anteprojeto da Constituição Mineira de 1935.
Dr. Francisco Machado casou-se a 30/8/1888 com Dona Gragina Vaz de Mello, e a exemplo do ex-presidente da República, Dr. Arthur Bernardes foi genro do então principal chefe político local, senador Carlos Vaz de Mello. Foram filhos do Dr. Francisco Machado: Mário, José, Anna, Antônia, Vicente e Gerardo. Dr. Machado, ou Dr. Chiquinho, assim era conhecido na cidade, foi um dos militantes do Partido Republicano Mineiro (PRM). Nasceu em Furquim de Mariana a 25/2/1855, filho de Francisco Machado de Magalhães e de Dona Antônia Felícia Machado. Iniciou seus estudos em Congonhas do Campo, no colégio do Pe. Machado e foi aluno do Colégio Caraça e do Seminário de Mariana. Bacharelou-se em Ciências Jurídicas e Sociais na legendária Faculdade do Largo de São Francisco a 10/11/1881 e aqui manteve banca de advocacia juntamente com o sogro.
Outras informações sobre este governante municipal na postagem "Educando a mocidade" e "De distrito à autonomia administrativa", neste blog.



Arthur da Silva Bernardes (1906-1907)



Conforme assento paroquial subscrito pelo padre Manoel Felippe Neri, antigo Vigário de Viçosa, documento conservado no arquivo do Santuário de Santa Rita de Cássia, a 8/8/1875 nasceu Arthur da Silva Bernardes na Freguesia de Santa Rita do Turvo, filho do tenente-coronel Antônio da Silva Bernardes, advogado provisionado e Promotor de Justiça, natural de Castanheira da Pera (Portugal), que viera de São Caetano do Xopotó (atual Cipotânea) e falecera em Viçosa em 1910, e de Dona Maria Aniceta Bernardes, uma descendente do tronco dos Vieira de Souza, família pioneira do atual município de Rio Casca (MG), antigo Arraial dos Bicudos, falecida em Viçosa em 1919. O pequeno Arthur, que viera à luz numa casa que existiu antes da que pertenceu ao médico Raymundo Lopes de Faria, e que também já não existe, outrora situada exatamente onde há um edifício na esquina da rua Senador Vaz de Mello com travessa Presidente Tancredo Neves, foi batizado na Igreja Matriz de Santa Rita. No livro de Batismo nº 4-B, página 76, consta que foram padrinhos Antônio José Gomes e Maria Luíza Gomes de Jesus. Quarto filho de uma família de nove irmãos, Carolina (Cota), Antônio (Totone) - este também batizado em Viçosa em 1872, também conforme assento paroquial da Matriz de Santa Rita - , Alfredo, Isolina (Isola), Ana (Ninica), Angelina, Olívia e Olegário, a infância de Arthur foi marcada pelo trabalho. As melhores fontes dão conta da figura de um menino, conhecido de todos na cidade, “de calças curtas, de tecido riscado”, que entregava o leite todas as manhãs, proveniente do sítio que pertenceu a Otávio da Silva Bernardes, no local onde está o Clube Parthenon, no bairro Santo Antônio (Cantinho do Céu), onde até há pouco tempo havia vestígios de uma antiga construção. É exatamente nesse local que estaria a sede, ao tempo em que Artur Bernardes era leiteiro. "A antiga sede ficava na elevação em frente a este local, onde existem algumas palmeiras (a casa atual é de construção mais recente. Posteriormente, meu tio construiu uma casinha lá no canto, no final da rua, à esquerda, onde minha avó (Cota) passou a residir", conforme relatou José Bernardes Raposo, seu sobrinho-neto, a este blogger.
Aprendeu as primeiras letras em sua terra natal com mestres-escola. A 6/11/1887, a fim de estudar Humanidades, matriculou-se, na região de Ouro Preto, no Colégio Caraça. Devido aos poucos recursos financeiros de que dispunha, deixou, em 1889, o legendário educandário dirigido pelos padres Lazaristas. Trabalhou na firma Pena e Graça, do ramo intermediário de compras e exportação de café, estabelecida em Coimbra, distrito de Viçosa, tornando-se depois empregado da Casa Adriano Teles e Cia., um armazém de secos e molhados da cidade de Visconde do Rio Branco, onde, a partir de 1894, foi guarda-livros (contador). Valendo-se de pequenas economias, no mesmo ano, matriculou-se no Externato do Ginásio Mineiro, em Ouro Preto, concluindo exames preparatórios, em 1896, tendo se inscrito, inicialmente, como aluno ouvinte do 1º ano da Faculdade Livre de Direito de Minas Gerais, onde, simpatizante da política do Marechal Floriano Peixoto, incorporou-se ao Batalhão Patriótico Bias Fortes e foi redator do jornal estudantil Academia, órgão criado em comemoração da data da Abolição da Escravatura, além de trabalhar, naquele período, como estafeta dos Correios na então capital mineira.
Antes mesmo de se formar, em 1889, atuou na defesa de um réu no Tribunal do Júri do Fórum de Viçosa, numa sessão na qual seu próprio pai fora quem atuara na acusação. Transferiu-se para a Faculdade de Direito de São Paulo, capital em que se empregou como revisor do jornal Correio Paulista, órgão político partidário, tempo em que também pertenceu, como afirmam alguns historiadores, à Burchschaft, sociedade estudantil. Em São Paulo também foi aprovado em concurso para lecionar Português e Latim no Instituto de Ciências e Letras, servindo tal atividade para o custeio de seus estudos. A 2/12/1900 recebeu o título acadêmico de bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais e retornou a Viçosa, onde montou banca de advocacia em parceria com seu progenitor. (15/11/1905). Do Indicador de Viçosa constava que eram advogados, naquele tempo, além dele, Dr. Francisco Machado de Magalhães Filho, seu pai Antônio da Silva Bernardes. Dr. José Theotônio Pacheco, Dr. Emílio Jardim de Resende, o sexto cidadão que governou Viçosa; Francisco José Alves Torres, Joaquim Phellippe Galvão e José Augusto Nicácio. Em 1901 publicou no jornal Cidade de Viçosa um artigo, em duas séries, acerca da revisão constitucional. Foi nomeado promotor de justiça da Comarca de Manhuaçu, entretanto, não quis assumir este cargo. Em 1903, a 15 de julho, casou-se em Viçosa com Da. Clélia Vaz de Mello, falecida em 1971, no Rio de Janeiro, filha do senador e industrial Carlos Vaz de Mello, que fora o grande chefe político de Viçosa no Império e nos primórdios da República. Com ela teve os filhos Clélia (1904), Arthur (1905), Maria da Conceição (1906), Dhalia (1908), Rita (1909), Sylvia (1911), Geraldo (1912) e Maria de Pompéia (1922). Dhalia, Geraldo e Sylvia faleceram jovens e solteiros. Clélia, vivendo mais de século, casada com o embaixador Carlos Alves de Souza Filho; Arthur, casado com Sofia de Azeredo; Maria da Conceição com José Domingos Machado; Rita com o Dr. Cristiano Freitas Castro; e Maria de Pompéia com Roberto Flous. No ano seguinte Arthur Bernardes foi designado pelo agente executivo Dr. Francisco Machado de Magalhães Filho, de Viçosa, seu concunhado, para saudar o Dr. Francisco Sales, presidente de Minas, na Estação Ferroviária de The Leopoldina Railway. A 1º/11/1904 foi eleito vereador especial pelo distrito viçosense de Santo Antônio dos Teixeiras, tendo sido edil por pouco tempo: menos de dois anos. A 4/11/1904, por falecimento de seu sogro, substituiu-o no comando político de Viçosa, a 8/11/1904 (?). Juntamente com ele foram eleitos vereadores e juízes de paz os seguintes cidadãos: Cidade – Major Antônio Manoel de Freitas; Coimbra – capitão Arnaldo Dias de Andrade; São Miguel do Anta – José João Carneiro; Herval – Francisco Assis Bello; Araponga – João Jacovini; e São Vicente do Grama – João Ferreira da Silva. E vereadores gerais o Dr. José Theotônio Pacheco, o Dr. Francisco Machado de Magalhães Filho e o capitão Augusto José Nicácio, além dos juízes de paz da cidade, Joventino Octavio de Alencar e Pacífico Pires da Costa. Em janeiro de 1905 tornou-se diretor do jornal Cidade de Viçosa, órgão do Partido Republicano, onde se impôs “pela elevação de suas idéias”. Conforme LIMA ( nº? ), foi o seguinte o seu comportamento ao assumir a chefia da redação: “Doutrinando sem paixão, fazia ele o jornal de interior, vazado em linguagem elevada e veemente. ‘A Cidade de Viçosa’ dos anos de 1905 a 1910 era um jornal tolerante, que publicava até os nomes dos adversários de seu redator-chefe. O mesmo autor transcreveu o seu primeiro editorial, exarado, entre outros, nos termos seguintes: “Não desconhecendo os salutares ou perniciosos efeitos que uma imprensa é capaz de exercer sobre os costumes e os destinos de um povo, e consagrando amor profundo a essa terra, onde nascemos e onde nos sorriram os primeiros devaneios da juventude, cujo futuro, cujo progresso, não nos podem ser, por isso mesmo, indiferentes, sentimos não nos ser dado recusar nosso recurso para publicação de uma folha como esta, que durante doze anos só procurou nobilitar e engrandecer a Pátria, o Estado e esse Município. Há de ela, pois, continuar a ser o mesmo jornal sensato e criterioso de até aqui. As suas colunas continuarão franqueadas e sempre abertas a todas as causas nobres e justas que serão por nós esposadas e também defendidas com ardor e zelo. Nem a liberdade, nem o direito, de quem quer que seja, serão aqui sufocados pelo rancor de paixões inconfessáveis e más, as quais, deturpando as mais das vezes a verdade, só servem para desvirtuar o papel e contrariar os fins de uma imprensa patriótica, honesta e séria”.
A 9/6 do mesmo ano, indicado para presidir a Câmara Municipal de Viçosa, declinou do cargo, para aceitar entretanto sua eleição à vice-presidência, período em que exerceu, interinamente, a presidência da Casa. Em 1906 foi eleito presidente efetivo da Câmara, assumindo também os encargos de agente executivo, tornando-se, destarte, o quinto homem a governar Viçosa, até 1907, quando foi eleito deputado estadual pelo Partido Republicano Mineiro (PRM). A 17/6, escolhido 1º secretário da Mesa da Câmara Estadual, reeleito no ano seguinte. Entre 1909 e 1910 foi deputado federal. E de 1910 a 1914, secretário estadual de Finanças, revelando-se um autêntico municipalista. De sua autoria foi a lei nº 546, de 27/9/1910, que proporcionou ao Estado fazer empréstimos aos municípios para obras de saneamento “e outras de manifesta necessidade”. Sua política era baseada na preocupação com os municípios desde o início de sua carreira política. Ele costumava pleitear verbas bastante generosas para a Zona da Mata e Sul de Minas, concedendo-lhes empréstimos a longo prazo. Suas votações para os diversos cargos que disputou eram muito grandes nesses municípios. Quando foi secretário estadual de Finanças, “auxiliou imensamente os municípios através de empréstimos. Foi a Lei nº 546, de 27 de setembro de 1910, que facultou ao Estado fazer empréstimos aos municípios para obras de saneamento e outras de manifesta necessidade.[...] Essa lei foi a mais sábia combinação legislativa posta ao serviço do progresso municipal em nosso Estado. Graças a ela uma súbita transformação operou-se na vida dos municípios, despertados ao seu influxo para vários melhoramentos, aos quais consagram energias novas e criadoras que vão fazendo o desenvolvimento do interior”, diz uma publicação do Senado Federal. Como deputado estadual ele fez pelo menos onze discursos que tinham como tema a Agricultura, entre os anos de 1907 e 1910. Em 1913 a imprensa registrava os seguintes melhoramentos em Viçosa: variante da Estrada de Ferro Leopoldina, instalação de força e luz elétrica, esplêndido e copioso abastecimento de água potável, rede de esgotos, passeios cimentados em todas as ruas e praças, grupo escolar em vasto e majestoso edifício, jardim público, Colônia Agrícola no distrito da cidade, hospital em prédio próprio, a fundação do Gimnasio em prédio remodelado para tal fim, além da ligação de duas partes da cidade por aterro e nivelamento de uma rua.
O que agora é o velho galpão da antiga Rede Ferroviária Federal e depois da Ferrovia Centro-Atlântica, na praça Marechal Deodoro, foi um dia o grande marco do progresso regional, graças à eficiente e prestigiosa ação da Política Bernardista. Em 1914 concluía-se uma variante da via férrea entre as estações de Cajuri e Teixeiras, atravessando a sede do município de Viçosa, uma extensão de 18 quilômetros. Os trilhos e dormentes da ferrovia The Leopoldina Railway haviam chegado a Viçosa em 1885, numa realização do senador Carlos Vaz de Mello. A primitiva estação fora edificada a seis quilômetros do centro da cidade, na localidade rural depois denominada Estação Velha. Os nativos não poderiam deixar de encarar senão com simpatia essa perspectiva de progresso acelerado. Inclusive o prestigioso político de tendências monarquistas que fora seu ferrenho adversário em Viçosa desde que Bernardes se elegera à presidência da Câmara Municipal. Dr. José Theotônio Pacheco, que havia sido agente executivo de Viçosa por 9 anos, e que fez toda a questão de comparecer à festividade inaugural. Logo em seguida se retirou definitivamente da vida pública, encerrando uma oposição iniciada havia dez anos. Foi, para todos, uma melhoria de grande alcance, a cuja chegada uma multidão testemunhou a 31 de agosto de 1914. Da estação do atual centro da cidade partia uma linha férrea. Não é difícil imaginar que foi uma enorme felicidade assistir a realização dessa distenção ferroviária, o alongamento de uma estrada já existente, e que colaborou, estimulando o empreendimento não só agrícola, mas ainda o industrial e o comercial. A estrada de ferro, a cuja inauguração os filhos de Viçosa assistiram na administração de Dr. Arthur, com perspectivas de futuro oferecidas a seu amado torrão, foi digna, portanto, da mais sincera e unânime acolhida e do louvor de entusiasmo popular. O instante da chegada do trem de ferro à cidade foi um motivo demasiado significativo e impossível foi alguém silenciar, deixando de manifestar os parabéns ao principal propulsor de tão faustosa obra pública.
Entre 1915 e 1917, Bernardes foi deputado federal e em 1918 foi eleito presidente de Minas, quando viajou muito nesta estrada de ferro, sendo sempre recebido com calorosas manifestações, foguetes, ramalhetes de hortências, discursos e retretas musicais não só em sua terra natal mas nos diversos lugares em que desembarcava. “Asseguram testemunhos da época, que Bernardes fazia toda a viagem de trem, de Belo Horizonte ao Rio e vice versa, sentado na sua poltrona sem se mexer. Muito bem composto, de colarinho duro e ‘pince-nez’, nem sequer ajeitava o casaco. Somente os solavancos do trem abalavam, de quando em quando, a sua postura petrificada, fiel à forma modelada nos tempos do Caraça. Os adversários de Bernardes costumavam dizer que a sua vitória foi o triunfo do paletó abotoado” Revista Manchete de 2/4/1955). Uma dessas viagens especiais foi a de 28 de agosto de 1926, já como presidente do Brasil, e o jornal Cidade de Viçosa assim noticiou a chegada de um comboio a Viçosa: “Às 8 horas chegou à Escola o primeiro trem especial, conduzindo parte das comitivas presidenciais, do qual desembarcaram o senhor deputado Celso Machado, comandante Dodsworth Martins, ministro Camilo Soares, Dr. José de Almeida Campos, jornalistas da Gazeta de Notícias, Jornal do Comércio, A Manhã, Agência Americana, O Brasil e Vida Doméstica”. Cidade de Viçosa também descreveu a chegada do comboio presidencial: “Deu entrada este na Escola às 9 horas da manhã indo estacionar em frente ao Edifício Principal. Feito o desembarque dos senhores presidente do Estado e da República, ministro da Viação, secretário da Agricultura e suas comitivas, ao som do Hino Nacional executado pela Banda da Escola e fanfarra da Cavalaria da Brigada Policial do Rio que aqui chegara às vésperas. Compunham as comitivas as seguintes pessoas: excelentíssima senhora D. Clélia Bernardes digna esposa do senhor presidente da República e suas gentilíssimas filhas Rita e Conceição Bernardes; esposa do excelentíssimo senhor Ministro da Viação; deputados Francisco Valadares, Fidelis Reis e Oscar Loureiro; Dr. Noraldino Lima, general Antenor de Santa Cruz, chefe da Casa Militar do senhor presidente da República; Dr. Washington Vaz de Mello e senhora; Cel. Vieira Christo. José Vaz de Mello, Dr. José de Mello Machado, José Machado Filho; José Domingues Machado e Dr. Góis, da Casa Civil da Presidência da República. Após a missa campal, celebrada pelo Revmo. Pe. Álvaro Corrêa Borges, procedeu-se à bênção do Edifício Principal. A seguir teve lugar o ato oficial da Inauguração da Escola Superior de Agricultura e Veterinária (Esav). Duodécimo brasileiro a ocupar a Presidência da República dos Estados Unidos do Brasil, antes de atingir a suprema magistratura da nação, sofrera no período eleitoral intensa campanha caluniosa e difamatória. Entraram então em cena os forjadores das cinco famigeradas cartas, depois desmentidas em acurado exame grafotécnico, que atribuíam a Bernardes, em plena disputa presidencial, declarações insultuosas, “de próprio punho”, a oficiais do Exército, que provocaram violentas reações contrárias à sua eleição. De acordo com nota do Jornal do Brasil de 24/3/1955: “sua campanha presidencial foi processada num clima de irreprimível agitação, pelo episódio das ‘cartas falsas’, que prosseguiu durante todo o período do seu governo [...] Sua firmeza de chefe de Estado, servido por invulgar inflexibilidade de caráter e notável coragem cívica, fê-lo resistir a todas as conjunturas políticas do momento e dominar as crises militares”. Nessas correspondências o presidente do Clube Militar, Hermes Fonseca, era classificado, dentre outras coisas, de “sargentão sem compostura” e “canalha”. Quanto a isso, Gustavo Capanema disse ter conhecido bem Arthur Bernardes “em horas de grave perigo”, realçando que “ele era, em tais momentos, homem corajoso, impávido, renhido. Não conheci, sob esse aspecto, ninguém maior do que ele”. E como lembrou em discurso de paraninfa na UFV a Profa. Maria de Pompéia da Silva Bernardes Flous, sua filha caçula, ele “não conhecia o medo, mesmo nas horas mais difíceis de sua trajetória política. Rememoro três momentos de grande significado histórico: Não abandonou o Catete, nem mesmo quando revoltosos para lá se dirigiam a fim de bombardear o Palácio”. O Estado de Sítio, em 15 estados, durou 40 meses. As palavras seguintes, a ele atribuídas, revelam o perfil administrativo de quem foi denominado Representante da Autoridade Absoluta: “Quando se me apresenta um assunto, começo a estudá-lo, só e a fundo, ajudado pela minha experiência; depois reúno meus amigos, especialmente os de maior preparo na matéria; ouço as suas opiniões, analiso-as, observo ou aceito e, por fim, adoto a resolução que mais diretamente contribua para realizar o que aquele assunto exige do Governo. Tomada, assim, depois de longos e minuciosos estudos, uma resolução, levo-a à prática sem atender, na maior parte das vezes, nem o artigo do jornal da oposição, nem ao discurso do deputado adversário da minha política, porque sei que nem o jornalista, nem o orador se deram ao trabalho de estudar, tão seriamente como eu e meus amigos, o assunto de que se trata. Esta é uma das razões da inflexibilidade das minhas resoluções de Governo”. Eleito com 66.877 votos x 317.444, números homologados pelo Senado contra o escore 325.325 x 302.576, reivindicado pelo opositor Nilo Peçanha, em seu governo, a fim de assegurar vitórias eleitorais de correligionários regionais, chegou a anular atos da Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro e a enviar tropas à Bahia, visando sua reconstituição política, expurgando também opositores do Congresso Nacional, como Irineu Machado, senador da República. De acordo com a revista Veja de 12/6/2002, foi ele o primeiro presidente a construir uma prisão especial para adversários políticos, a Clevelândia, na região Norte do país, que chegou a abrigar 1.200 presos políticos, entre os quais os que em Foz do Iguaçu, oficiais gaúchos, se uniram na maior marcha guerrilheira da história humana: 25.000 quilômetros percorridos. Foi a Coluna Prestes (movimento tenentista) com 1.500 rebeldes, inclusive mulheres. Determinou o fechamento do jornal Correio da Manhã e a prisão de seu diretor, Edmundo Bittencourt, considerado seu adversário na campanha presidencial. Na Revolta de 1924, conflito bélico sem precedentes na cidade de São Paulo, que durou 23 dias, comandado pelo general Isidoro Dias Lopes, quando foi deposto o governador Carlos de Campos, atacado o Palácio dos Campos Elíseos e tomadas diversas prefeituras do interior paulista, Bernardes mandou bombardear, por aviões, os bairros da Mooca, Brás e Perdizes, obrigando rebeldes a se retirarem para Bauru, celebrizando-se a derrota de Três Lagoas, quando morreu um terço da tropa revoltosa. Durante 15 dias, 1.800 prédios foram danificados, 11 mil casas destruídas sendo registradas 503 mortes e 10 mil prisões. A tranqüilidade dos lares, as classes produtivas e trabalhadoras, a rigorosa economia administrativa e a emancipação econômica do Brasil, a severa fiscalização na arrecadação das rendas, o equilíbrio orçamentário, o regime penitenciário, a siderurgia, a produção nacional, o fomento à cultura do algodão e do carvão, obras contra as secas, o ensino técnico profissionalizante, a qualidade do transporte coletivo, o prestígio do poder público, a defesa da propriedade industrial, a carestia dos meios de subsistência, a educação da mocidade, a descentralização administrativa dos municípios foram algumas de suas maiores preocupações. De Viçosa manifestou sua preocupação inclusive com a beleza das flores de seus jardins públicos. Criou o Conselho Superior de Indústria e Comércio, o Conselho Nacional do Trabalho e as caixas de aposentadoria dos ferroviários, dando início ao Trabalhismo. Em seu governo houve a revisão constitucional que regulamentou a intervenção federal e permitiu uma melhor definição de atribuições dos três poderes da República, assegurando-lhes “perfeita harmonia de ação” e dando-lhes “o devido traçado do raio de independência”, na avaliação do próprio presidente. Tendo sido para Viçosa um administrador “metódico, progressista e financeiro”, o foi também para todo o Brasil, mantendo forte a moeda nacional, o equilíbrio orçamentário, das taxas de câmbio e a severa fiscalização da arrecadação das rendas. “Recebeu o país em angustiante situação econômica com déficit's orçamentários assustadores, dívidas externas onerosas, mas não permitiu que o país engolfasse no abismo. Providências tomadas com presteza equilibraram as finanças nacionais”, de acordo com o Cônego José Geraldo Vidigal de Carvalho.
Em diversas épocas, muitos homens públicos, entre os quais Raul Soares de Moura, se preocuparam com o empirismo e a imprevidência das práticas agrícolas em Minas Gerais, particularmente com a miséria da população rurícola. Mas foi Arthur da Silva Bernardes quem lançou as bases para a solução do problema agrário. Para ministrar ensino teórico e prático e experimentais, para o progresso da ciência, ele determinou que se criasse a Esav. Referindo-se à finalidade desta escola, disse o presidente Bernardes: “A agricultura tem necessidade de técnicos e peritos. À exploração da terra tem que ser dada, cada vez mais uma orientação científica. Aperfeiçoando-se os métodos de cultura, o Brasil, antes de tudo, tem de ser um grande país agrícola. Sem dúvida, temos que cuidar das indústrias manufatureiras em que tão grandes capitais estão empregados, tamanho interesse criaram à sombra das leis, devendo-se a tais indústrias a proteção necessária à sua conservação e crescimento sem sacrifícios. O grande interesse do Brasil está ainda na agricultura, está no aumento da produção, está na solução de todas as nossas dificuldades financeiras. O problema da produção está intimamente ligado à mão-de-obra. É preciso portanto fixar o interesse do trabalhador, tornar o meio mais agradável e próprio à vida, arrancando ao trabalhador a sedução da cidade; dar-lhe assistência e proteção; associar o trabalho ao capital, criando a harmonia e solidariedade dos interesses”. Data de seu governo a criação da Companhia Siderúrgica Belgo-Mineira e a semeadura da Esav, que se agigantou, floresceu e frutifica na pujante Universidade Federal de Viçosa, cidade detentora de alto índice cultural em seu estado. “Estadista de larga visão, compreendeu que se tornava indispensável e urgente que se modificassem métodos e práticas ultrapassados, no trato da terra e dos animais, em benefício da riqueza de Minas e dos mineiros. Homem de cultura polimorfa, sabia que só o conhecimento científico e o aprendizado sistemático poderiam alcançar os objetivos de uma agropecuária eficiente, racional e rentável”, destaca o escritor viçosense Prof. Tarcísio Gomide. Bernardes viu satisfeito a realização de sua antevisão, o funcionamento pleno da instituição. E resolveu elaborar de próprio punho uma missiva exarada em caracteres filigranados, e em bom vernáculo, manifestando regozijo com a obra que ele concebeu. A jubilosa correspondência está ainda a ressoar no espaço e no tempo. A festejar a Escola de Viçosa, são suas estas palavras: “Impressionado, na Presidência do Estado de Minas, com o fato de já contar o Brasil um século de vida política independente sem cuidar seriamente do ensino profissional, em que deve alicerçar sua futura grandeza industrial, criei-a com o alto objetivo de abolir o empirismo agrícola, a que tantos mineiros consagram suas energias, no amanho diuturno da terra como na criação e pastoreio dos seus rebanhos. Tendo me cabido a fortuna de criá-la como Presidente de Minas e tendo tido a satisfação de assistir, como Presidente da República, à sua inauguração oficial, regozijo-me ao vê-la, hoje, em pleno funcionamento e já despertando novos estímulos nas gerações moças, empenhadas, agora, numa atividade racional e científica, que há de conduzi-la a maior e mais fácil prosperidade. É o alvorecer de uma nova era que se abre nos destinos econômicos do Estado e do País, já se podendo antever uma larga messe e uma próxima e pujante colheita. Satisfeitos e contentes devem sentir-se quantos colaboraram nesta iniciativa, sobretudo os governantes que me sucederam, com os quais me congratulo ainda uma vez”. Como bem realçou o sociólogo Edgard Vasconcellos Barros, antigo docente da Uremg, “aí está hoje a obra de Arthur Bernardes, desdobrando-se em Universidade, crescendo à medida que passam os anos, nos quais se agigantará o seu vulto, projetando, para o futuro, o seu ‘pensamento reformista’”. Quando deixou a presidência, foram suas últimas palavras esta belíssima oração: “Rendemos graças ao Criador por ter nos dado a necessária fortaleza de ânimo no cumprimento do nosso dever para com a pátria. Dela, podemos dizer, como Cícero, que nos foi muito mais cara do que a própria vida”... “Quanto em nós se continha de amor à Pátria e à República, de energia moral e resistência física, demos, sem reservas, ao serviço da Nação”.
Empossado senador, sob apupos, em março de 1927, indo logo após para a Europa, retomou sua cadeira em maio de 1929, da qual afirmaria ele na sessão de 12 de setembro de 1929, como se transcreve à página 89 de AMORA (nº?): "A pena de morte é uma proteção à vida dos bons cidadãos, porque no Brasil os maus é que têm todo o privilégio em detrimento daqueles. Eis porque me parece justo o pensamento em estabelecê-la". Apoiava, então, sugestão do deputado Adalberto Correia. Ocupava ainda este cargo quando participou ativamente da Revolução de 3 de outubro, opondo-se à Concentração Conservadora, apoiando, portanto, a Aliança Liberal, ajudando a instalar o governo provisório. Em 1931, logo após o surgimento da milícia denominada Legião Liberal Mineira, Bernardes chegou a ser detido a mando da ditadura, enquanto ele articulava, com correligionários, a convenção para a reorganização de seu partido. Ao final daquele ano defendia ele a fusão da Legião com a sua antiga agremiação, o PRM, sendo que, em fevereiro de 1932, o chamado Acordo Mineiro decidiu pela criação do Partido Social Nacionalista (PSN), integrando ele a sua direção, mas que logo, em maio do mesmo ano, seria dissolvido. Insatisfeito com a dissolução do PSN e porque se procrastinava o advento da Constituinte, a 8/8/1932, lançou, por escrito, um Manifesto à Nação, no qual lamentou o “espetáculo doloroso da guerra civil” em São Paulo, aderindo à Revolução Constitucionalista, decepcionado com os “resultados negativos” do período discricionário de Vargas. Bernardes, do alto do varandim de sua residência, na praça Silviano Brandão, 69, manifestou-se solenemente convocando os viçosenses, que aderiram, incondicionalmente, ao movimento, pegando em armas, integrando batalhões de forças voluntárias nos diversos distritos. Dois de seus correligionários presentes ali no instante do discurso, relataram a este blogger detalhes do momento do pronunciamento de Bernardes e os graves episódios que se seguiram a este fato na microrregião de Viçosa. São eles José Simião da Cunha, ex-delegado regional de capturas e juiz de paz da Comarca de Viçosa e o economiário João Maffia Filho. Ambos estiveram entre os cidadãos que participaram, respectivamente em Porto Seguro e no distrito de Cajuri, do levante que Bernardes liderou, uma tentativa armada, e malograda, de deposição do interventor mineiro Olegário Maciel. Com o fracasso do movimento, pela precipitação de voluntários do Integralismo, que também aderiram ao levante, tropas policiais revistaram casas em Viçosa a procura de armas. A exposição das idéias do estadista motivou alguns atentados contra a vida dele e a sua conseqüente prisão, em 23 de setembro, na Fazenda da Luíza. A cavalo, andando de uma fazenda a outra, inclusive em Calambau, Bernardes acabou preso na citada fazenda, propriedade do casal Cornélio de Paula Lanna e Cândida de Paula Miranda, pais do professor Oswaldo Lanna, que relatou-me ter fortes lembranças do episódio. Disse-me ele recordar-se do dia de sua infância em que viu o vulto do presidente se ocultar sob um alcapão, na fazenda de seu progenitor. De acordo com TAFURI, “as famílias viçosenses sempre estiveram muito envolvidas emocionalmente nos fatos ocorridos em 1930, 32 e 37, seguindo seu líder Bernardes [...] O apoio da comunidade viçosense não faltou, também, a Bernardes, nos episódios que marcaram o golpe getulista, com a conseqüente instalação do Estado Novo, em 1937. Nessa ocasião, as famílias viçosenses, em quase sua totalidade, viram seus chefes e parentes saírem presos, entre os soldados, lotando a cadeia local. O grande crime: ser Bernardista”. Preso, Bernardes foi transferido para o Rio de Janeiro, e a 1º de novembro conduzido para o Forte do Vigia, no Leme, embarcando com sua família, a 4 de dezembro, no navio Astúrias, após tomarem uma lancha no cais da Polícia Marítima para se chegar à embarcação. Chegou em Lisboa no final de dezembro. Anistiado a 28/5/1934, retornou à sua Pátria, desembarcando no Rio de Janeiro a 12 de agosto e no dia 21, chegou a Belo Horizonte, tendo sido recepcionado em Viçosa no dia 3 de novembro do mesmo ano. Subscrito por Dr. Cyro Bolivar de Araújo Moreira, Dr. João Braz da Costa Val, Benjamim da Silva Araújo, José da Silva Araújo Júnior, Dr. Raymundo Torres, Dr. Juarez de Sousa Carmo, Verano Lopes de Faria Franco, Daniel Lourenço Baêta, José Jannotti Primo e Alino Corrêa Borges, um panfleto circulou na cidade desde 1º de novembro, com os seguintes dizeres, anunciando uma programação festiva: "Dr. Arthur Bernardes - Após dois annos de exilio chegará a Viçosa, no dia 3 do corrente, o grande viçosense Exmo. Sr. Dr. ARTHUR BERNARDES. Os amigos e conterraneos do eminente chefe, a quem Viçosa tudo deve, rejubilando-se com o auspiciosos acontecimento vão promover significativas festas, cujo programma é o seguinte: Dia 3 - Ás 4 horas da manhã - Alvorada com musica e fogos. Às 12 horas -Partida de um trem especial conduzindo amigos do homenageado a Ponte Nova, os quaes deverão acompanhar S. Excia. até esta cidade. De passagem por Teixeiras, receberá o Exmo. Sr. Dr. Arthur Bernardes os cumprimentos e votos de boas vindas de amigos e correligionários ali residentes. Em Silvestre, o eminente brasileiro será aguardado por uma commissão de viçosenses, que se juntará à comitiva. A partida do especial da estação de Silvestre será anunciada por foguetes, que serão soltos nos altos dos morros que circundam a cidade. Às 12 horas da tarde - Chegada do trem especial à estação de Viçosa, onde estarão commissões de senhoras, senhorita e cavalheiros de nossa sociedade, que receberão o ilustre viçosense e sua Exma. Família. Falará, no momento do seu desembarque, em nome do município de Viçosa, o Sr. Dr. João Braz da Costa Val. Em seguida seguirá para sua residencia, acompanhado pelo povo e ahi será a Exma. Sra. Da. Clelia Vaz de Mello Bernardes saudada pela senhorinha Anna Lopes de Castro, que falará em nome da mulher viçosense. Dia 4 - Ás 9 horas da manhã - Missa em acção de graças pelo feliz regresso do homenageado e de sua Exma. Família. Durante o resto do dia, as diversas bandas musicaes presentes tocarão, alternadamente, na praça Silviano Brandão. Às 9 horas da noite - Recepção nos salões do Viçosa Club. o Exmo. Sr. Dr. Arthur Bernardes será, ahi, saudado, em nome do Club, pelo Revdmo. Sr. Padre Álvaro Corrêa Borges. Diversos bailes serão organizados nos dias 3 e 4. Tomarão parte nos festejos as bandas de musica da cidade e dos districtos de Teixeiras, S. Miguel, Araponga, Calambau, Amparo do Serra e Conceição do Turvo."
A Razão, de 2 de setembro de 1934 (nº 29), editado em Viçosa, reproduziu trecho da reportagem d’O Estado de Minas que registrara a presença de 80.000 pessoas em Belo Horizonte, oriundas de todos os municípios mineiros, que “acclamaram, numa indescriptivel apotheose, o maior dos viçosenses”. A Razão, que estava em seu primeiro ano de circulação, e que tinha escritório de redação na praça Silviano Brandão, nº 32, hebdomadário, relatou “uma verdadeira apotheose que superou, sob todos os aspectos, as singulares festas com que o povo mineiro recebeu, em epochas differentes, Santos Dumont, Ruy Barbosa e Alberto I da Bélgica. Cerca de 80.000 almas acclamaram o ex-presidente Arthur Bernardes por occasião da sua chegada à Capital do Estado.
“Alguém já disse que a deportação do dr. Arthur Bernardes, em vez de fazel-o decahir na solidariedade e na estima dos seus correligionários, serviu para cimentar taes sentimentos dos chefiados para com o chefe, porque o exilio tem os seus elementos poeticos e estimula a imaginação popular. E um conductor de homens da tempera do dr. Arthur Bernardes ganha, sem o querer, com a proscripção, esses outros traços romanticos que falam, directo, ao fundo mystico da multidão. Por isso, o seu tão desejado regresso ao torrão bemdito da Patria que elle tanto ama, foi, sem sombra de exaggero, uma consagração. Por que? Que poder enfeixa elle nas mãos? Que auctoridade official se encarna na sua personalidade? Que homem poderoso é esse, que as élites e o povo envolvem no esplendido tumulto das acclamações? A resposta é muito simples.
Antes de um grande servidor da nação, Arthur Bernardes é um grande homem de bem, cuja culminancia moral, cultural e civica basta para garantir-lhe o domínio e a irradiação. A dictadura, visando a cortar-lhe a rota, embora não logrando attingil-o, premiou-o com o exílio. Mas, nem por isso, no seu animo, sobranceiro aos revezes em que a injustiça se desentranhe, não cabe o travo do odio, não se agasalham os resentimentos, que são o apanagio das indoles vulgares. Um espirito com a sua robustez de equilibrio, uma alma com o seu destemor sereno só pode atordoar, como tem atordoado, os phariseus liliputianos que corvejam cynicamente sobre a carcassa podre da Nação. E se lhes restasse uma pontinha de vergonha e de caracter, como deveriam sentir-se, nesta hora, diminuidos os homens que cometteram a inepcia de prendel-o e deportal-o! Arthur Bernardes é, para o Brasil, na hora que passa, um symbolo de liberdade e um grito de redempção,” realçou J. Pinto Coelho, na matéria de capa, intitulada “A triumphal ecepção do dr. Arthur Bernardes em Belo Horizonte”, reproduzindo ainda a minuciosa reportagem d’O Estado de Minas, que relatara a manifestação feita pelas classes conservadoras da capital e do interior mineiro.
“Sem nada ter para offerecer-vos, venho ainda perdir-vos para desatrelar Minas do carro da dictadura, pelo qual foi arrastada durante quatro annos.
Eu espero ver demonstradas a altivez e a independencia do povo mineiro a 12 de outubro, data desse desatrelamento”, concitou Dr. Arthur em seu pronunciamento, no Grande Hotel. “Pela praça Ruy Barbosa, na avenida Santos Dumont, na amurada da rua Sapucahy e adjacencias, estendia-se a multidão”, descreveu o Estado de Minas, acrescentando que o povo o ovacionava entusiasticamente., sendo que senhorinhas ofertavam-lhe e à esposa Dona Clélia, ramalhetes de cravos e outras flores naturais.
“Todos queriam ver os ex-presidente. As palmas e os ivas eram ouvidos a todo momento. Com grande dificuldade, conseguiu s. excia. chegar á porta do hotel e subir a escadaria, onde era aguardado pelas senhorinhas com vivas e flores.” (id. ibid). O Estado de Minas informou, ainda, que à frente dos oradores, no hotel, exibiam-se os brasões de Minas e São Paulo e uma larga faixa na qual se lia a célebre frase do estadista: “Quanto a mim, fico com São Paulo, porque para lá de transportou a alma cívica da Nação”.
A primeira sessão do Congresso após a Revolução de 1930 foi iniciada a 3 de maio de 1935, quando foram organizadas as chamadas Oposições Coligadas. Bernardes articulou desde setembro de 1934 a formação de partido nacional. A eleição de 17 de julho de 1934 foi indireta. Em 3 de maio de 1933 haviam sido eleitos os deputados à Assembléia Nacional Constituinte e, após a votação da nova Constituição, o pleito que reconduziu Getúlio Vargas à presidência, teve um total de 248 votos, dos quais 1, certamente de protesto, foi para Arthur Bernardes, que teve a mesma quantidade de sufrágios de Raul Fernandes, Plínio Salgado, Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, Afrânio de Melo Franco, Oscar Weinscheck, Paim Filho e Levi Carneiro. Getúlio Vargas teve 175 votos (70,58%), Borges de Medeiros, 59, Pedro Aurélio de Góis Monteiro, 4 e Protógenes Guimarães, 2 votos. Já em 1935, Bernardes foi o deputado federal mais votado, com 38.025 votos, e quando da adoção do Estado Novo, em 1937, ligou-se à União Democrática Brasileira (UDB). O Estado de Sítio de 1935, de 60 dias, foi por ele apoiado, a despeito de suas graves divergências ideológicas com o chefe da Nação. Transformado em estado de guerra, e prorrogado em 1936, já não teve mais o apoio do mesmo Bernardes que, exatamente um lustro antes da criação da Companhia Vale do Rio Doce, opositor ferrenho de um projeto de revisão de contrato da empresa Itabira Iron Ore, alertou seus pares em pronunciamento a 18 de julho de 1937, na Câmara Federal: "Em vez de darmos a concessão, abramos nós mesmos saída ao nosso minério para os mercados, aparelhando a Vitória - Minas, os cais e as companhias nacionais de navegação. Os navios brasileiros nos trarão de retorno o carvão necessário ao nosso consumo, inclusive para o fabrico do ferro e do aço". Em 1939 foi obrigado a confinamento (prisão domiciliar) na Fazenda Santa Helena, de sua família, em Viçosa, onde mantinha atividade empresarial. quando sua locomoção foi limitada a viagem entre sua terra e o Rio de Janeiro. No ano anterior, fora também exilado em seu lugar, Arthur Bernardes Filho.
Os viçosenses que viveram até a metade da década de 50 do século passado estiveram, de braços abertos, com flores, foguetes, vivas e bandas de música, para recebê-lo diversas vezes. Os moradores de Viçosa - assim dizem os mais velhos - aqui estiveram com o coração agradecido para testemunhar a sua solidariedade a Arthur Bernardes, e apresentar boas vindas ao ilustre comunícipe visitante. Seus regressos à sua cidade querida foram como que vida nova enxertada nos viçosenses, especialmente seus partidários do PRM. A proximidade dele trazia alegria aos corações dos viçosenses, que lhe estendiam suas mãos num gesto amigo, para lhe dizer: “Sêde benvindo!”
A 24/10/1943, assinou, em favor da redemocratização, o Manifesto dos Mineiros, como registra a História do Brasil. Em 1945, no novo Partido Republicano, e ao lado da União Democrática Nacional (UDN), apoiou um ex-aluno da Escola Militar de Realengo, criador do Correio Aéreo Militar, major-brigadeiro Eduardo Gomes (1896-1981), como candidato à presidência do Brasil, então derrotado. Em 1946, Bernardes foi eleito deputado federal constituinte, o menos votado de Minas Gerais. A 23/3/1955, quando morreu, exercia mais um mandato de deputado no parlamento brasileiro. Da biografia deste paladino do nacionalismo genuíno, opositor ferrenho da dilapidação, pelos estrangeiros, da hematita brasileira e dos três milhões e meio de quilômetros da Bacia Amazônica, consta que presidiu o Centro de Estudo e Defesa do Petróleo e da Economia Nacional (CEPDEN), sempre como um fiel cumpridor da advertência filosófica segundo a qual “o exercício dos direitos políticos deve sempre ter em mira não o interesse e o bem-estar de qualquer classe ou de um partido, mas um interesse e um bem-estar geral do Estado”. De acordo com depoimento do ex-deputado Cyro Maciel, "a participação de Bernardes nos debates da questão do petróleo brasileiro seria o grandioso remate de sua atuação na vida pública do País. Os anais parlamentares, as colinas dos jornais, os recintos de instituições onde se fez ouvir, guaram os ecos ainda vivod, de sua palavra de combatente pela solução monopolística na exploração dessa riqueza que ele acreditava existir em abundância no Brasil. Sua campanha residiu, primeiro, na teimosa afirmação, por muitos contraditada, da existência do petróleo em nosso teritório e, segundo, em que o próprio País deveria explorá-lo com recursos próprios, como indesviável exigência de nossa Independência econômica e de nossa soberania. O nosso interesse, dizia ele, é o de explorar monopolisticamente o petrólio, para que seus lucros fiquem no País, nele circulem, fomentem seu desenvolvimento, criem riquezas que proporcionem bem-estar aos brasileiros." Prosseguindo, Cyro Maciel disse também em relação a esta luta de Bernardes: "Era uma voz autorizada ecoando no cenário em que se debatia a histórica opção, o Congresso Nacional, onde ele dedicava no maior problema econômico do País suas derradeiras energias, convencido do grande serviço que prestava ao povo brasileiro. A votação da lei que criou a Petrobrás, consagrando a exploração estatal do Petróleo, foi a vitória final da vida do notável brasileiro. Ainda aó teve de defrontar incompreensões, de ouvir insinuações solertes, de superar resistências suspeitas. Mas hoje os poços petrolíferos que vão. a cada dia revigorando nossas esperanças nesse setor, vão também retificando o julgamento de muitos daqueles que antes o combateram. Pelas posições que assumiu na defesa das causas mais importantes para o progresso nacional, porque vinculou sua vida e seus esforços aos temas permanentes do País, porque tinha fé nas possibilidades do Brasil, porque confiava no seu destino, sua memória só tende a engrandecer-se na gratidão do País. A cada dia permanece atual. As lutas que enfrentou parecem ser as de hoje e de sempre numa Nação empenhada em devassas os caminhos de seu desenvolvimento e que, a cada êxito conquistado, a cada etapa transposta de sua emancipação, haverá de lembrar a ação precursora de seu grande filho... É já um septuagenário, mas mistura-se aos mais jovens e com eles arrosta os trabalhos da campanha." Dr. Juscelino Kubitschek de Oliveira, por ele apoiado na campanha presidencial de 1955, definiu-o: “Bernardes jamais foi um homem de atitudes repentinas, de posições graciosas e nele a preocupação nacional pairou sobre todas as outras”. E referindo-Se a mensagem de Bernardes ao Congresso Nacional em 1925, o mesmo JK disse o seguinte: “A mudança da capital federal para o planalto central é uma de suas preocupações, e não fossem as agitações que lhe perturbaram o quatriênio, quero crer que a esse objeto teria dado mais ênfase”.
Como realçou o jornalista Simão Cirineu Ladeira em mensagem a este blogger, “Arthur Bernardes - registram as biografias - era o Catilina Montanhês, homem que não errava, do dever, da vontade, vida limpa, alma forte, vencedor, que sabia escutar, jacobino, austero, severo, veraz, tímido, de raro riso, passo vagaroso, e, iluminado pela fé, de terço diário, assim como, mesmo em casa, marcavam-lhe o paletó e a gravata. O informal gênio Einstein, no Rio, obriga-se a comprar terno e a tomar gravata emprestada para se ter com ele...Para os adversários era: Seu Mé, sicário de Viçosa, Presidente do sítio, criatura deflorada, Lampião de Viçosa, calamitoso, carrasco de Clevelândia, bandido público, réprobo, rolinha, autoritário, chefe de polícia, inimigo das Forças Armadas etc. Maior que toda sua história repressora e algumas idéias descartáveis, como a defesa da pena de morte, subsiste, no entanto, sua imagem de nacionalista, que nos defendeu a Amazônia, no caso da Hiléia, enfrentando a Unesco, o petróleo, com “o petróleo é nosso”, ante a cobiça das petrolíferas estrangeiras, e o minério, encarando, como ninguém, os trustes de Percival Farquhar e sua Itabira Iron. Ou, na síntese de Gilberto Amado:“homão, o mineiro Bernardes, amante da autoridade, com quem casou para ser respeitado”. Este o mais ilustre filho de Viçosa”.
Um de seus biógrafos, Paulo Amora, assim o retratou: “Alto, esguio, de nariz aquilino, testa larga. Olhos castanhos, pequenos e irrequietos lhe boiavam no rosto comprido. Fixavam-se no interlocutor, ora em lances rápidos, ora com reflexos de doçura, como a lhe espelharem as reações da alma. Na mocidade, bigodes à Guilherme Hohenzollern. Apenas sorria, não ria. Vestia-se com esmero e certo requinte de elegância. Porte ereto, atitude impecável em qualquer circunstância. Apesar da austeridade do seu físico, era ele afável e ameno, acessível e cortês. A sua prosa era agradável, porém, severa, a dicção perfeita, escandindo bem as palavras, a voz cheia. Educado e cavalheiro, deixava sempre à vontade os que o procuravam, pois herdara a arte rara de saber ouvir”. Em derradeiro manuscrito que se tornou o seu epitáfio, dirigindo-se a amigos, correligionários e “brasileiros de boa vontade”, o grande patriota que foi Arthur da Silva Bernardes, em palavras de fé e esperança, afirmou que a sua preocupação de todos os momentos foi a grandeza e a felicidade do Brasil. Ele pôde dizer, às vésperas de completar 80 anos, ter sido o seu viver “mais para a Pátria”.



Emílio Jardim de Resende (1908-1912)



O major-coronel Dr. Emílio Jardim de Resende, que pertencera à Guarda Nacional em Viçosa e presidiu a Assembléia Legislativa de Minas Gerais em 1918, era filho da cidade mineira de Paracatu, nascido a 22 de janeiro de 1874, onde estudou na Escola Normal. Era filho do ilustre desembargador João Emílio de Resende Costa, de tradicional família mineira, e de Dona Virgínia de Oliveira Jardim. Casado em primeiras núpcias com Dona Emília Dias de Carvalho, com ela o Dr. Emílio teve os filhos Emílio, Lydia, Christiano, Dinah, Esther, Violeta e João. Casou-se depois com Dona Carolina Gonçalves Coelho, de cuja união nasceram Caio, Yolanda, Célia, Odette, Cícero, Sylvia e Carlos. Lecionou no Gymnasio de Viçosa e fora professor e diretor da Escola Normal, sendo ele um dos principais responsáveis pela vinda, para Viçosa, da Congregação das Irmãs Carmelitas da Divina Providência, que por sua vontade passaram a dirigir a Escola Normal Oficial.
Na Câmara dos Deputados, Emílio Jardim foi membro da Comissão de Orçamento da receita e despesa do Estado, sendo reconhecido por sua inteligência lúcida, operosidade e idéias ponderadas. As páginas 125 e 126 de SIMÕES (nº ?) trazem-nos o fac-simile de uma datilografada epístola de Dr. Arthur Bernardes, já na condição de ex-presidente do Brasil, ao seu dileto amigo Dr. Emílio. Neste documento, o tema é Viçosa e o Brasil:

"Paris, 5 de Dezembro de 1927.

Meu caro Emilio,

Vae este dirigida para a nossa amoravel Viçosa, onde já V. deverá se encontrar ao tempo de sua chegada no Brasil. É o que presumo por sua ultima, que não trouxe data. Não avalia como lhe invejo a sorte de voltar ao seio tranquillo dessa boa terra, ninho meu paterno, onde devaneiámos na mocidade e onde passámos dias alegres e felizes.
Depois de rude experiencia, adquirida em centros de maior civilização e cultura e no convivio com as mais altas camadas sociaes, terá V. julgado que mais felizes são ainda os que vivem na obscuridade e pacatêz das pequenas cidades do interior, onde se homiziam as virtudes e onde a ambição e a inveja não dispõem de vasto campo para exercer sua actividade damninha. Thomaz Ribeiro já dizia: Quem quizer vida suave, amor divino, feche na mansa aldeia o seu destino. Quantas vezes não me tenho lembrado desse conselho ante a illusão, desfeita, do que seja, em nosso paiz, servir a Patria, de verdade, promovendo-lhe o bem e agindo honradamente!
É forçoso, porém, considerar que, se deixarem, todos, se conduzir pelo egoismo da commodidade e não se dispuzerem aluns ao sacrificio de velar pelos supremos interesses da Nação, será peior e sorte da grande família brasileira e insustentavel nossa situação de povo no exterior.
Mas, por isso mesmo que é difficil a tarefa, e são mui poucos os politicos que lealmente a desempenham, não há fugir à lucta pela salvação nacional, a que temos vivido acorrentados pela força do destino.
Suggeriu-me estas considerações o trecho final de sua carta, com cuja conclusão concordo inteiramente: 'O tempo que aqui' (no Rio) 'passei, aproveitei-o bastante: aprendi alguma cousa de util a mim e a outros; estudei, observei homens e cousas, e, pelo conhecimento que adquiri destas e daquelles, cheguei á conclusão de estarmos num paiz infeliz'.
Elle retrata sem duvida a sua desillusão; mas é preciso não ter desfallecimentos! Meu pezar de ver o Brasil MAL ORGANIZADO, mal dirigido e agora anarchizado, já era profundo; e augmentou muito aqui, ao observal-o de fóra de de longe. Daqui se tem uma melhor visão de conjuncto e se avalia melhor o seu desprestigio perante o mundo!
Adeus! até por lá. Seja muito feliz nessa terra de enlevos e recordações... Remommende-nos aos seus, e amim aos bons amigos da cidade e municipio. Abrace por mim ao Tito e receba também um abraço, grande e affectuoso, do amigo de sempre

Arthur"

Veio o Dr. Emílio de Ouro Preto, onde prestou exames para exercer o Magistério, após formar-se em Direito, em 1919, na Faculdade Livre de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro. Lecionou Direito Civil na Faculdade de Direito de Juiz de Fora e em Viçosa foi diretor do jornal Cidade de Viçosa e Juiz de Direito, tendo sido deputado estadual pela 2ª Circunscrição para a 6ª Legislatura (1911-14), reeleito para 1915-18e deputado federal por 4 mandatos, entre 1919 e 1929. Eleito vice-presidente da Câmara Municipal a 11/1/1908 e presidente a 15/9/1910, terminou o mandato a 31/5/1912um dos próceres do Partido Republicano Mineiro (PRM). Á época de seu governo contavam-se em oitocentas as casas e não existindo ainda a Companhia Viçosense de Força e Luz, da qual o Dr. Emílio viria a ser advogado, o querosene era o combustível empregado em setenta bruxuleantes lampiões belgas que, à noite, tremeluziam em esquinas de nove ruas e cinco praças, como mostra a foto do edifício da praça Silviano Brandão, nº 5, sede da Câmara Municipal, construído durante seu período administrativo.
Data de sua administração, também, a assinatura de um importante convênio, para fornecimento de força e luz para os seus municípes. Um dos mais significativos dias para os viçosenses foi, sem dúvida, o 5 de novembro de 1912. Marcou aquela data a melhoria da qualidade da infra-estrutura dos serviços públicos, porque a Câmara firmou contrato por um período de cinco lustros com a Companhia Mercantil e Industrial "Casa Vivaldi", cuja rescisão contratual viria por força da Resolução Municipal nº 369, de 13/12/1917, no governo do Dr. José Ricardo Rebello Horta, conforme escritura de 10/11/1917, lavrada no Cartório Roquette, no Rio de Janeiro. Desde então, conforme a Resolução Municipal nº 369, a presidência da Câmara contratou com a Companha Fiação e Tecelagem "S. Silvestre' o serviço de fornecimento de força e luz elétrica ao município, concedendo-lhe o privilégio, também, pelo prazo de cinco lustros. O reservatório municipal de água naquele tempo comportava 200 mil litros, conforme registra CAPRI ( Nº ?). Captado na Fazenda da Conceição, descia, por gravidade, o líquido precioso ao Largo de São Francisco (praça Dr. Christóvam Lopes de Carvalho), atravessando o pasto dos Barros (avenida Santa Rita)com destino ao Morro do Cruzeiro (rua Pe. Serafim). Naquele tempo, à "Grande Viçosa" pertenciam os rios Turvo Sujo, Turvo Limpo, Casca, Turvão, Sant'Anna e São Domingos, as cachoeiras Alegre, Escura, Grande do Casca, São Silvestre e Varadouro e também a Lagoa do Herval. Sobre este assunto leia no presente trabalho a postagem intitulada "Força, Luzes e Comunicações"
O Dr. Emílio Jardim veio a falecer em Juiz de Fora (MG), a 9 de outubro de 1948.



José Ricardo Rebello Horta (1912-1915/1916-1918/1933)



De outro administrador, Dr. José Ricardo Rebello Horta, chegaram aos nossos dias as informações de que ele, antes de administrar Viçosa, fora aqui Juiz Municipal e Promotor de Justiça em Campo Belo, São José do Paraíso e Viçosa, nesta última cidade desde 27/2/1908 até o ano de 1912.
Eleito presidente da Câmara para o período 1912-1915, foi reeleito de 1916 a31/12/1918. Dr. Horta, falecido a 5/6/1948 e sepultado em Viçosa, era casado com Dona Maria Noemi de Andrade Horta, nascida a 15/3/1885 e falecida também em Viçosa, a 23/12/1973. Bacharelou-se o Dr. Horta em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito de Minas Gerais a 2/12/1906. Nascera em São Domingos do Prata (MG) a 21/4/1879. Foi também parlamentar à Assembléia Legislativa de Minas Gerais.
Desenvolvia-se em Viçosa, e bem, à época do governo de Dr. Horta, um outro tipo de ndústria, que não a do ensino. Aqui predominava o beneficiamento pastoril. Havia a Companhia de Tecidos e Fiação S. Silvestre, em Silvestre, esta de propriedade do Dr. José Felipe de Freitas Castro, que passou a ter o seu regulamento de fornecimento de energia elétrica para a população viçosense desde 15 de abril de 1918(conforme a Resolução Municipal nº 373, de 23/9/1918, arquivada na Câmara Municipal e folhas 46 e seguinte 1 a 3v. do livro de notas nºs 62 e 63, que versa sobre o contrato por escritura pública lavrada no Cartório do 2ª Ofício da Comarca de Viçosa) e a Fábrica de Tecidos de Santa Maria, na Rua Municipal ou antiga Rua das Vassouras (na atualidade, a rua Virgílio Val), ambas de efêmera existência.
O verdadeiro progresso viria com a extensão da via férrea até o atual centro da cidade, em 1914. Até en